sexta-feira, maio 11, 2018

(DL) Há 150 anos Dostoievski andava a escrever «O Idiota»


No mínimo estimulante a proposta de leitura de «O Idiota» de Fedor Dostoievski por Gary Saul Morton na «The New Criterion» deste mês. O artigo decorre de passarem cento e cinquenta anos desde que o escritor enviou ao seu editor os primeiros capítulos daquele que seria um dos seus mais importantes romances. Na altura ele andava fugido da Rússia com a segunda esposa, Anna Grigorievna, porque os credores não poupavam esforços para lhe exigirem o pagamento das avultadas dívidas. Ademais não era apenas a si, a Anna, e à filha de ambos, Sonya, que tinha de garantir o sustento, já que também se responsabilizava pela do filho da primeira esposa e pela família do irmão, entretanto falecido. Daí as dificuldades de encontrar suficiente serenidade para se dedicar ao novo romance, até porque os ataques epiléticos o continuavam a acossar com desusada frequência. Ademais, e ao contrário do que Anna esperara, o vício do jogo não estava debelado, continuando a roleta a levar-lhe os poucos rublos que o diário de Katkov, com quem assinara contrato para uma história em folhetins, lhe ia prodigalizando.
Entre 1867 e 1868  Dostoievski, Anna e Sonya tinham-se visto obrigados a mudar de casa por cinco vezes, sempre escapando a senhorios a quem haviam deixado a renda por pagar. Anos depois, ele confessaria a culpa de não ter-se comportado de outra forma, pois a filha morrera como consequência das privações a que a sujeitara.
«O Idiota» tem por protagonista o príncipe Myashkin, que lida com o autor dos piores crimes, do incêndio criminoso ao estupro, e a quem ambiciona devolver ao reencontro com Cristo e com a sua bondade original. O objetivo da trama seria a de enaltecer o ideal cristão, capaz de suplantar os mais sombrios pecados. Mas a indulgência com que procura levar os mais pérfidos ao caminho do bem acaba por se revelar paradoxal, porque a todos, mesmo aos que inocentemente se lhes tinham associado, acaba por destruir.
Ippolit, um dos personagens, que transmitirá a ideia mais consistente do desenlace, conclui que a vida só tem significado e pode ser usufruída na plenitude se entendida como um processo, uma sequência incerta com muitos resultados possíveis e não como algo de previamente bem definido. E esse constitui um desiderato, que terá surpreendido o próprio autor por se mostrar filosoficamente tão diverso daquele que começara por imaginar...

(S) A Sinfonia «Leninegrado, hoje e amanhã na Gulbenkian


Peça sinfónica com enorme carga de simbolismo por transmitir em sons galvanizadores a gesta soviética contra a invasão nazi, a 7ª Sinfonia será interpretada hoje e amanhã no Grande Auditório da Gulbenkian possibilitando o reencontro com o talento imenso de Chostakovitch, o compositor preferido de Stalin, o que só abona a favor do tão denegrido líder, na realidade homem de cultura apreciador das artes musicais e da poesia.
Se o início do primeiro andamento é aprazível por dar conta de como a vida em Leninegrado era tranquila antes de iniciada a guerra - os anticomunistas primários não deixarão aqui de  lembrar as purgas de 1936 e 1937 - logo a orquestra ganha lento e crescente ímpeto com os naipes em progressivo avolumar do som das notas projetadas para toda a sala, transmitindo a ideia da aparente invencibilidade do avanço teutão. Composta enquanto a invasão prosseguia e Leninegrado ficava cercada, a obra seria interpretada na própria cidade, quando, com terríveis sacrifícios, ela se afirmava orgulhosamente intransponível ao invasor.
Tornando-se mítica tão-só composta e estreada, a obra veria Toscanini dirigi-la em memorável concerto nova-iorquino enquanto ato simultaneamente artístico e de propaganda, quando os Estados Unidos também tinham, finalmente, aderido à causa antifascista.
Por essas razões, mas sobretudo por se tratar da obra clássica, que escolheria como a preferida de entre as muitas do meu particular agrado, lá estarei uma vez mais a deleitar-me na hora e um quarto que ela dura, mesmo que dirigida por um maestro finlandês, cuja valia desconheço.

quinta-feira, maio 10, 2018

(DIM) «A Turma» de Laurent Cantet (2008)


Dos realizadores franceses da geração nascida nos inícios dos anos 60, Laurent Cantet é dos mais interessantes. Embora autor de obras tão discretas quanto ele próprio o é.
Ao pensar-lhe na filmografia, além de «A Turma», filme sobre o qual nos debruçaremos mais adiante, recordamos três títulos particularmente interessantes: em «Recursos Humanos» um jovem engenheiro era contratado para a fábrica onde o pai e muitos dos vizinhos trabalhavam e, quando os patrões decidiam despedir muitos deles, via-se subitamente dividido entre a solidariedade com os seus e a tentação de deles se dissociar assumindo-se no novo estatuto de quadro superior. Em «Emprego do Tempo» Cantet adaptava a história real de um mitómano suíço, que convenceu a família da sua carreira de sucesso numa grande organização internacional de que seria um dos mais altos responsáveis, até não os conseguir iludir mais, matando mulher e filhos para por eles não se ver confrontado com a mentira em que duradouramente os enredara. E, mais recentemente, em «Regresso a Ítaca», reunia cubanos desiludidos com o regime castrista com outros, que haviam saído e decidido regressar, todos partilhando reflexões amargas sobre os limites de uma utopia, que não chegara a cumprir-se à medida dos seus pretéritos sonhos.
Premiado há dez anos com o principal prémio do Festival de Cannes, «A Turma» vai ao encontro dos temas mais comuns na obra de Cantet: o fracasso, a derrota do indivíduo no seu específico contexto social através de uma visão nua e crua, autêntica, mas também humanista. Por isso, de tão realista que parece, quase nos iludimos com a possibilidade de se tratar de um documentário e não de uma obra de ficção.
Passado  quase inteiramente numa escola secundária, «A Turma» revela esse espaço como o de conflitualidade permanente entre professores e alunos.
Focalizado em François Marin, que é também o autor do livro autobiográfico em que  Cantet se baseara para criar o argumento do filme, ele personifica o docente desencantado com um sistema em que deixou de acreditar. Por isso mal ouve os alunos, com quem dificilmente comunica, e vê em si crescer o cansaço, o envelhecimento acelerado, as olheiras, também evidentes nos colegas que disso mesmo se queixam nas sequencias iniciais.
A escola surge para os alunos como uma prisão onde lhes são ministrados saberes pelos quais não revelam o mínimo interesse. Até porque já intuíram o quanto a educação em nada influirá naquilo que virão a ser as suas vidas futuras.  Nascidos nas subclasses mais desfavorecidas, nada os leva a crer que lhes fique acessível o ascensor social pelo qual se possam livrar do ciclo de miséria e de frustração já percecionados nos próprios progenitores. Alienados pelas tentações da sociedade do consumo e do entretenimento dificilmente conseguirão  ganhar consciência de classe, que lhes dê chaves ideológicas para operarem as transformações em que pudessem livrar-se do labirinto sem saída em que se sentem.
Entre professor e alunos agudiza-se o relacionamento, tanto mais que estes tudo fazem para sabotar-lhe a autoridade. Razão porque François perderá a compostura, insultará duas das alunas e ver-se-á assim convertido no bode expiatório do sistema, que o torna fusível da sua irreparável disfuncionalidade. Sobretudo porque avança-se para um tipo de sociedade em que os jovens ou não encontrarão emprego, ou só os exercerão precariamente, e em que a escola apenas é tida como uma forma de, momentaneamente, os ocupar.
Por tudo quanto revela, o filme faz muito mais sentido no título francês - «Entre les murs» - no que do neutro escolhido pelos tradutores nacionais. Porque, de facto, os alunos estão cercados, esmagados, pelas paredes em que são contidos. O balanço é, pois, amargo, desesperançado. Porque sobra o enorme vazio das pessoas, das instituições, da própria civilizaçãa norteado pelo espartilho capitalista. Embora fique uma mensagem alternativa: perante tanta falta de respostas de quem as deveria apresentar, cabe-nos a nós, todos quantos nos indignamos ou rejeitamos este estado das coisas, encontrar as soluções.

quarta-feira, maio 09, 2018

(AV) Eu gosto de quase tudo quanto Joana Vasconcelos cria


Tanto quanto me recordo foi com «A Noiva», que descobri verdadeiramente a estética de Joana Vasconcelos. Quando mais tarde a quis rever, cheguei a deslocar-me a Elvas para a apreciar no excelente espaço, onde também figurava a coleção de António Cachola.
Desde então quase sempre me rendi ao talento da artista, por muito que algumas peças me merecessem alguma perplexidade (aconteceu com o caso do Cacilheiro enviado à Bienal de Veneza, cujo conceito era inquestionável, mas pouco impressivo na concretização final!), e ponderasse na acusação de a vermos transformada na «artista do regime», quando Passos Coelho era primeiro-ministro. Esta última pareceu-me manifestamente exagerada porque, sempre que se justificou, Joana Vasconcelos manifestou-se como apoiante de António Costa, quer como presidente da Câmara de Lisboa, quer depois como candidato a primeiro-ministro. Quanto ao talento ele manifesta-se não apenas na criatividade com que tem revisitado saberes e símbolos da cultura popular, dando-lhes uma leitura plural nos sentidos e na elegância dos resultados, mas também ganhando uma escala, que justifica ter-se convertido na empregadora de um conjunto significativo de técnicos e artesãos.
Trabalhando em escala incomum para a dimensão do mercado nacional, encontrou na internacionalização a solução para contornar os impasses que poderia tê-la bloqueado. Tanto tem bastado para que se veja alvo da maledicência de quem não a consegue igualar no sucesso, tanto mais que na formação enquanto artista dispensou a frequência das Escolas de Belas Artes de Lisboa ou do Porto, cingindo-se às menos glamourosas António Arroio ou Ar.Co. Há-de haver por aí muito despeito por, depois de Veneza ou de Versalhes, abrirem-se-lhe agora as portas do Guggenheim de Bilbau.

segunda-feira, maio 07, 2018

(DIM) A brevidade do que de mágico se vive


(a propósito de uma cena de «Roma» de Fellini)

Um grupo de visitantes aventura-se pelos longos túneis, que uma gigantesca broca vai abrindo no subsolo romano. O guia queixa-se da contingência maior de fazer esse tipo de trabalhos na cidade: escava-se aqui ou acolá e logo surgem achados arqueológicos, que fazem parar os trabalhos. Por baixo dos pés acumulam-se estratos sucessivos de vestígios deixados pelas gerações que nos precederam. Somos herdeiros de um espaço, só fugidiamente nosso, porque o colhemos dos que nos antecederam e logo legaremos aos que nos sucederão.
A confirmar o quanto tudo é instantâneo, impossível de agarrar e conservar, logo o grupo estaca mais adiante: a perfuradora deu com outra parede oca, capaz de abrigar atrás de si novo tesouro. E assim é: franqueia-se uma abertura e alguns dos visitantes e operários atravessam-na para serem confrontados com os olhares intensos de quem os interpela desse passado remoto em que haviam ficado retidos na forma de frescos coloridos.
Para a única mulher do grupo o encantamento é imediato: poderia haver algo mais interessante do que encontrar-se cara a cara com tão assombrosas imagens de há dois mil anos, tão brilhantes como o eram na época em que foram pintadas? Excitada, apela à atenção do companheiro, quiçá esposo, para que partilhe aquele momento mágico. Que logo sucumbe numa súbita dor de alma: a entrada de ar numa câmara, até então estanque, opera reação nas tintas do passado e, em breves instantes, elas começam a desvanecer-se.
Apavorada, pede ajuda a quem não está capaz de lha dar: iniciado o processo de degradação acelerada nada o travará. E aquele breve instante em que o passado e o presente se encontram vai definhar, conhecer um fim. Ficarão as galerias e as estátuas, já que as pedras resistem melhor às agressões do poluído ar do nosso tempo, mas esses breves olhares do passado, que pareciam perguntar porque tardaram tanto? Quem sois vós?, desaparecem sem dar tempo de lhes dar resposta.
Ao regressarem à superfície podemos imaginar o que terão pensado quem havia experimentado tal experiência. Se conheciam a canção do Léo Ferré terão lembrado que avec le temps, tout s’en va. Bem intentamos agarrarmo-nos a bens, a ocasiões felizes, que elas sempre se revelarão efémeras e nos confrontam com o infortúnio de sermos mortais, de estarmos condenados a envelhecer e sentir nos ossos o contraponto para o privilégio de vivermos.
Se tiverem optado por racionalizar a adversidade, os visitantes do substrato romano sentem imprescindível a necessidade de agarrarem as fascinações fazendo-as perdurar o mais possível. Mesmo não conseguindo deter a cadência evolutiva da ampulheta, alimentarão a memória do que viram, do que sentiram.
No fundo é a receita que Ricky Blane dá a Ilse Lund quando dela se despede no aeroporto de Casablanca: We'll Always Have Paris!

(S) "Over the Rainbow" de Harold Arlen por um conjunto de guitarras

(DL) Alice a passear no Tamisa com o seu criador


A origem de Alice, que descobriria maravilhas e iria ao outro lado do espelho, situa-se a noventa quilómetros de Londres, surge meio perdido no campo inglês e recebe anualmente 23 mil estudantes vindos de todo o mundo, atraídos pela propalada excelência da educação aí facultada: Oxford. Foi nessa terra dedicada aos saberes que, em 1862, o matemático Charles Lutwidge Dodgson, até então conhecido por contar estórias imaginativas, criou uma, que imortalizarou o pseudónimo com que a assinaria: Lewis Carroll.
Publicado em 1865, enquanto história infantil de contornos surpreendentes para o que eram os padrões do género, «Alice no País das Maravilhas» logo se converteu num enorme sucesso. Os leitores seus vizinhos não tiveram grandes dificuldades em situar a ação das aventuras da protagonista naquela mesma cidadezinha de província, ela própria eivada do fascínio pela excentricidade.
Charles Dodgson conhecia Oxford por dentro e por fora: durante quarenta anos desenvolveu sério trabalho universitário num dos seus principais colégios em que todo o complexo se divide: Christ Church.
Além de professor e diácono ele era um reputado fotógrafo e foi numa dessas sessões com que frequentemente se deleitava, que teve um encontro determinante capaz de lhe estimular a criação:  as filhas do reitor do seu próprio colégio, vieram-no interpelar, curiosas quanto ao que estava a fazer com tão estranho equipamento.
A principio irritado pela interrupção, logo se decidiu a fotografá-las de forma a satisfazer-lhes o interesse, de forma voltar a dedicar-se sem demoras ao trabalho a que se propusera. Não imaginou, nesse momento, que uma das miúdas, Alice Liddell, se converteria em sua amiga muito próxima. Seria ela a verdadeira Alice no País das Maravilhas com que empreendeu uma crítica inteligente ao conservadorismo da sociedade vitoriana, tanto mais que filtrada pelos olhos inocentes de uma criança. É ela quem olha para o mundo dos adultos e o ajuíza como habitado por gente um bocado doida. É assim que Carroll consegue distanciar-se dessa realidade em que, ao mesmo tempo se inseria, mas que olhava com uma perspetiva crítica bem evidente na sua criação.
As aventuras da personagem eram congeminadas pelo escritor, quando costumava passear de barco no Tamisa com Alice e as irmãs, tendo sido particularmente frutífero o passeio do dia 4 de julho de 1862: foi durante o piquenique com as raparigas, que lhe surgiu a ideia da toca de coelho por onde Alice cairia desamparada. Ele recordaria depois, que a ideia lhe surgira e ficara siderado sem saber o que se seguiria a essa queda sem fim.
Terá sido noutro passeio com Alice, que Carroll ganhou inspiração para outro episódio relevante da história, porque estavam no museu e a rapariga manifestou particular interesse pelo dódó, ave desaparecida de Madagáscar de que ali estava um esqueleto reconstruído. Surgiu-lhe assim a ideia do personagem douto e pomposo, à imagem de muitos dos seus colegas. Mas quiçá, ele próprio, via-se um pouco assim, cansado e anacrónico num mundo em acelerada mudança.

domingo, maio 06, 2018

(DIM) «Silêncio» de Martin Scorcese (2016)


Uma das mais gratas recordações, que guardo do Japão, aconteceu numa pequena cidade costeira, Miike, onde o «Fernando Pessoa» aportou há cerca de vinte anos. Logo à chegada esperava-nos inesperada comitiva composta pelo Presidente da Câmara, pelo Diretor do Museu local e outras autoridades a que logo fomos apresentados. O que os trazia ao nosso encontro era a profunda admiração pelo legado dos portugueses naquela região, quando por ela haviam passado no século XVII, e com evidências documentais no edifício de exposições para que fomos convidados.
A estadia em Miike revelou-se bastante agradável, porque os nossos anfitriões não se pouparam a esforços para nos receberem como descendentes daquele povo estranho, que lhes trouxera a modernidade, seja na linguagem (o “arigatô” como um dos muitos exemplos possíveis dessa duradoura influência), na gastronomia (mormente no pão-de-ló) ou na discutível, mas muito relevante introdução das armas de fogo.
Quer isto dizer que a receção, que ali tivemos foi diametralmente oposta à conhecida pelos padres Rodrigues ou Garrupe, quando ali haviam chegado em 1633 para confirmarem se os boatos sobre a abjuração do seu idolatrado mestre, o padre Ferreira, tinham alguma coincidência com a verdade.
O filme de Scorcese revela um Japão, que se decidira fechar sobre si mesmo, livrando-se da influência dos jesuítas, que haviam conseguido a conversão de dezenas de milhares de camponeses e pescadores, entretanto perseguidos pelas autoridades com a mesma determinação com que, por essa mesma altura, os inquisidores ibéricos cuidavam dos judeus e dos cristãos-novos.
O que incomoda no filme de Scorcese não é a beatice de Scorcese, que aqui é bem mais evidente do que noutros títulos maiores da sua filmografia, onde a sugestão do martírio crístico não deixa de estar presente. É antes a justificação encontrada para renegar tudo em que se possa acreditar, tornando-se prioritária a sobrevivência relativamente à preservação do que fora tida como uma indissociável parte de si. No fundo, embora passado num tempo e numa cultura diferente, o filme relaciona-se com questões ainda bem recentes, como o do tipo de comportamento a assumir perante a polícia política numa situação totalitária. Incorrer no risco do martírio corajoso ou render-se à cobardia de trair tudo quanto se foi? Ou ainda sobre a responsabilidade do líder perante quem a tal o promovera, tema primorosamente tratado num dos primeiros filmes de Bertolucci («A Estratégia da Aranha») em que Athos Magnani assumia a complexidade contraditória de, com a sua rendição, ver-se potenciado como herói mobilizador.
Mas esta abordagem sobre a renúncia de quem se foi lembra igualmente outro exemplo, que nunca é de mais lembrar: o de Elia Kazan, que denunciou todos os amigos comunistas à Comissão do senador McCarthy e andou depois, anos a fio, a justificar o gesto crápula em filmes, que alguns estimam como obras-primas («Há Lodo no Cais», por exemplo) e mais não foram do que torpes pretextos de autodesculpabilização.
O rosto torturado de Rodrigues no final do filme recorda essa contrição sem possibilidades de vir a ser perdoada por quem, da sua vilania, terá sofrido as amargas consequências.


sábado, maio 05, 2018

(S) A Abertura de «Mignon» de Ambroise Thomas

(DL) O genocídio do Ruanda segundo Kapuściński


O genocídio dos tutsis no Ruanda, em 1994, ainda está suficientemente próximo para termos presente a ilimitada manifestação da bestialidade humana, quando se acendem rastilhos onde já impera a tensão  da presença de barris de pólvora. Durante vários dias pessoas, até então tidas como isentas de qualquer suspeita de malignidade, saíam de casa logo pela manhã numa caça tenaz aos vizinhos a quem violavam, torturavam e matavam com requintes da mais descontrolada selvajaria. E, atrás de toda essa realidade a hipocrisia do governo de François Mitterrand, que tanto favoreceu os que viriam a liderar a matança.
Sobre esses acontecimentos de 1994 sobram descrições impressivas em livros («Tempo de Catanas» de Jean Hatzfeld) e documentários («Tuez les tous» ou «Le génocide du Rwanda»), mas têm-me falhado explicações mais consistentes para o deflagrar de tanto ódio. Daí a satisfação de tê-las encontrado no «Ébano» de Ryszard Kapuściński, cuja leitura vem constituindo autêntico deleite.
O jornalista polaco recua ao tempo da colonização, para mostrar como tutsis e hútus viram as suas contradições agudizadas por quem as explorava na lógica de dividir para reinar. E daí que o massacre de 1994 mais não tenha sido do que o culminar de outros, em décadas anteriores, que não tendo assumido a mesma dimensão, não deixaram de causar muitos milhares de vítimas.
Há que interpretar a rivalidade interétnica à luz da luta de classes porque, constituindo apenas 14% da população, os tutsis sempre foram os mais abastados por viverem da criação de gado, explorado em grandes pastagens. Pelo contrário os hútus eram pobres camponeses, cujas parcelas de terreno, se revelavam demasiado exíguas para conseguirem rendimento suficiente para os libertar da condição miserável. Tanto mais que a pressão demográfica de uns e de outros, apenas tornava mais incomportável a coexistência de vastos prados destinados à forragem, enquanto escasseavam as terras aráveis para a maioria da população.
Estavam assim criadas as condições para uns quantos populistas cavalgarem á custa da frustração das camadas mais empobrecidas da população, que viram no homicídio dos vizinhos uma forma de catarse e de ansiado nivelamento social. E o que se seguiu foi uma orgia de sangue, que nenhuma potência ocidental quis travar, e só concluída, quando os assassinos estavam exaustos de tantos crimes, e a guerrilha tutsi veio do Burundi repor a ordem onde se afirmara o caos.

(S) O Concerto para dois violinos e cordas em Ré menor, de J. S. Bach

quinta-feira, maio 03, 2018

(EdH) O palácio Topkapi como testemunha dos amores de Suleiman e Roxelana


Na corte turca nada de igual se vira até então, quando o sultão Suleiman prescindiu de todas as concubinas e desposou Roxelana (também conhecida por Hürrem Sultan) a quem dedicou amor quase tão mítico quanto o do Shah Jahan pela sua Arjumand Bano Begum, para quem mandou construir o sumptuoso Taj Mahal.
O sultão turco não precisou de expressar a paixão em arquitetura, porque o palácio em que viveram os seus amores, o Topkapi, em Istambul, já era magnificente quanto bastava. Mas deu-lhe papel determinante nas decisões sobre todo o Império porque fazia-lhe aceder às reuniões com os seus vizires e ministros, mesmo que escondida por trás de discreta janela.
O interessante na história é o facto dela ter sido anteriormente uma escrava trazida de regiões hoje inseridas na Ucrânia, onde fora raptada em criança, devendo a beleza a essa herança genética eslava incomum na corte do sultão.
Tal como a sua réplica indiana, também ela morreria antes do bem amado que voltaria a surpreender os súbditos fazendo o inimaginável: acompanhando a pé o séquito fúnebre atrás do esquife em que ela iria ser inumada.

(DIM) «Adeus Filipinas» de Jacques Rozier (1962)


Uma das muitas e excelentes iniciativas da equipa, que organiza anualmente o Festival Indie é o de nos trazer um melhor conhecimento sobre cineastas pouco conhecidos ou desvalorizados, mas que são autores de obras apreciáveis e concretizadas com a máxima independência, que tinham ao seu alcance.
Um dos heróis indie deste ano é Jacques Rozier, realizador que iniciou a carreira nos anos 40 e a prolongou até 2012, sendo hoje, aos 92 anos, um dos últimos sobreviventes da geração da nouvelle vague. Dele têm passado diversos filmes dos quais, porventura, o mais interessante é «Adieu Philippine» de 1962, encomenda de um produtor decidido a financiar obras destinadas  à juventude.
Rozier, que fora assistente de realização nos programas televisivos, quando quase sempre eram em direto, traz para o filme influências determinantes aí recolhidas: a sensação de urgência com que tudo é feito, a publicidade, a presença cada vez mais insistente da sociedade de consumo e o recurso a várias câmaras para rodar a mesma cena. Esta opção implicava gastar muito mais película do que a necessária para um filme de menos de duas horas, o que suscitou sérios engulhos a quem lhe produzia o filme e lhe ia controlando os gastos.
A atenção de Rozier à juventude, ao conflito de gerações com os progenitores e ao seu desejo contínuo de acesso à felicidade, persistirá noutros títulos posteriores, sempre com a preocupação de inserir algo de sério numa intriga aparentemente ligeira. À partida acompanham-se as vicissitudes juvenis entre Paris e a Córsega, antes de o rapaz do triângulo amoroso ser convocado para atravessar o Mediterrâneo e dar o couro na guerra da Argélia. Apesar do risco de ver tais cenas esbulhadas da versão final pela censura, esse assunto vem, amiúde, a talhe de foice, se não como denúncia, pelo menos enquanto criador de estados de alma ensimesmados nos personagens.
Ficando para a História do Cinema como um dos mais fidedignos testemunhos da realidade francesa dos anos sessenta - mormente dessa instituição entretanto caída em desuso, que era a refeição em família ao domingo -, «Adeus Filipinas» é, igualmente, interessante de analisar ao nível da montagem com uma primeira parte frenética, quando ainda concentra a ação em Paris, para depois ganhar progressiva lentidão na segunda parte, quando é na Córsega, que o trio vive os dias em falta para que Michel apanhe o barco e vá ao encontro dos campos de batalha.

quarta-feira, maio 02, 2018

(S) Prelúdio e Allegro de Fritz Kreisler

(DL) «Um Ano» de Jean Échenoz


É o mais comum nos romances de Jean Échenoz: por muito que circunstâncias extraordinárias neles incidam quase nunca saem do registo imperturbável, adaptando-se o melhor possível - mesmo que com inaudito sofrimento! - às agruras por que passam.
Para Victoire tudo desabara no dia em que acordara e dera com o cadáver de Félix a seu lado. Sem se ater quanto ao que causara tal desenlace, foge o mais rapidamente dali, contando com a cumplicidade de Louis Phillipe, o amigo disposto a mantê-la ao corrente do que a polícia iria apurando. Passando pelo banco para arrebanhar as economias vai à gare de Montparnasse e apanha o comboio, que a possa levar para o mais longe possível que, no caso, será Saint Jean de Luz junto à fronteira espanhola.
Durante umas semanas instala-se numa casa, que aluga à beira-mar, escusando-se a grandes contactos com os vizinhos. Aparece-lhe de vez em quando, Louis Philippe a recomendar-lhe que por ali se mantenha apesar de nada indiciar o interesse da polícia em ouvi-la. Quando, enfim, decide socializar-se arranja breve amante, que  logo desaparece levando-lhe todas as economias.
O que se seguirá é a queda progressiva de Victoire no abismo da indigência, primeiro buscando a sobrevivência por si mesma, depois juntando-se a pequenos grupos de outros sem abrigo, com quem partilha esforços para, com pequenos roubos ou o respigar dos lixos alheios, ir garantindo a relativa satisfação das carências mais básicas. Mas a rapariga jovem e apresentável, que partira de país, depressa ganha aspeto desleixado, que impossibilita o recurso à prostituição como modo de vida e dificulta a obtenção de boleias para o seu ziguezagueante cirandar.
À medida que lhe acompanhamos esse andar à toa, sem estratégia, nem sítio fixo para onde se decida apontar, vai-nos surpreendendo a facilidade com que Louis-Philippe a vai encontrando aqui e além, sempre incentivando-a a prosseguir essa fuga sem nexo. Até que passa um ano e ele a conforta com o encerramento do caso e a possibilidade do regresso a Paris.
Ela assim faz e acolhe-se em casa de um amigo de uma sua conhecida do passado.  Um dia, num café, reencontra Félix com a nova namorada. Por ele fica a saber o quanto o deixara espantado com o seu inexplicado desaparecimento. E que atribuíra à inesperada morte de Louis-Philippe nessa mesma altura.
É forçoso fecharmos o livro com a conclusão de termos andado todo o tempo iludidos: Victoire criara em si uma realidade alternativa à que todos os demais haviam percecionado, trazendo consigo a presença latente desse fantasma cuja importância afetiva no passado fica-nos sempre por explicar.
Em 1997, com este pequeno romance - quase novela - Échenoz ilustrava o seu estilo próprio, feito de estórias bem contadas sobre pessoas confrontadas com dilemas íntimos, incentivadas a considerações distorcidas de tudo quanto passavam a testemunhar.

(S) A Canção da Manhã de Elgar

terça-feira, maio 01, 2018

(DL) «Ébano» de Ryszard Kapuściński fez-me recordar um facínora


A ditadura de Idi Amin Dada durou oito anos e causou centenas de milhares de mortos entre ugandeses de todas as etnias. Inculto e brutal, o antigo sargento do exército colonial britânico fora premiado por este com promoção a general na altura da independência, quando a passagem de poder implicaria igualmente a de quem asseguraria a defesa nacional.
Exemplo maior da falta de escrúpulos no exercício do poder, Amin derrubou Milton Obote, quando este saíra do país para uma reunião em Singapura, usando logo os métodos, que nunca deixaria de utilizar durante o seu longo desgoverno: ele e os apoiantes tomaram o quartel em Kampala, entrando a matar e sem aceitar qualquer rendição. Proveniente de uma pequeno tribo na fronteira sudanesa, os Kakwas, o futuro marechal logo cuidou de assassinar os oficiais das tribos maioritárias nos dias seguintes. Em poucos dias garantiu que o exército seria apenas composto de indefetíveis apoiantes. Que às vezes eram, eles próprios, assassinados, porque a paranoia do chefe levava-o a crer que eles poderiam vir a pensar demais e a imitá-lo na ganância pelo poder.
Imprudente, Amin decidiu meter-se um dia com a vizinha Tanzânia, cujo presidente, Julius Nyerere, era das figuras políticas mais respeitadas de África. Deu-se mal, claro. Perdendo um tanque, o exército atacado, decidiu dar o troco devido ao facínora, que teve de fugir, recolhendo-se primeiro junto de Kadhafi, e depois dos sauditas, que o incumbiram de passar a difundir a fé wahabita.
Injustamente morreria já septuagenário em Jeddah, sem nunca ser confrontado com qualquer castigo pelos seus crimes.