terça-feira, abril 24, 2018

(DL) A História que tanto nos tentaram esconder...


Ouvindo uma entrevista com Richard Zimmler, que explicava ter-se abalançado á escrita de «O Último Cabalista de Lisboa» por ter interpelado um amigo português a respeito do grande massacre de judeus na Lisboa do século XVI e ele de nada saber, surgiram-me algumas reflexões pertinentes, que passo a partilhar.

Esse é, de facto, um dos aspetos mais lamentáveis da forma como a História lusa tem sido prodigalizada a gerações sucessivas de compatriotas. Pinta-se a luta de Afonso Henriques pela independência do Condado pondo-o a ver figuras místicas no céu e até achamos graça à vulgata sobre ter dado uma coça na mãe e no amante. Listam-se as vitórias a sul para derrotar os árabes, omitindo que eles eram bem mais cultos e sofisticados do que os brutais conquistadores, que os iam derrotando apenas movidos pela ganância territorial, mesmo que a coberto de um dos alibis mais fraudulentos, que perdurariam nos séculos seguintes: a expansão da fé cristã.
Às tantas lá nos surge um rei com vistas mais largas e até poeta (D. Dinis), mas logo lhe sucedem um brutamontes  (D. Afonso IV), um bissexual psicopata (D. Pedro I) e um assumido corno (D. Fernando). Mas quase nada dessa sucessiva realidade transparece nas mistificações servidas aos meninos das escolas desde a mais tenra idade. Porque o filet mignon  vem a seguir com a crise de 1383-1385, em que se incensa uma vez mais a beatice de Nuno Álvares Pereira, apesar de também se valorizar o seu génio militar, para esconder o carácter poltrão e medroso de D. João I, que quase teve de ser levado ao colo para se assumir como rei da nova dinastia.
Segue-se então a mistificação-mor: a gesta das Descobertas. Pelintras no continente lá se fizeram os portugueses aos mares atlânticos e índicos para se converterem, ora em trapaceiros do tipo Oliveira de Figueira, ora em carniceiros sem escrúpulos ao jeito de Afonso de Albuquerque. As mais das vezes acabavam armados em pedintes nos sofisticados reinos indochineses fazendo as figuras que Fernão Mendes Pinto descreveria na sua Peregrinação.
Essa «epopeia» que o salazarismo incensou até ao paroxismo persistiu-nos nas mentes ocultando os crimes que se seguiriam: o tráfico de escravos, que deu aos portugueses tão péssima fama, quando o assunto é abordado com seriedade nos fóruns internacionais, e a Inquisição, ainda remanescente hoje em dia no imaginário coletivo nacional, quando se tomam precipitados juízos sobre quem mereceria respeito como presumivelmente inocente e a quem os torquemadas dos jornais e dos tribunais fazem arder em fogo lento na opinião pública.
A nossa História tem menos heróis do que pérfidos trastes e não se compreende porque não é de leitura obrigatória no Plano Nacional respetivo o «Príncipes de Portugal: suas misérias e grandezas» do mestre Aquilino Ribeiro. Talvez alguns compreendessem melhor a naturalidade de vermos no atual pretendente ao inexistente trono português um pacóvio com discursos de atrasado mental.
Se interiorizássemos que temos no ADN defeitos tão graves como o de arranjarmos fáceis bestas a quem odiar (como em tempos se fez com as bruxas e os cristãos-novos)  e sermos complacentes com quem não tem escrúpulos de explorar até aos limites da ganância (os negreiros de hoje reconvertidos em banqueiros e empresários de sucesso) talvez alterássemos o veredito de Almada Negreiros, quando reconhecia existirem qualidades e defeitos em todos os povos, só nos faltando as primeiras...

(S) O «Totentanz» de Liszt

segunda-feira, abril 23, 2018

(DIM) Dois filmes sobre a condição de ser negro na América


Não foi por acaso que «Moonlight« e «Elementos Secretos» foram oscarizáveis em 2017, muito embora os prémios só tenham bafejado merecidamente o primeiro. É que o escândalo da cerimónia anterior, em que nenhuma nomeação sorriu a um ator ou técnico negro, causara mossa e pusera os estúdios a corrigir a falha. Mal imaginavam que, no final do ano, o eleitorado levaria para a Casa Branca o presidente mais racista das décadas recentes.
O filme de Barry Jenkins mereceu a consagração, impondo-se nomeadamente ao foguetório do «La La Land», porque é o que mais escapa aos estereótipos hiperabusados em filmes com negros. Os problemas dessa comunidade estão todos lá referidos - a droga, a violência, as famílias sem a presença do pai, etc.— mas somam-se-lhe outros, tão pertinentes como esses (o bulling, a homofobia, a falta de oportunidades sociais, etc), que ganham importância maior no desenvolvimento da narrativa. E existe o que mais vale enfatizar: a solidariedade entre os humilhados e ofendidos do passado com os de hoje, que mitigam as dores de um quotidiano onde viver se revela desafio assaz difícil de vencer.
Outra coisa é o filme sobre as matemáticas da NASA escondidas dos holofotes principais dos sucessos da agência espacial apenas pelo facto de serem mulheres e, sobretudo, negras. Apesar de nos afiançarem tratar-se de uma história baseada em casos reais, lá aparecendo no genérico o paralelo entre as atrizes e as verdadeiras personagens que representaram, tudo aquilo é embrulhado num invólucro adocicado em que os brancos racistas acabarão por dobrar-se ao talento e às capacidades das três heroínas e tudo acaba segundo a expressão francesa tout le monde est beau, tout le monde est gentil.
Ao longo da apreciação deste entretenimento, comparei-o amiúde com um dos filmes da minha vida, «The Right Stuff», em que Philip Kaufman também cuidava de ilustrar os primeiros tempos da NASA. A incipiência do filme de Theodore Melfi torna-se tão notória, que a vontade é procurar o de há vinte cinco anos na DVDteca caseira e torná-lo antídoto eficaz contra uma visão que dos negros lembra a da tia Jonet a respeito dos pobrezinhos. 

(DL) Ryszard Kapuściński entre o Quénia e Zanzibar


Ainda mal se instalara em Dar-es-Salam já Ryszard Kapuściński se via acometido de malária, que o manteve semanas a fio preso a uma cama de hospital. E, logo de seguida, viu-se vitimado por um efeito complementar da fragilidade física do seu corpo: contraiu tuberculose.
Era grande o risco de ter de regressar a Varsóvia, pondo termo a uma experiência em que ele, e a redação do seu jornal, tanto se tinham empenhado. Sobretudo, porque escasseava o dinheiro para pagar os dispendiosos custos no hospital para brancos.
Valeu-lhe então o dr. Doyle, um irlandês, que lhe franqueou as portas numa clínica para negros sem vintém, que aí obtinham cuidados gratuitos. Apesar da modéstia do barracão onde ia diariamente receber uma injeção, que lhe suscitasse a remissão dos sintomas, Ryszard teve outra vantagem com essa alternativa: os negros com quem aí passou a privar viam-no como um igual e  tratavam-no como tal. Que constituiu forma mais expedita de melhor os conhecer.
Foi assim, que descobriu um paralelismo perturbador entre brancos e negros. Quer no continente europeu, quer no africano, as perguntas mais estranhas que lhe faziam, sobre as suas experiências num e noutro lado, versavam a questão de saber se existiam por ali muitos canibais, todos comungados no temor de serem comidos pelos que possuíam cor diferente.
Do lado africano esse temor relativamente aos brancos encontrava perfeita fundamentação nos horrores por que passavam os escravos nas duras travessias oceânicas, em que grande parte deles perdia a vida.  Não deixando de ser triste referência comum, quando o assunto vem à baila, o da efetiva responsabilidade dos negreiros portugueses nesse comércio ignóbil, que explica em boa parte o enriquecimento da Coroa enquanto o negócio floresceu. Como ainda sobram tantos mistificadores, que insistem no papel dos Descobrimentos como meros veículos de afirmação da fé e do Império?
A escala seguinte de Kapuściński  será a ilha de Zanzibar por nela ter ocorrido um golpe militar, que alterou quem doravante conduziria os destinos políticos do maioria da população: escorraçado o sultão árabe foi um africano de gema, quem decidiu tomar conta dos acontecimentos. Mas, hospedado num hotel da ilha cuja proprietária era uma velha senhora polaca, o repórter orienta preferencialmente a atenção para os traços da arquitetura colonial, que espelhava bem a condição de entreposto ali existente para facilitar o comércio esclavagista para os portos do Médio Oriente e da Ásia.

domingo, abril 22, 2018

(S) A ainda enfática direção de Abbado em «A Noite do Monte Calvo» de Mussorgsky

(DIM) Freud revisto por Gabriel Abrantes


Prossegue o já anteriormente declarado entusiasmo com as curtas metragens assinadas por Gabriel Abrantes, tendo hoje descoberto «Freud und Friends», filme de 2015, que concorreu ao Festival de Berlim do ano seguinte.
Correspondendo aos valores da geração «millennial», de que me sinto, hélas!, tão distante, os filmes até agora apreciados têm uma imaginação delirante, uma bagagem cultural eclética e um talento para tudo condensar numa narrativa divertida, que torna a sua visão num inequívoco prazer.
Neste filme em concreto, deparamos com uma reportagem de Erner Werzog (as referências cinéfilas serão múltiplas de fio a pavio, com destaque para o «anúncio» do novo título de um sósia de Woody Allen!) em que está em causa o fascínio do narrador pela possibilidade neurológica de investigar a mente alheia, algo que desde a infância lhe teria sido suscitado pelo desejo edipiano de penetrar nos sonhos maternos.
Temos o próprio Abrantes a fazer de um nerd  ao estilo Jerry Lewis a sujeitar-se à experiência da noiva, uma cientista do Centro Champalimaud para o Desconhecido, que terá conseguido uma poção extraída de um tamboril. Ao descobrir os sonhos devassos daquele que anda tão renitente em com ela casar, Matilde fica possessa: como é possível que a sua própria irmã alimentasse os devaneios eróticos do seu mais-que-tudo? Como aceitar que um peido seu se convertesse numa emanação gasosa da sua sogra (papel igualmente representado por Abrantes!)?
Pelo meio surge a publicidade ao óleo de pastel de Belém ou aos atrativos de uma Lisboa submetida aos ditames da troika.
Claro que a estória acaba mal para o protagonista, mas também quem se arrisca a desvendar os seus inconfessados anseios a quem quer que seja?  Tendo por fundo um registo de comédia acaba por se abordar a muito séria questão do direito de cada um ao usufruto da sua privacidade.

(AV) Niki de Saint Phalle: os limites da magnificência visual


Alimento reações contraditórias, quando me coloco face-a-face com obras de Niki de Saint-Phalle. As suas imagens exuberantes, de um colorido quase berrante, estimulam o olhar e focalizam-no na forma distorcida como ela representa o corpo humano, sobretudo o feminino, cujas dimensões transbordantes nos levam a associá-las, mesmo que reconhecidamente diferentes, às de Botero.
A própria artista era contraditória, alternando uma personalidade luminosa com momentos sombrios, que tinham-na quase levado ao precipício no início da juventude, quando, classificada de esquizofrénica, passou longa temporada numa instituição psiquiátrica.
Terá sido ali que descobriu a arte, de cujo exercício nunca mais se quis separar. Diria depois em muitas entrevistas ter sido a expressão dessa criatividade na pintura, na escultura e na performances a salvar-lhe a vida. Não tivesse essa catarse e só via outra forma de dar vazão à inesgotável imaginação: ter um parto todos os nove meses.
A vertente excessiva manifestava-se de muitas maneiras. Há relatos de, para uma entrevista televisiva, ter interrompido a conversa por quatro vezes para mudar de indumentária. E quem poderá esquecer a obra imensa em que uma enorme figura feminina expunha-se de pernas abertas, com uma vagina imensa por onde os visitantes eram convidados a entrar?
O feminismo fazia parte do seu discurso, mas a condição de classe - ela era filha de um banqueiro francês de origens aristocráticas e de uma frívola burguesa norte-americana - não lhe permitia associar a reivindicação de igualdade de género à mudança dos padrões sociais suscitados por um sistema económico que potencia a continuidade de uma lógica entre opressores e oprimidos. 
A generosidade estava-lhe, porém, no intimo e foi para oferecer a beleza às pessoas, vistas como uma entidade global e coletiva, que tanto se empenhou na distribuição da obra por diversas latitudes, sobretudo em projetos de Arte Pública, com destaque para o Jardim do Tarô na Toscana, onde, numa vasta propriedade as suas gigantescas estátuas passaram a enquadrar um cenário natural propício à fruição de quem nele aposte cirandar.
E, no entanto, podemo-nos sempre questionar se a arte deve assumir, sobretudo, objetivos estéticos, privando-se de avançar para desígnios transformadores mais ambiciosos...


(S) "Atlântida", obra do compositor português Antero Ávila

sábado, abril 21, 2018

(EdH) Breve síntese das grandes viagens da Humanidade


As primeiras migrações começaram há cerca de sessenta mil anos. Pressionados pela fome e pela curiosidade um grupo de homo sapiens partiu à descoberta do que se encontrava para lá do continente africano. Deslocando-se a pé ou em jangadas, iam em muitos casos atrás das migrações dos animais, que costumavam caçar. Foi assim que, pouco a pouco, povoaram os cinco continentes.
As primeiras aldeias surgiram, quando os habitantes aprenderam a cultivar a terra e a domesticarem os animais. No terceiro milénio antes de Cristo a descoberta do bronze aproxima os Euroasiáticos, obrigados a concertarem os esforços para estabelecerem as novas rotas comerciais.
O Império Romano nasce nas margens do Mediterrâneo estendendo a sua influência nos séculos seguintes. Dezenas de milhares de pessoas deslocam-se para ai, ora para se estabelecerem, ora para lhes servirem de escravos. Roma torna-se a cidade mais multicultural existente até então. Mas no fim do século IV, a chegada dos Hunos, vindos da Europa oriental, perturbou o equilíbrio existente e marcou o início de um novo ciclo: o das grandes invasões.
A descoberta da América por Cristóvão Colombo e o surgimento dos impérios coloniais transformaram a existência da maior parte dos 400 milhões de humanos, que povoavam o planeta no século XV. Onde quer que se instalaram oprimiram e dizimaram as populações autóctones, propagaram as suas religiões, e implantaram novos vegetais, animais e micróbios. O balanço foi desastroso: num século 98 dos 100 milhões de ameríndios pré-colombianos  morreram, sobretudo afetados por doenças contra as quais não estavam imunizados. Para substituir essa mão-de-obra barata, mais de 12 milhões de escravos africanos foram deportados para o Novo Mundo, um terço dos quais sucumbiu durante a viagem.
No início do século XVII a expansão prosseguiu para leste com a fundação da Companhia Neerlandesa das Índias Orientais, que chegou a ter ao seu serviço perto de um milhão de jovens europeus no que viria depois a chamar-se Indonésia.
No século XIX a inovação técnica e a revolução industrial impulsionam uma nova configuração mundial: a das migrações em massa. Enquanto o caminho-de-ferro reduzia significativamente a duração dos trajetos, o barco a vapor permitia aos mais desvalidos a travessia dos oceanos. Para escaparem à pobreza e à fome 50 milhões de europeus deixaram o Velho Continente em busca de uma vida melhor. Paralelamente adotaram-se leis sobre a imigração e ganharam terreno os nacionalismos.
Hoje, apesar de milhões de pessoas deixarem os locais onde nasceram para garantirem um futuro mais promissor aos filhos, a gestão internacional das migrações, preconizada por muitos como imprescindível à humanização do processo, continua a revelar-se tragicamente incompetente.
Texto baseado nos materiais promocionais distribuídos pelo canal ARTE a propósito da apresentação do documentário «As Grandes Viagens da Humanidade», realizado por Christian Twente

(DIM) «A Brief History of Princess X» de Gabriel Abrantes (2016)


E já que estamos hoje em maré de descobertas auspiciosas, que dizer do cinema de Gabriel Abrantes, de quem já muito ouvira dizer bem, mas cuja obra só agora começo a descobrir? O que promete é um percurso incontornável como um dos realizadores mais estimulantes do cinema português dos próximos anos. Porque tem erudição, imaginação e talento para dar e vender. Sente-se-lhe um estilo, que tornam os seus filmes diferentes de tudo quanto estamos habituados!
Os seis minutos que demora a contar-nos a sua versão da história da escultura de Brancusi dá-nos uma explicação assaz interessante sobre a personalidade de Maria Bonaparte, que servira de modelo para essa Princesa X, que ficaria representada de uma forma assaz diferente da que julgara, quando se dispusera a revelar-se na sua sempre procurada sensualidade. Joana Bárrios, que desempenha o papel dá a caterva de expressões, que lhe justificarão a histrionia.
“Será uma piada? Será para levar a sério?”, interroga a voz off do realizador, que se faz parte integrante do argumento, porque a sua descoberta dos fundamentos da obra escultórica, que mais parece um dildo do que outra coisa, também acaba por ser a nossa...

(S) «Quadros de uma Exposição» de Mussorgsky dirigido por Kust Masur

(DL) Gustavo Pacheco: uma descoberta, que se anuncia assaz prometedora


Em 1977 os visitantes do Jardim Zoológico de Lisboa depararam com um homem encerrado numa jaula onde esperariam encontrar chimpanzés ou orangotangos. O incómodo suscitado por essa equiparação do ser humano aos seus congéneres primatas era o objetivo da performance de Alberto Pimenta, o escritor, que ensaiava em tal performance a relativização das diferenças entre seres afinal tão próximos, conforme a análise dos respetivos genomas demonstraria ulteriormente.
Lembrei-me dessa experiência ao iniciar a leitura de «Alguns Humanos» de Gustavo Pacheco, antropólogo e diplomata, que acaba de ver esse livro publicado pela Tinta-da-China.
«Dohong», o primeiro conto do livro, tem por protagonista um orangotango da ilha de Bornéu que, no início do século, convive com um pigmeu africano no Jardim Zoológico do Bronx, onde ambos estão enclausurados para entretenimento das multidões de basbaques atraídos pelo exotismo das regiões distantes.
Seguem-se depois muitas outras estórias - ainda por desvendar, mas decerto tão encantatórias quanto a primeira. Nelas encontrarei o escravo aterrorizado ao longo da viagem atlântica, temeroso de se ver comido por aqueles brancos em quem imagina hábitos antropófagos, o índio sul-americano convertido em criado pessoal de um aristocrata alemão, que o exibe como “objeto” na sua corte ou o ladrão convertido em burocrata chinês e potencialmente elegível como próximo Dalai Lama
José Mário Silva, cujo artigo no «Expresso Revista» me abriu o apetite para uma descoberta literária, que não imaginava revelar-se tão compensadora, escreve: “Pacheco interessa-se muito pelo que torna humanos os humanos e pela natureza dos preconceitos e enviesamentos históricos que foram moldando o modo como olhamos para a variabilidade biológica e cultural do Homo sapiens”.     

Um excerto de aperitivo para uma leitura que se anuncia jubilatória: 
Primeiro veio a febre. Depois, a falta de apetite. A febre foi embora logo, mas a falta de apetite continuou. Esses sintomas não eram especialmente dignos de nota, e não foram notados por ninguém. No entanto, os dias passaram e Dohong foi ficando cada vez mais ensimesmado e deprimido. O desinteresse pela comida foi se tornando desinteresse por tudo o mais. Onze dias depois de a febre ter ido embora, ela voltou, mais forte, acompanhada por secreções purulentas nos olhos e no nariz. Sem comer, Dohong enfraquece rapidamente.

Dohong era pequeno demais para se lembrar, mas Sikey também sofreu de falta de apetite pouco antes de morrer. Nada menos de trinta pratos diferentes tinham sido preparados especialmente para ela ao longo de uma semana, e Sikey rejeitou todos. Às vezes tinha acessos de cólera, berrava e jogava os pratos em quem aparecesse pela frente, mas na maior parte do tempo ficava quieta com seus pensamentos, com a cara solene de quem se acha com a razão, os olhos encovados faiscando. Dohong, uma miudeza, agarrava o cabelo vermelho de Sikey com seus dedos pequenos mas firmes, e observava com terror o mundo ao seu redor.
Quando ficou claro para todos que a morte de Sikey era apenas questão de tempo, e que Dohong definhava junto com a mãe, tiveram que separá‑los. A fúria de Sikey alcançou dimensões bíblicas, e quem testemunhou seus ataques de brutalidade desesperada jamais se esquecerá deles. Logo o cansaço a venceu, e ela passou três dias sem comer e sem se mover, até expirar calmamente. Após a morte de Sikey, Dohong ficou duas semanas entre a vida e a morte, e houve quem anunciasse que estava tudo perdido. No entanto, o bebê aceitava pequenas quantidades de leite, e começou a ganhar peso, de forma lenta mas contínua. Dois meses depois, já comia frutas e mingau de arroz. Era um sobrevivente.

Deitado no chão áspero, debilitado e sentindo que os músculos fogem ao seu controle, Dohong sofre a mesma inapetência que sua mãe padeceu antes de morrer, mas agora a causa é outra. Sikey morreu de desgosto. Deixou‑se extinguir, vencida pela tristeza do exílio. Dohong não teve tempo de conhecer sua terra natal. O que vai matá‑lo não é a saudade, mas um surto de cinomose, que antes de ser descoberto e combatido matará mais cinco de seus companheiros de jaula.
É sabido e consabido que todo ser humano, no momento da morte, revê sua vida inteira em um instante infinitesimal, como se fosse um filme em altíssima velocidade. Porém, cego por sua soberba de espécie que se crê especial, o Homo sapiens ignora que o mesmo acontece com todos os primatas superiores, incluindo, é claro, os orangotangos. É o que Dohong vai descobrir agora.
Dohong vai morrer com seis anos. É pouco, muito pouco, já que um orangotango em cativeiro pode atingir dez vezes essa idade. No entanto, e apesar de ter passado a maior parte de sua vida no Zoológico do Bronx, Dohong viveu o bastante para ter o que lembrar na hora de sua morte.

Dohong não tem lembranças das florestas de Kalimantan, onde foi capturado aos três meses de idade, junto com sua mãe. Nem da longa e dura travessia nos porões abarrotados do Graf Waldersee, com mais 740 humanos que, como ele, começariam vida nova no Novo Mundo, no ano do Senhor de 1906. No mesmo navio, também vieram para o Zoológico do Bronx um casal de mandris, três lêmures e uma chimpanzé. Pobres mandris e lêmures; não tinham carisma, empatia com os humanos ou apelo publicitário suficientes para receberem um nome. Mas a chimpanzé sim: Polly.
A Polly pertencem as lembranças mais antigas de Dohong. Amigos desde sempre, companheiros na orfandade e no cativeiro, as afinidades, os afetos e as carências se sobrepondo às barreiras de gênero e espécie. Era comum que Polly passasse longas horas na jaula de Dohong. mesmo quando estavam em jaulas separadas, não passavam muito tempo sem se comunicarem um com o outro, em um idioma próprio que só eles entendiam.
Polly estava ao seu lado no dia em que Dohong inventou a alavanca. Nas paredes da jaula havia algumas barras horizontais de madeira, de quatro centímetros de espessura, presas em cantoneiras de ferro fundido. Uma delas havia se quebrado, e Dohong brincava com um dos pedaços. Mexe daqui, mexe dali, acabou enfiando o pedaço de pau entre uma das barras e a parede. Foi só questão de tempo até que a enorme força muscular de Dohong, amplificada cantou a frase duas, três vezes. Cantou-a novamente, harmonizando-a com um acorde menor. Percebeu que a frase naturalmente pedia uma continuação, como as perguntas pedem respostas.  (...)

sexta-feira, abril 20, 2018

(S) A Abertura da ópera «O Navio Fantasma» de Richard Wagner

(DL) Hemingway em Cuba


Há uns dias revisitámos a estadia de Ernest Hemingway em África. Dali ele trouxera vivências bastantes para criar algumas obras de referência. Desta feita passamos para a abordagem dos vinte anos por ele vividos em Cuba, onde escreveu uma das suas mais conhecidas obras-primas («O Velho e o Mar»), que terá sido determinante para que lhe fosse atribuído o Prémio Nobel em 1954. Mais do que as paisagens naturais, capazes de o mergulharem num deslumbramento permanente, Hemingway privilegiou as experiências humanas com quem lá vivia.
Havana tinha o encanto da arquitetura herdada dos conquistadores espanhóis e, ao mesmo tempo, a atmosfera decadente dos anos cinquenta antes de Fidel Castro liderar a Revolução, que viraria de pantanas a realidade política existente então.
O escritor começara por conhecer a capital cubana em 1928 e a paixão fora imediata apesar de se tratar de um espaço citadino controlado pela mafia. Os casinos, os bares, os cabarés e os prostíbulos estavam por todo o lado e aí acorriam os norte-americanos para usufruírem as fortes emoções de um quotidiano muito diferente do seu, condicionado pelas restrições morais das Ligas da Virtude.
Nos dez anos seguintes Hemingway volta à ilha crocodilo com regularidade até decidir nela sedentarizar-se a partir de 1939. Atraia-o o mar e a pesca ao espadarte, que seria tema incontornável da referida obra, bem como a boémia noturna, que tanto prezara na estadia em Paris. A disponibilidade para escrever era plena e a ela se entregava com deleite, quando voltava para o Hotel Ambos Mundos, onde estava alojado. Entre duas saídas para o mar ia escrevendo, virado para a janela do quarto de onde via a Catedral e a antiga residência do governador colonial.
A opção de ali se instalar coincidia com uma das suas mais amargas depressões, porque assombrada pelo medo da morte, que lhe tinha levado tantos amigos nos campos de batalha onde andara a fazer reportagens jornalísticas. Nomeadamente em Espanha, onde, nesse ano, Franco conseguira instalar-se no poder. A vitória fascista fechara-lhe definitivamente as portas desse país, tão amado que lhe fora natural o alistamento para colaborar com os republicanos.
Cuba tinha duas vantagens imediatas: lembrava essa Espanha perdida, mas nela também ali encontrava muitos exilados, ali chegados quando a derrota se tornara irreversível.
Cuba garantiu-lhe a serenidade, que tanto necessitava, possibilitando-lhe os prazeres da pesca, dos combates de galos, dos jogos de pelota basca ou de basebol. A paixão pela cidade, e pelos habitantes, que a mantinham em estado de ebulição, não cessaria de crescer. Quase todos os dias ia ao bar Floridita na concorrida rua Obispo, instalando-se no último lugar do balcão junto à parede do fundo para, desde as dez da manhã, pedir um duplo daiquiri. Em «Ilha à Deriva» escreveria sobre aquele espaço de predileção, garantindo-lhe fama imorredoira.
Quando começou a sentir exagerada a ocupação do tempo em atividades não diretamente literárias, arranjou refúgio a onze quilómetros da capital, na pequena aldeia de San Francisco de Paula, onde adquiriu uma mansão colonial do século XVIII com o nome de Finca Vigia. A escolha fora da sua terceira esposa, Martha Gellhorn, que conhecera na Guerra Civil Espanhola, mas depressa se rendeu ao espírito do lugar, que passou a considerar como efetivamente seu. As árvores, que lhe davam fruta todo o ano e lhe proporcionavam a paisagem oposta ao do bulício citadino serviu-lhe de fonte de inspiração, sendo vários os romances ali criados, o primeiro dos quais, «Por Quem os Sinos Dobram» de 1940, lhe facultou o almejado desafogo financeiro com a quase imediata adaptação cinematográfica.
Em Finca Vigia recebeu muitos amigos do mundo do cinema, como Ava Gardner, Ingrid Bergman ou Gary Cooper, mas também os mais humildes, que tinham a porta aberta para descobrirem a propriedade, mas sobretudo conseguiam  a oferta do dinheiro necessário para os medicamentos de que precisavam.
Com o amigo Gregorio Fuentes partia para o mar regularmente a bordo do iate que adquiriu, o «Pilar». Esse companheiro serviu-lhe de inspiração para o romance do pescador, que conseguia o maior espadarte alguma vez visto por aqueles mares, mas que não conseguia poupar à voracidade do ataque dos tubarões.
O primeiro encontro de Hemingway com Gregório ocorrera em 1928 numa altura em que o escritor saíra sozinho para o mar e uma tempestade deixara-o à deriva sem carburante. Seria Gregório, capitão de um barco de pesca a rebocá-lo em segurança até ao porto de abrigo. Dez anos depois, quando se decidira a ficar em Cuba, Hemingway procurara o seu providencial salvador para que trabalhasse para si. O que se verificaria durante os anos seguintes.
«O Velho e o Mar» constituiu uma espécie de vingança, que Hemingway aplicou aos críticos, que o tinham declarado completamente esgotado na inspiração. Publicado na íntegra na revista «Life» em 1952 receberia o Pulitzer do ano seguinte, sendo logo depois consagrado pela Academia sueca. Nessa altura já em Cuba era tratado afetuosamente de «Papa Hemingway» por o saberem testemunha fiel do carácter festivo dos seus habitantes. Hoje, nos locais por ele frequentados, encontram-se estátuas, fotografias e outra memorabilia a homenagearem-no. Para o povo é um mito grato por ele próprio se ter considerado um cubano adotivo. Por isso o celebram ao lado dos grandes heróis da Revolução, equiparando-se-lhes no merecido afeto.
Hemingway partiu de Cuba em 1960, um ano antes de se suicidar.