Vemos (V), Ouvimos (O), Lemos (L) e Experimentamos (E). Tanto quanto possível pensamos pela nossa própria cabeça...
quinta-feira, janeiro 25, 2018
(DIM) O terror quase absoluto no écrã
Assumidamente gosto de filmes de terror. Porque constituem divertimento com efeitos catárticos em coisas subconscientes, que nunca pretendi explorar (o que poupei assim com psicanalistas ou psiquiatras!), mas, sobretudo, porque lidos com profundidade distinta da sua apreciação passiva, pode sugerir crítica contundente da nossa sociedade capitalista.
O que representam os zombies senão emanações de um sistema assente na exploração do homem pelo homem, aparentemente invencível, mas a que um punhado de resistentes tenderá a pôr fim? E o canibalismo senão a expressão desse mesmo tipo de organização social em que existe quem se julgue legitimamente com direito de se alimentar da carne alheia? Ou o vampirismo como o contágio, que tanto assustou quem se viu rodeado de quem podia perfeitamente transmitir-lhe a sida?
No ciclo que tem dedicado ao medo ao longo do mês de janeiro a Cinemateca possibilitou a revisão de três dos títulos mais interessantes dos anos 60 e 70 subordinados a esse género cinematográfico.
«Night of the Living Death» de George Romero (1968) transformou-se num filme de culto e definiu o cânone em torno do qual os filmes com zombies se exprimiram desde então. Iniciando-se num cemitério, onde um par de irmãos se vê ameaçado por um desses monstros saídos da respetiva campa, passa-se quase todo numa casa de campo, onde um grupo de sobreviventes procura resistir aos sucessivos ataques de um número crescente de mortos-vivos.
Para além da metáfora Romero não deixava de aludir aos preconceitos racistas facilmente transformados em «acidentes» homicidas.
Quando vi «The Texas Chainsaw Massacre» de Tobe Hooper (1974) pela primeira vez achei-o tão insuportavelmente grotesco, que não aguentei até ao fim. E, de facto, há quem o considere o mais horrível filme de sempre com uma família de canibais a matar sucessivamente o grupo de miúdos meio-hippies, que teve a desdita de lhes aceitar o convite para em sua casa se alojarem. O argumento baseava-se na história real de um serial killer, Ed Gein, que fez correr rios de tinta nos jornais norte-americanos no final dos anos 50.
«Rabid», que David Cronenberg rodou em 1977, deveria ter a então famosa Sissy Spacek como protagonista, mas acabou por a substituir por uma das estrelas porno de então, Marilyn Chambers, apostada em reciclar-se para um tipo de cinema com outras ambições.
Essa escolha acabou por se revelar judiciosa ou não tivesse a indústria de que ela proviera sido posta em causa pelo influxo da Revolução Sexual dos anos 60 devido às imposições puritanas suscitadas pela epidemia do HIV.
Nesta história um laboratório era o responsável pela ameaça apocalítica suscitada pelo apetite voraz por sangue de quem se viu contagiado pelas sucessivas vítimas dos ataques iniciados por uma mulher sujeita a anódina intervenção cirúrgica. A epidemia descontrola-se, aparenta ser inesgotável na criação de mais e mais vítimas.
quarta-feira, janeiro 24, 2018
(DL) Entre «Villa Triste» e «Vidas Minúsculas»
1. Patrick Modiano tinha apenas vinte oito anos, quando publicou «Villa Triste», o seu quarto romance, que rompia com os anteriores quanto à época abordada: em vez do período da Ocupação, os personagens mudavam-se para a fronteira franco-suíça nos inícios dos anos 60, quando a Argélia estava a abrasar-se.
Galardoado anteriormente com dois dos principais prémios literários, Modiano não se ajustava a nenhuma das principais correntes literárias e até era visto com suspeição por muitos críticos, incomodados com personagens sem consciência nem moral. Era como se a presença nazi perdesse o seu estatuto histórico e apenas servisse de pano de fundo para as deambulações quase aleatórias de quem procurava escapar incólume aos seus perigos mais evidentes.
Neste novo contexto o jovem conde Victor Chmara, alter ego do escritor, vive no medo permanente de se ver envolvido num cenário belicista e está alojado num quarto de pensão, ocupando os dias a ler com o seu anacrónico monólogo. Grande parte do romance é dedicada à exploração desse vazio existencial preenchido no convívio com seres, a seu modo igualmente perdidos entre o que são e o quanto desejariam ser. René Meinthe é um médico envolvido em negócios escuros, lembrando o progenitor do próprio Modiano. Yvonne, a jovem atriz de papéis secundários, que namora com Victor, o vê furtar-se ao esperado pedido de casamento e acaba por partir para a América, também lhe evoca a mãe, que nunca conseguiu destacar-se nos palcos ou no cinema dos anos 40 ou 50.
O livro corresponde, assim, a uma espécie de autobiografia enviesada do autor, como se por interpostas personagens ele se questionasse sobre a sua própria identidade.
2. Igualmente da geração de Patrick Modiano, Pierre Michon é autor de «Vidas Minúsculas», espécie de autobiografia oblíqua em que vamos conhecendo, passo a passo, a história do narrador a partir do seu contacto com oito outros personagens de percursos anódinos: há um órfão, que vai para África em busca de fortuna; há o homem, que só ganha alento, depois de expulsar o filho de casa, existem os dois irmãos, que conseguem ser cúmplices no ódio, que dedicam entre si; há o padre capaz de quase chegar à iluminação através da sua degenerescência.
Mais do que as histórias em si, o romance vale pela exploração dos recursos da linguagem, regenerando muitas palavras supostamente perdidas.
(DIM) «Volver», de Pedro Almodovar, amanhã no Cineclube Gandaia
«Volver» assinala o regresso de Pedro Almodovar ao universo feminino, depois de, em dois filmes seguidos («Fala com Ela» e «Má Educação») tê-lo deixado subalternizado. E as primeiras cenas, passadas num cemitério ventoso com várias mulheres a cuidarem das campas dos seus defuntos, logo nos revelam que assim será durante todo o filme. Os homens regressam ao papel de meros figurantes, que intervém na ação quase sempre negativamente, mas não a conseguem determinar. Porque aqui são as «mammas» quem mais ordenam com a convicção e tenacidade das que costumávamos ver no cinema italiano (não é por acaso que Anna Magnani será uma das referências cinéfilas mais explicitas do filme!).
Se a morte está presente desde esse primeiro momento, ela prosseguirá como uma constante na intriga da autoria do próprio Almodovar, seja na forma da vertente policial do enredo (há um crime sem castigo!), na da doença incurável da pitoresca Agustina que, ainda viva, costumava cuidar da sua própria sepultura, e de um fantasma, que depressa desconfiamos não o ser, mas que as principais personagens levarão mais algum tempo a compreender que se trata de alguém bem real. Mas, como contraponto da morte há a exuberância da vida e ela revela-se insuperável nas cores garridas, que caracterizam a grande maioria dos filmes do realizador e dão substância à verve empreendedora da inquebrantável Raimunda.
Na sua construção tipo matrioska há várias razões para o título do filme: porque para além da primazia feminina, Almodovar reconduz a sua câmara à região natal, essa Mancha, onde D. Quixote costumava batalhar com moinhos. A figura da mãe volta a ser o pólo em torno do qual circula toda a intriga. O sexo, na sua expressão violenta, abusiva, faz-se de novo presente. E as produções cinematográficas, na forma de uma equipa de rodagem que dá fôlego ao restaurante de Raimunda, voltam a entrar filme adentro. Mas, para que o Volver fizesse ainda maior sentido, este foi o filme em que, dezoito anos depois, e após uma quezília que chegou a ser muito mediática, Almodovar e Carmen Maura voltaram a trabalhar juntos.
Por isso se considera ser este o filme dos eternos retornos e dos regressos impossíveis.
terça-feira, janeiro 23, 2018
As Partes do Todo (XII) - 23 de janeiro de 2018: Mongólia dos anos 90 e A Guerra dos Mundos
1. Em 1990 um grupo de franceses decidiu atravessar a estepe mongol a cavalo. A URSS acabara de implodir e deixara de ter grande influência nas suas repúblicas-satélite.
A Mongólia via-se, então, obrigada a inventar o seu novo papel num mundo, que não deixava de ter de contar com o poderio dos dois gigantes com que continuava a ter fronteiras - a Rússia e a China -, mas com a atenção também focalizada no mundo capitalista apostado em ali entrar em força para lhe explorar o rico subsolo.
Procurando imitar as grandes viagens científicas de antanho, os viajantes prepararam as máquinas fotográficas, os moleskines e as barras de cereais para irem ao encontro de paisagens proibidas a estrangeiros desde os anos 20. O exotismo colidia com o sistema dito comunista em deliquescência.
Se foi a abertura política a leste a permitir tal expedição, ela começou por ser sugerida pela descoberta de um texto de Guilherme de Rubrouck enviada a São Luís no século XIII: “Quando começámos a contactar com esses bárbaros, concluí que chegara a um outro mundo. Rodearam-nos montados a cavalo depois de tanto os termos esperado enquanto descansavam sombra das carroças negras. A primeira coisa, que nos perguntaram foi se alguma vez já ali estivéramos…”
2. Eu sei qual era a finalidade desse tipo de filmes, rodados em Hollywood, quando a Guerra Fria se exacerbava e a caça aos comunistas excitava os ânimos crapulosos de uns e intimidava muitos dos que tinham aderido a tais ideias com a naturalidade de quem nelas identificava os aliados durante a grande luta antifascista. A verdade é que acho piada a títulos como o que agora vi: «A Guerra dos Mundos», `realizado em 1953 e baseado no romance de H.G. Wells. Protagonizado por Gene Barry e Ann Robinson, desde a primeira cena que se compreende de quem verdadeiramente se fala quando se pinta os marcianos invasores com os piores adjetivos. Invejosos, frios, insensíveis, assassinos - todo um conjunto de características exploradas pelos propagandistas mais maniqueístas para diabolizar os novos inimigos soviéticos.
Respeitando a intriga criada pelo autor britânico, Haskin utiliza efeitos especiais vistosos para a época, mas hoje de uma ingenuidade curiosa, ao mesmo tempo que explora as potencialidades do Technicolor, com que os estúdios procuravam manter as audiências nas salas de cinema, porque visualmente mais apelativos do que a oferta televisiva.
Onde Haskin inventa, e mal!, é quando quase faz corresponder a chacina dos marcianos pelas bactérias terrestres a um milagre divino: já não bastando a ideologia anticomunista, ainda a quis embalar no diáfano manto de uma suposta santidade cristã.
segunda-feira, janeiro 22, 2018
As Partes do Todo (XI) - 21 de janeiro de 2018: o Parque Nacional do Triglav (Eslovénia) e Federico Fellini
O outro país, que partilha com Portugal a nacionalidade oficial das nossas netas, é a Eslovénia, país com metade da superfície da Suíça e situado no nordeste do mar Adriático. Mas em tão limitado território, é grande a diversidade da paisagem, desde os picos alpinos até à beira-mar, passando pelos planaltos cársticos e as planícies.
Os Alpes Julianos, cujo nome homenageia o antigo Imperador romano, são constituídos por centenas de picos escarpados, quase todos a superarem os mil metros de altitude. O mais elevado de entre eles é o Triglav, com 2864 metros, que dá o nome ao Parque Nacional situado no noroeste do país, e é um dos mais antigos da Europa.
Particularmente adequado às caminhadas, essa paisagem obriga quem nela se aventure a adaptar-se às rápidas alterações meteorológicas. De um minuto para o outro tudo parece mudar à sua volta.
No coração do Parque corre o Soča, um rio de águas límpidas, de cor esmeralda, acessível a um dos mais concorridos trilhos percorridos pelos visitantes. Tendo a sua nascente a mil metros de altitude o Soča desagua no Adriático tendo no seu curso trechos particularmente frequentados pelos praticantes dos desportos náuticos (kayak, rafting), que procuram desmentir quem o diz indomável e imprevisível. O vale também atrai os pescadores que, nas margens do rio, procuram capturar a rara truta marmoreada.
2. Após ter tentado um compromisso com o neorrealismo no seu «Noites de Cabíria (1957), Fellini procurou recuperar o personagem de Moraldo, o provinciano de «I Vitelloni», que se fora instalar em Roma, tornando-o protagonista do novo projeto que, após múltiplas transformações, converteu-se em «La Dolce Vita» (1960), filme que marca um ponto de viragem na carreira de Fellini e tornar-se-á num dos títulos de referência da História do Cinema.
Cannes premeia-o com a Palma de Ouro vendo Fellini a ajustar contas consigo mesmo: através da radiografia da sociedade romana, sem concessões nem complacência, assiste-se à primeira meditação do cineasta sobre o tempo que se vai esgotando, a realidade inelutável da morte, o medo de um futuro opaco e a redução da religião ao seu mero suporte publicitário. É também o primeiro dos filmes com Marcello Mastroianni, que se converterá no seu alter ego. O filme inaugura, igualmente, a estrutura em moléculas longas, sucessão de episódios mais relacionados pelos personagens do que propriamente pelas situações, que se sucedem...
domingo, janeiro 21, 2018
(DL) Viver no Dondo no final do século XIX
Passaram vinte cinco anos sobre a primeira edição de «A Feira dos Assombrados», livro de novelas e contos de José Eduardo Agualusa, que nos projeta para a realidade do interior angolano nos finais do século XIX.
Existe a tentação de olhar para aquela vastidão africana como se só tivesse existido, quando ali chegaram os portugueses e começaram a ali impor os padrões da sua suposta civilização cristã, mas a realidade foi tragicamente outra: esse acontecimento coincidiu com o comércio esclavagista, que obrigou à travessia oceânica de muitos milhares de vítimas do sórdido negócio. E, quando ele ficou proibido, logo emergiu o do marfim, que tantos elefantes chacinou. Não admira que na novela, que dá título ao livro, há pouco reeditado, se expanda a ideia entre a população local em como teriam sido paradisíacos os tempos anteriores à chegada dos europeus.
É na época em que a Monarquia está a conhecer a sua irreversível decadência, com os ingleses a imporem-lhe o Ultimato, que Agualusa situa a sua história introduzindo nela algumas das características do realismo mágico latino-americano. Numa pequena vila situada nas margens do Cuanza - o Dondo, que também foi o nome do primeiro navio mercante onde iniciei carreira na Marinha Mercante! - começam a surgir estranhos afogados, sucessivamente mais afastados da forma que havia sido sua enquanto seres vivos. Como não tem a certeza se seriam seres humanos, se outros de natureza maléfica, o padre recusa-lhes a inumação no cemitério e a proceder-lhes às exéquias.
Cresce, dias a fio, a disputa entre o major Santoni, chefe do concelho, e o pároco dado a simpatias socialistas, mas paradoxalmente, muito cioso da distinção entre o sagrado e o profano. Razão para a vila se dividir entre os partidários (poucos…) do major e os do padre, que arregimenta do seu lado a maioria, mais expectante do que ativa. De permeio vão surgindo outros personagens não menos singulares, que estão ou já estiveram presentes naquele espaço, e nele deixaram memória controversa: o mágico brasileiro capaz de pôr as pessoas a pairar acima do chão, o morto que permanece igual ao que era, quando vivo, e que por isso não é sepultado pelo filho; a bela mulher do major, Angelina, que efeitos tão persuasivos exerce na mente libidinosa dos homens locais; o professor já velho, mas incorrigível sedutor, apostado em fazer sua a mulher alheia; o rapaz que fora criado pelos macacos da beira do rio e que com eles privara até se ver sacrificado por ser considerado filho do Demo.
Dura semanas o impasse relativamente ao destino a dar aos cadáveres, cujo cheiro nauseabundo sobe do sítio onde se acumulam e é trazido pela brisa até à vila. Só a manifestação de força do major acaba por romper esse equilíbrio instável com a reconciliação final das partes desavindas a ser assegurada pela notícia da iminente chegada do comboio à região.
Tratando-se de uma das primeiras obras do autor ainda não comportava a ambição de outras, que tanto nos sugestionaram e nos deram retrato complementar a essa Angola rica em histórias merecedoras da tradução ficcional. Pode ser considerado um muito agradável aperitivo a mais suculenta demonstração de criatividade literária.
sexta-feira, janeiro 19, 2018
(DIM) «A Vida, uma dança silenciosa» de Aleksandra Kumorek (2016)
Ruth Denison é uma personalidade incomum. Feminista, foi uma das primeiras professoras da meditação budista na Europa. Nascida na Prússia Oriental em 1922, viveu na juventude as vicissitudes da Segunda Guerra Mundial.
Em 1957 emigra para os Estados Unidos e especializa-se na meditação vipassana. E, 1977 fundou no deserto do Mojave o centro Dhamma Dena, que continuava a dirigir com entusiasmo, mesmo já superada a barreira dos noventa anos.
A realizadora Aleksandra Kumorek foi autorizada a filmar Ruth nos últimos anos de vida, até que a morte foi ao seu encontro em 2015. O documentário que resultou dessa experiência permite testemunhar a obra e as reflexões de uma mulher de exceção.
As Partes do Todo (X) - 19 de janeiro de 2018: Santa Camarão e Georges Simenon
1. Luís Pedro Cabral assina na última revista do «Expresso» um longo relato sobre a carreira de Santa Camarão como boxeur nos anos 20 e 30 do século passado.
Pessoalmente, e apesar do trabalho de consulta de jornais dessa época para escrever textos relativos à História da minha classe profissional, nunca de tal personalidade dera conta. Decerto terei passado por sucessivos títulos, que iam dando conta das vicissitudes dos seus combates, mas sou de uma geração, que nem atribuiu grande relevância ao boxe como desporto, nem dele conheceu outro nome que não o de Belarmino. E este por causa do filme do Fernando Lopes e por o ver pessoalmente, com alguma frequência, na paragem do autocarro em frente à secção almadense do D. João de Castro, quando para ele me dirigia como aluno.
A história do boxeur de Ovar tem, porém, o seu interesse. Primeiro, porque foi uma força da natureza com a sua descomunal altura e o corpanzil formatado pelas muitas operações de carregar e descarregar a fragata onde ganhava parco sustento. Depois, porque acaso tivesse outra sagacidade, por certo teria disputado o título mundial de pesados com os maiores pugilistas do seu tempo. Nomeadamente com Max Schmeling, o ai-jesus de Hitler, com quem chegaria a rodar um filme de grande público nos estúdios da UFA.
Sendo o box uma profissão onde se entra pobre e pobre se sai, esse foi o destino que lhe estava traçado. Morreria na casa em que nascera, longe da mulher e do filho, que cedo o deixaram para buscarem vida melhor nos Estados Unidos.
A reportagem é daquelas, que podemos imaginar como um esboço para justificável abordagem mais alongada, possuindo potencial para dimensionar-se até ter as páginas bastantes de um romance.
2. Há escritores que se forçam a nada ler de outros parceiros do ofício enquanto andam a produzir os seus projetos. Temem o efeito de contaminação do estilo alheio tornando híbrido, menos genuíno, o seu.
Um dos exemplos clássicos dessa postura foi o de Georges Simenon que passou anos a escrever um fluxo inesgotável de romances como forma de garantir o sustento. Porque o tempo lhe era escasso para cumprir os prazos contratualizados com os editores afirmava-se um anti-intelectual porque nada dizia conhecer do que se ia publicando no entretanto. Contudo, na juventude, fora um voraz leitor de Balzac e dos grandes escritores russos (Gogol, Dostoievski e Tchekov).
Só muitos anos depois, quando decidiu dar por concluído o ofício de escritor, reformando-se a tempo de viver serenamente os últimos anos, é que retomou os hábitos da leitura com a obsessiva intenção de suprir esse atraso, sempre com a ampulheta a esgotar-se no seu topo superior.
(DIM) «Cartas de Iwo Jima» de Clint Eastwood (2006)
Em 1945 a ilha rochosa de Iwo Jima foi palco de uma mítica batalha entre os exércitos norte-americano e japonês. Passadas algumas décadas os arqueólogos encontraram cartas de soldados nipónicos enterradas na areia, nelas exprimindo-se os seus medos e certezas. Destas últimas a mais incontornável era a de se saberem prestes a morrer, porque não eram tantos quantos os necessários para equilibrarem o avanço inimigo e as condições de vida haviam-se deteriorado por causa dos intensos bombardeamentos aéreos.
Antes de comandar a derradeira batalha o general Kuribayashi anunciara-lhes, que deveriam conformar-se com o facto de nunca mais voltarem a pisar o solo japonês. E, enquanto hábil estratega mandara escavar mais aprofundadamente os subterrâneos existentes na ilha, transformando-os numa fortaleza tão inexpugnável, quanto era possível garantir.
O filme de Eastwood focaliza-se em Saigo, um jovem padeiro incumbido da defesa do monte Suribachi, que constituiu uma das mais determinantes posições para decidir o resultado da batalha.
Após «Flags of Our Fathers» este filme corresponde ao seu contraponto com a perspetiva dos militares japoneses durante a sangrenta batalha de Iwo Jima. Explicita-se o fosso cultural estabelecido entre os dois campos, sobretudo pelo rigoroso código moral assumido pelo lado nipónico, que fundamenta o impressionante suicídio coletivo dos derrotados, sob pressão do seu comandante pra quem era intolerável a possibilidade de se renderem.
Eastwood multiplica flash backs sobre o passado da sua impressionante galeria de personagens, dos quais merece realce o referido general interpretado por Ken Watanabe.
quinta-feira, janeiro 18, 2018
(DIM) Como o Medo foi utilizado como veículo de propaganda
O ciclo sobre o Medo, que a Cinemateca está a promover durante este mês de janeiro, tem propiciado diversas abordagens tão só se coloquem comparativamente em equação alguns dos títulos exibidos. Uma delas pode ser a da forma completamente diferente como Hollywood abordou o tema antes e durante o Macarthismo.
Em 1942, «A Pantera» de Jacques Tourneur apelava para a inteligência do espectador que era convidado a imaginar a existência do monstro a partir de sugestões propiciadas por sombras e sons.
A II Guerra Mundial estava num ponto de viragem, os meios eram escassos para tornar possíveis grandes efeitos especiais e as alusões psicanalíticas de forte cunho sexual tinham de contornar os pruridos morais da censura. Tanto bastou para tornar possível um dos títulos maiores da produção cinematográfica desse período.
Sete anos depois a histeria anticomunista dos principais donos dos estúdios levavam-nos a produzir obras declaradamente de propaganda como é o caso de «Casei com um comunista».
Contam os livros, que Howard Hughes quis testar o «americanismo» dos seus realizadores e avançou com este projeto para cuja concretização foi convidando todos eles, um a um. Só à 13ª tentativa conseguiu encontrar o tarimbeiro, que se dispusesse a cumprir a empreitada. Chamava-se Robert Stevenson e a mediocridade com que a executou foi igual à dos demais filmes da sua carreira.
A história era a de um ex-membro do Partido Comunista, que se via chantageado pelos ex-camaradas para prosseguir no esforço antipatriótico de pôr em causa as grandes virtudes do capitalismo americano.
Ao contrário do filme de Tourneur não era a inteligência dos espectadores a ver-se desafiada. Pelo contrário, pretendia-se infantilizá-los numa história com bons e maus, fazendo do castigo destes últimos a demonstração de que imitá-los nas ideias não seria aconselhável.
Em 1953, quando a caça às bruxas estava no auge, Byron Haskin realizou « A Guerra dos Mundos», baseado no clássico de H. G. Wells que o quase homónimo Orson transformara num enorme escândalo radiofónico.
A ameaça comunista era aqui ilustrada numa invasão extraterrestre, que comportava os receios de uma guerra nuclear. Visualmente o filme era muito bonito com o radioso Technicolor, forma bem embrulhada de transmitir a ideia de, apesar de intimidantes, os extraterrestres/comunistas acabariam por ser derrotados.
As Partes do Todo (IX) - 18 de janeiro de 2018: um doido furioso à solta na net
Não me admiraria que viesse a ser um dos convidados da Fundação do Pingo Doce para dar umas conferências em Portugal, deliciando o pessoal do «Observador» e o João Miguel Tavares: Jordan Peterson é um dos youtubbers de sucesso nesta altura, contando com um milhão de assinantes, que lhe garantem um rendimento de mais de sessenta mil dólares mensais. Apreciado por muitos jovens na idade dos vintes difunde a ideia de as Humanidades estarem a corromper os alunos das universidades norte-americanas.
O movimento Alt-right promove-o como um do seus gurus e a Fox & Friends convida-o amiúde para dar uso ao inegável talento de comunicador. Invariavelmente fala contra os direitos das minorias, mormente as sexuais relativamente às quais não esconde o seu ódio, mostra simpatia pelos suprematistas brancos e defende a importância social do «espírito masculino», culpando as feministas de estigmatizarem injustamente qualidades como a competitividade. No fundo procura dar uma cobertura intelectual ao fanatismo e à misoginia.
Nascido e criado num lugarejo remoto no Estado de Alberta (Canadá) doutorou-se em Psicologia Clínica, reivindicando-se do legado de Jung. Hoje dá aulas na Universidade de Toronto, mas há fortes pressões para que seja dela corrido a pontapé. Porque a antipatia que gera é a suficiente para que os amigos não façam gala dessa condição pelo medo de serem associados aos seus valores crapulosos.
Com muitos dos atuais comentadores de extrema-direita, que invadem o espaço mediático, começou por ser um entusiasta do socialismo mas, depois de uma depressão avassaladora, mudou-se de armas e bagagens para o campo oposto. De tal forma está tão inseguro nessa nova identidade, que exagera na confissão de fé: tem comprado cópias de quadros e de ilustrações do realismo soviético para decorar o escritório e as principais divisões da residência para se lembrar que as Utopias podem tender para o horror. Aos seguidores dá endereços de sites e de cursos a evitar por neles identificar sinais do pós-modernismo, que considera um disfarce ideológico do execrado marxismo.
Que tudo nele parece muito instável demonstra-o reconhecimento de sofrer frequentes estados de ansiedade. No fundo vai demonstrando ser um ídolo de pés de barro, que, enquanto mantiver a influência em tantos incautos simpatizantes da sua causa, consegue ser extremamente perigoso. Até ao dia em que for internado como definitivamente doido...
Subscrever:
Mensagens (Atom)















