terça-feira, dezembro 12, 2017

(DL) Literatura para nascidos no Estado Novo

Nos últimos anos, sobretudo desde que se reformou do jornalismo, Fernando Dacosta tem publicado diversos relatos sobre quem conheceu ao longo desse percurso profissional, facultando-nos informações complementares sobre alguns aspetos da História portuguesa na segunda metade do século passado.
«Nascido no Estado Novo» foi publicado em 2001 e está dividido em cinco partes explicadas pelo próprio autor numa das últimas páginas do livro: “A Primavera esteve presente nos acordares da República e do 25 de abril; o Verão, nas ditaduras do Estado Novo e das multinacionais neo-esclavagistas; o Estio, na afirmação do erotismo e na emergência da liberdade; o Inverno, no martírio dos mobilizados das guerras e no abandono dos excedentários; o Outono, na reinvenção da esperança e na resistência global.”
Tendo sido visita de casa de Salazar quase se fazendo adotar pela governanta, D. Maria, é natural que o autor seja bem mais complacente com o ditador de Santa Comba do que com o seu efémero sucessor: Marcelo Caetano é descrito como um homem muito preconceituoso, dado a arrebatamentos morais, que paradoxalmente, se tornaram risíveis ao sabermos que, a seu lado, no cemitério onde foi sepultado, está a campa do libidinoso Nelson Rodrigues. Se os dois pudessem dialogar adivinharíamos o padrinho do atual Presidente a não perder o corado próprio de quem se sente escandalizado com os costumes alheios.
As palavras mais admirativas vão, porém, para alguns dos melhores amigos com que privou, nomeadamente os que com ele partilhavam as animadas tertúlias de vários cafés lisboetas, onde as discussões não perdiam entusiasmo pelo facto de se saberem vigiadas pelos delatores da Pide. Natália Correia foi-lhe particularmente grata, sendo curiosa a sua antipatia por Amália, com quem partilhava, porém ,muitos traços de carácter. Ary dos Santos era outro dos seus ódiozinhos de estimação, depois de tanto se terem querido, por causa da radicalização política subsequente a 1974. Há também Mário Viegas de quem se lamenta o tão precoce desaparecimento ou a simpatia contagiante de José Saramago e de Pilar del Rio. Outra das personalidades, que lhe merece respeitosa consideração é o professor Agostinho da Silva apesar da forma ostensiva como virara costas ao positivismo racional. Mas como não reconhecer-lhe razão, quando dizia que “o difícil na vida é saber fazer perguntas. Dar respostas todos dão, até porque as nossas escolas apenas são formadoras de respostas”?
Testemunho de um tempo que se vai revelando aceleradamente distante, este e outros relatos de Dacosta na primeira pessoa constituem uma oportunidade prazenteira de não o deixarmos fugir sem dele lhe agarrarmos nostalgicamente alguns ténues rumores.

segunda-feira, dezembro 11, 2017

(EdH) Catalunha em vésperas de uma eleição decisiva (I)

A menos de uma dúzia de dias da eleição, que poderá influir decisivamente no seu futuro, vale a pena abordar o que é hoje a Catalunha e o que, no seu passado, justifica uma tão determinada vontade em se separar do resto da Espanha.
Comecemos pelo nome: porquê Catalunha? A razão tem a ver com o nome dado à antiga província romana, quando os Visigodos a conquistaram e lhe quiseram dar uma nova identidade: Gothalonia. Assim ficou até evoluir por sucessivas corruptelas até á atual designação, que abarca quatro províncias: Gerona, Tarragona, Lleida e a capital, Barcelona.
A superfície abarca 32 mil km2, ou seja quase 1/3 de Portugal, mas apenas 6,3% do território ainda tido como espanhol. Em riqueza é a mais rica região espanhola graças ao crescimento médio anual do PIB em 3,5% nas últimas duas décadas do século XX. Nesse período deixou de ter as fábricas a dominarem a paisagem, ao operar-se uma efetiva revolução nos serviços e no lazer.
A identidade específica de que se reivindica é condicionada pela presença impositiva dos Pirenéus e do Mediterrâneo, constituindo o Ebro o seu limite geográfico. Mas a língua e cultura extravasam essas fronteiras e chegam aos Pirenéus orientais e a sul até Alicante. Ao largo também as ilhas Baleares lhe estão ligadas, falando-se ainda catalão na Andorra, na periferia oriental de Aragão e na própria Sardenha. Mas, mais do que o mar ou a montanha, a planície litoral ou os deltas, foi a História a forjar a identidade catalã.
O seu território sempre foi região de contactos e de trocas entre populações distintas. As grutas e os abrigos testemunham uma ocupação ancestral, datada pelo menos do Paleolítico médio.
Nos alvores da época histórica era habitada por um povo de que ainda se desconhecem as origens - os Iberos - mas muito provavelmente resultante da miscigenação entre populações vindas de África com tribos celtas provenientes do norte da Europa.
No século VI a.C. os navegadores gregos criaram na região alguns dos seus mais distantes entrepostos comerciais. Os romanos ocuparam-na em 218 a.C., levando duas dúzias de anos a pacificá-la para lhe imporem as suas regras civilizacionais.
Os Visigodos chegaram em 531, mas não tardaram as invasões árabes sendo conhecida a data da queda de Barcelona - 717. Os francos reconquistaram-na e, sob a dinastia carolíngia, constituiu uma espécie de lança avançada contra os avanços do islamismo.
Foram vários os condes que a administraram e se foram autonomizando da tutela carolíngia até declararem a independência. Raimundo Berengário III estendeu o seu poder até à Provença a partir de 1113 e o seu primogénito, o IV com o mesmo nome, desposou a filha do rei de Aragão em 1137, criando a união das duas potências de então, mudando o destino da Catalunha. Ela irá desempenhar um papel determinante na Reconquista dos séculos VIII até ao XIII e, ainda mais, na expansão para o Mediterrâneo com a conquista das Baleares em 1229, do reino de Valência em 1238, da Sicília em 1282, da Sardenha entre 1322 e 1324, sem esquecer a Córsega.
No século XIV a Catalunha era uma das maiores potências do Mare Nostrum.

(S) «Libertango», o lindíssimo tema de Astor Piazzolla

domingo, dezembro 10, 2017

(DIM) As impressivas personagens femininas de Cláudia Varejão

Tendo entretanto passado para as longas-metragens,  Cláudia Varejão assinou anteriormente algumas curtas elucidativas quanto ao seu talento para, com poucos meios, contar estórias sobre personagens femininas. Se em «Luz da Manhã» víramos a conflitualidade indisfarçável entre uma jovem mãe e a sua própria progenitora, já indiciando os sinais de uma senilidade irreversível sob o olhar atento da neta de meia dúzia de anos, em «Fim-de-semana» está em causa a falta de comunicação entre os membros de uma família em que a filha adolescente vive a angústia de se saber grávida.
Esta última curta, datada de 2007 e produzida no âmbito de um curso organizado pela Gulbenkian, dá já conta da capacidade da realizadora em sugerir por olhares e gestos o que está no íntimo das suas personagens. Daí que sejam merecedores de justificada atenção todos os projetos por ela assinados que nos sejam disponibilizados.

sábado, dezembro 09, 2017

(EdH) Crimes tenebrosos contra mulheres argentinas

O caso do rapto de María de los Ángeles Verón agitou a Argentina nos últimos anos e merece ser melhor conhecido por demonstrar até que ponto a criminalidade organizada pode estar conluiada com os poderes judicial, policial e político de forma a condenar as vítimas e suas famílias a verdadeiros labirintos kafkianos.
Tudo começou em fevereiro de 2002, quando uma jovem de 23 anos foi raptada numa rua de Tucuman e a polícia eximiu-se de a procurar embora sobrassem testemunhos de quem a vira ser empurrada à força para dentro de um carro. Apesar da indiferença das autoridades a família de Marita iniciou um longo calvário, procurando-a por todos os prostíbulos de La Rioja e outras províncias vizinhas porque, desde cedo, intuiu ser ela mais uma das vítimas de uma rede organizada de rapto de raparigas com o objetivo de as forçar à prostituição.
Anos a fio os pais não desistiram dessa busca e, com a ajuda de um antigo militar, encontraram provas da passagem da desaparecida pelos bordéis geridos por Lidia Medina e seus filhos, conseguindo resgatar deles algumas mulheres também elas ali forçadas a idêntico suplicio.
Em 2012 o tribunal de primeira instância de Tucuman absolveu todos os suspeitos apesar das provas convincentes contra eles apresentadas pela Acusação. A subsequente revolta da opinião pública foi tão forte e indignada, que o Supremo reverteria essa decisão e inculparia os raptores condenando-os a muitos anos de prisão. Mas Susana Trimarco, a mãe de Marita, ainda continua sem encontrar os restos mortais da filha para lhes dar definitivo descanso junto aos do marido, entretanto falecido de tristeza e frustração. 

(DIM) Esta tarde na Cinemateca: «Cartas de amor de África» de Frédéric Mitterrand

Em 1982 Frédéric Mitterrand ainda era alguém, que justificava alguma admiração pela confiança, que lhe poderíamos depositar quanto ao seu gosto cinéfilo e às propostas que sugeria.  O seu enfeudamento à direita ideológica ainda era incerto embora também ninguém pudesse pressupor o contrário.
Data desse ano o seu primeiro filme, «Lettres d’Amour en Somalie», um misto de ficção com documentário, em que um personagem em voz-off vai exorcizar o luto afetivo na Somália, fazendo corresponder  o ânimo pesaroso dos seus estados de alma com as imagens de um país muito pobre, mas ainda longe do Estado falhado em que, entretanto, se converteu.
A crítica alertou, na época, para as óbvias influências de Marquerite Duras, então no auge do prestígio. E as palavras finais com que se conclui, captando a paisagem noturna de Paris a partir de um travelling vertical colhido no elevador da Torre Eiffel serve-lhe de alguma forma de síntese: “Um dia, esta paixão que decerto te impunha, voltarei a retomá-la. Amarei outro alguém. Ou outros alguéns. A vida é, às vezes, tão longa. Tal qual te vejo, ver-te-ei diferente. Enquanto me amavas igualmente à tua maneira, não te verei em nenhum lugar. Ao afastar-me sem a esperança de um regresso, roubar-te-ei novamente, na ideia que de ti guardava. E se por acaso nos reencontrarmos mais tarde, terei comigo todas as imagens de quando fomos jovens e recusarei a restituir-tas. (…)  Olha-me: devolvo-te à inocência. Aprende o seu outro nome: a solidão!”

(S) L' Arpegiatta: «Lu Passariello»

(DL) «O Regimento dos Espectros» de Lydie Salvayre

Uma rapariga e a mãe partilham um apartamento miserável sujeito à morosa visita de um oficial da justiça incumbido de recensear os bens para que respondam por dívidas acumuladas. Entramos num impasse logo de início: há unidade de lugar, de ação e de tempo numa tragédia concebida como uma espécie de grito sufocado. O visitante permanece calado, a filha vai procurando iludir-lhe o estado de insolvência em que estão e a progenitora vive num limbo entre o presente e o passado, misturando ambos embora preponderando-lhe as memórias da ocupação nazi. Ela não conseguira superar a memória infantil de ver o irmão assassinado pela milícia, perdendo qualquer noção de humanidade civilizada. Louca? Talvez, embora a autora jamais o declare…
É um facto, porém, que ela olha para o oficial de justiça como se tivesse sido enviado por Darnand a mando do general Pétain. Embora tenham passado, entretanto, cinco décadas desde que a guerra acabou e a grande maioria dos que tinham-se portado com cobardia ou perversidade haviam já desaparecido.
Tratando-se de um romance dedicado a quantos terão vivido a experiência do horror levado aos seus limites, coloca a bem conhecida questão depois enunciada por quantos sobre ela falaram: como viver depois de tudo isso?
Se Lydie Salvayre sempre trata Pétain como Putain é por ter conhecido num café um velho senhor, que lhe mostrara os números tatuados no braço e lhe falara do que sofrera no campo de Buchenwald. Terá sido ele a contar como ali costumavam chamar ao pérfido general, dado depois aproveitado pela escritora ao longo da sua estória, demonstrativa da significativa parcela da população comprometida com o regime de Vichy e até vendo na denúncia anónima a oportunidade para, eventualmente, fazerem seus os bens deixados pelas vítimas . E não admira que a maldade tenha sido quase sempre apanágio dos mais desqualificados, daqueles que Marx designou como lúmpen não lhes atribuindo senão um papel mais do que ambíguo no contexto da luta de classes...

quarta-feira, dezembro 06, 2017

(DIM) O escândalo Bergman - Rossellini

Ao iniciar a rodagem de «Stromboli» Ingrid Bergman já começara a negociar o divórcio com o dentista sueco com que se casara. Mas a situação ganharia dia-a-dia contornos cada vez mais rocambolescos: o marido abandonado naturalizou-se norte-americano para atrair a si os favores da opinião pública sugestivamente escandalizada pela forma como os jornais iam relatando o caso.
Aconselhado por um advogado, Rossellini intenta-lhe um processo judicial no México por difamação, aproveitando as facilidades com que a jurisprudência local analisava esse tipo de casos.
Ingrid Bergman, até então idolatrada como moralmente irrepreensível, vê-se arrastada para a lama por abandonar uma família-modelo e a filha de 13 anos trocando-os por um macho latino politicamente suspeito, pois tanto cultivara amizades com fascistas como com comunistas.
Já estava na rodagem do seu primeiro filme com o amante, quando recebe uma carta ameaçadora da Production Code Administration, que a insta a corresponder aos padrões aceites de boa conduta sob pena de ver encerrada a carreira cinematográfica.
No Senado um obscuro senador do Colorado teve direito aos seus quinze minutos de fama, tomando a palavra para denunciar as malfeitorias da atriz.  Seguiu-se a proibição de entrada em território norte-americano por má conduta moral.
Quem não se privou de fazer uns dólares com a situação foi Howard Hughes, que se aprestou a estrear a versão americana do filme, apesar de desautorizado por Rossellini. Mas nenhuma das versões, a italiana ou a americana, conseguirão sucesso imediato: só com o decurso dos anos o filme foi devidamente valorizado e qualificado de obra-prima.
Por procuração, os amantes escandalosos casaram-se entretanto no México vindo a ter três filhos, duas raparigas (Ingrid e Isabella) e um rapaz (Robertino).
Nos anos seguintes, em vez de ver a carreira interrompida como o exigiam as autoridades norte-americanas, Ingrid Bergman nunca deixa de rodar filmes com o marido: «Europa 51» estreia-se em 1952, «Viagem a Itália», «O Medo»  e «Joana d’Arc na Fogueira» todos em 1954.
Mas a paixão dilui-se instalando-se o tédio. Não basta o Ferrari, que ele lhe dá para que Ingrid se sinta compensada com um casamento a estiolar-se. Procurando recuperar a antiga liberdade, Rossellini vai filmar para a Índia e enceta aí uma nova aventura romântica com uma argumentista local.
Ingrid Bergman aceita propostas para filmes de outros realizadores como sucede em 1956 com Jean Renoir, que lhe dá o papel principal em «Elena e os Homens». E a América reconcilia-se com ela, reabrindo-lhe as portas de Hollywood para o papel de «Anastasia» no filme de Anatole Litvak, que lhe vale um novo Óscar. Tinha-se-lhe concluído um ciclo de sete anos, que constituíra um sonho depois transformado num pesadelo. E como o divórcio de Petter Lindström nunca fora confirmado, o casamento com Rossellini acabara por não ter qualquer valor jurídico... 

(S) Paolo Conte a interpretar "Alle prese con una verde milonga"

(DIM) O Monstro do Dinheiro

A notícia de que Donald Trump acaba de reconhecer Jerusalém como capital de Israel abandonando uma linha de comportamento diplomático até agora respeitado pelas sucessivas Administrações, que o antecederam, apenas confirma como a Casa Branca , o Senado e o Congresso foram tomados de assalto por uma minoria fanática, apostada em puxar a realidade dos milhões de cidadãos para uma perspetiva de extrema-direita com que, na maioria não se identificam. Porque, até mesmo uma boa parte dos eleitores, que garantiram a vitória ao pato-bravo de Queen’s, estão longe de se identificarem com as políticas por ele impostas vendo-se seriamente ameaçados pelos seus efeitos diretos e indiretos.
Um dos motivos de interesse, que nos prenderá a atenção nos próximos anos, será o ricochete das promessas não cumpridas aos milhões de desesperados, que perderam empregos no Midwest e não têm como garantir o sustento da família. Quiseram crer em quem lhes prometia o retorno ao sonho americano e despertam todos os dias para o costumado pesadelo sem fim. Ou aos que acumulam empregos mal pagos e precários, sem conseguirem ganhar o suficiente para conseguirem algo tão próximo quanto possível da ideia de um lar.
O filme de Jodie Foster, estreado seis meses depois da vitória de Trump, tem como um dos protagonistas um pobre diabo, com todas as características de potencial votante naquele poltrão: Kyle Budwell apenas ganhava 15 dólares à hora como estafeta nas ruas de Nova Iorque, valor insuficiente para corresponder às despesas da família, tanto mais que a namorada está grávida de sete meses. Por isso pegou nos sessenta mil dólares recebidos de uma herança e apostou-os todos numa empresa muito elogiada por um apresentador televisivo. Lee Gates - papel desempenhado por George Clooney - é uma espécie de palhaço, que alterna números básicos de music-hall rodeado de coristas com conselhos financeiros. Numa época em que o universo mediático se imbecilizou a noção de ridículo parece definitivamente posta de lado.
Acontece que Kyle ficou na penúria pela fraude empreendida por Walt Camby, o CEO da Isis, empresa de que comprara ações a 75 dólares e as via agora a valerem pouco mais de oito. Por isso consegue entrar no estúdio do programa em direto e ameaçar a vida do apresentador a quem obriga a vestir um colete com explosivos. Daí por diante ocorre uma corrida contra o tempo em que a realizadora Patty Fenn (Julia Roberts) tenta compreender e denunciar o sucedido como forma de salvar a pele de Gates.
Se a narrativa segue quase sempre em consonância com os cânones dos filmes de grande espetáculo, Jodie Foster vai semeando aqui e além alguns pormenores desconcertantes, que nos levam a olhar para a trama como algo mais do que um argumento habilidoso despachado às três pancadas. Que dizer, por exemplo, da cena em que a polícia procura utilizar a namorada de Budwell como elemento dissuasor do seu plano e ela agrava as coisas achincalhando-o em direto para a vasta plateia que, nos vários continentes, acompanha passo a passo o rumo dos acontecimentos. E há eficácia na forma como ela transforma Kyle num personagem simpático a quem o próprio Gates tenta ajudar. Daí que tudo se conjugue para a cena em que Walt Camby é desmascarado na sua trapaça, explicativa da forma como a empresa perdera oitocentos milhões de dólares de um dia para o outro.
Se quisermos ser atentos está aqui explicitada uma revelação elucidativa sobre os atuais contornos do capitalismo desregulado, com os endeusados algoritmos a substituírem-se aos pretéritos e  insondáveis desígnios divinos.
É certo que parecendo muitas vezes encaminhar-se para um grande filme, «Money Monster« nunca consegue desviar-se da mediania. Mas que garante um serão agradável, sem dúvida que sim.

terça-feira, dezembro 05, 2017

(S) A música que Leonard Nimoy compôs para olhar as raparigas espaciais

(EdH) Marie Curie: uma inteligência radiosa

Em 1908, quando já viúva, Marie Curie foi empossada como professora da Sorbonne um jornalista da época comentou: “Na verdade digo-vos que se aproxima a época em que as mulheres tornar-se-ão seres humanos
A frase pode-nos ainda abrir a boca de espanto por quanto comporta de estupidez e de misoginia, mas não foi fácil o percurso de Maria Sklodowska até alcançar o prestígio inerente a ter ganho os Nóbeis da Física e da Química, ter descoberto o rádio e o plutónio e criado aquela que se tornou uma das mais inquietantes palavras do século XX: radioatividade. De facto, ainda na sua Polónia natal, começou a revelar uma singular inteligência ao passar todas as provas escolares com um sucesso inalcançável pelos colegas. Mas os pais terão contribuído para a precocidade com que começou a olhar para tudo á sua volta e encontrar explicação para o que subsistia como obscuro. Władysław Skłodowski  era professor de física e de matemática e a mulher dirigia uma escola de raparigas.
Ao concluir o liceu, Maria e a irmã Bronislawa não conseguiram lugar na universidade de Varsóvia, que só aceitava alunos masculinos. Numa Polónia submetida ao regime dos czares russos o papel social atribuído à mulher restringia-se a casar e a cuidar da família. Daí que as duas irmãs tenham feito um pacto: uma ia estudar para Paris, enquanto a outra asseguraria o seu sustento, depois a que se formasse primeiro pagaria a formação da que começara por se sacrificar. O pacto resultou, e embora Maria tenha sido governanta durante uns anos, quando chegou a Paris estava tão determinada a ser bem sucedida que, ainda como aluna, viu alguns dos professores atribuírem-lhe projetos de investigação.
Será, porém, o encontro com Pierre Curie a lança-la definitivamente num percurso impressionante. Os dois constituíram um típico casal fusional, com ambos a influenciarem-se e a estimularem-se com o objetivo de desvendarem campos até então inimagináveis da matéria.
Porque passaram cento e cinquenta anos sobre o seu nascimento, o Panthéon de Paris tem até março uma exposição sobre a sua personalidade ímpar, de quem Rosa Montero criou uma imprescindível biografia. Para quem queira conhecer a cientista e compreender os muitos desafios que, enquanto mulher, soube vencer, essa é proposta de leitura a ter em conta.

(S) A Polonaise de Chopin interpretada por Valentina Lisitsa

(DIM) Quando Ingrid encontrou Roberto

Esta semana inicia-se na Associação Gandaia da Costa da Caparica o Ciclo dedicado aos grandes mestres do cinema italiano. A iniciá-lo estará «Viagem a Itália» de Roberto Rossellini, rodado quando a sua escandalosa ligação com Ingrid Bergman estava a conhecer tempos difíceis. Mas, porque a realidade do relacionamento do casal ganhava estranhos reflexos na tela, vamos recordar como ambos se tinham conhecido.
Não tivesse David O. Selznick contratado Ingrid Bergman para, nos finais dos anos 30, constituir uma rival da Garbo, comprometida com o estúdio rival, e talvez a atriz sueca não tivesse saído da alçada de Goebbels, que projetava tê-la como uma das vedetas do cinema nazi. Ela interpretou assim a versão norte-americana de «Intermezzo» em 1939, retomando o papel com que se notabilizara na película sueca de Gustaf Molander três anos antes.
Nos dez anos seguintes ela protagonizará filmes de referência - «Dr. Jekyll e Mr. Hyde» (1941), «Casablanca» (1942), «Por quem os sinos dobram» (1943), «Suspeita» (1944), «A Casa Encantada» (1945), «Difamação» (1946) e «Os Amantes de Capricórnio» (1949) - tornando-a uma das atrizes mais conceituadas de Hollywood.
Sentimentalmente, desposara o médico sueco Petter Lindström em 1937, mas não deixara de ter no entretanto muitas relações sentimentais bem conhecidas como as que alimentara com o realizador Victor Fleming ou o fotógrafo Robert Capa.
O escândalo ocorreria, porém, na mediática ligação com Roberto Rossellini, realizador que a maravilhara quando descobrira «Roma Cidade Aberta» num obscuro cinema da Broadway, o World Theater. Ela, que se enfeudara ao cinema convencional de Hollywood, descobrira que a sétima arte poderia ser algo completamente diferente. Depois, ao confirmar o fascínio pela obra do italiano ao ver «Paisá», escreveu-lhe a oferecer-se para rodar o filme que ele entendesse, deslocando-se para o efeito a Itália. Na época Rossellini abandonara a esposa legítima para viver num hotel com Anna Magnani e reivindicava um tipo de cinema apostado em detalhar a verdade dos factos apresentando-os sem artifícios. Estava-se, então, nos primórdios do que ficaria conhecida como a escola neorrealista italiana.
O primeiro encontro entre Rossellini e Bergman ocorreu em Londres, quando ela estava na rodagem de «Os Amantes de Capricórnio» de Alfredo Hitchcock. Nos meses seguintes os reencontros sucedem-se em Paris, em Nova Iorque e na Califórnia. Surgira-lhe, então, uma ideia de argumento, que envolveria uma erupção vulcânica na ilha de Stromboli e a relação amorosa de uma estrangeira com um aldeão dali oriundo e ali regressara vindo do serviço militar.
A rodagem do filme foi um suplício: a equipa viu-se distante do conforto da civilização e no meio de enxames de moscas. A atriz sueca sentiu-se sem rede a atuar para um cineasta, que lhe negou qualquer orientação para o desempenho do papel da sua personagem. Se o planeamento previa, que as filmagens durassem dois meses, elas prolongam-se por outros dois…
Para complicar as coisas Selznick decide produzir um filme concorrente com um tema similar - «Vulcano», realizado por William Dieterle - que teria por protagonista… Anna Magnani.
Durante semanas a fio houve uma feroz competição entre as duas produções para aferir qual delas conseguiria antecipar-se à outra na data da estreia. Mas o acontecimento mais significativo terá a ver com a gravidez em breve declarada em Ingrid Bergman. Para o realizador o filme assinala um triplo renascimento: o da heroína do filme, Karin, o da atriz que a interpreta e ficou de esperanças e o do seu país.
Rendida à Itália, Bergman parecia liberta dos artifícios de Hollywood.

segunda-feira, dezembro 04, 2017

(S) Claude Debussy - Nuages from Nocturnes

Quando se aborda a obra de Claude Debussy costuma-se enfatizar a influência nele exercida pela poesia e pela pintura. O compositor manifestou grande interesse pelos poetas simbolistas e parnasianos, embora o compensasse com idêntica atenção devotada à Escola Realista.
Ao compor os «Noturnos», que estreou em Paris em dezembro de 1900, a influência terá sido um conjunto de quadros impressionistas sobre paisagens noturnas sobre paisagens noturnas da autoria de James Whistler e pintados na década de 70 do século XIX. O primeiro desses «Noturnos» tinha por título «Nuvens» e quem o escuta pode imaginar um céu estático com o lento desfilar dessas formações de gelo e de água. Ora, a água em todos os seus estados, sempre foi um dos motivos de atenção do compositor, que aqui a torna protagonista de alguns solos de corne inglês sempre com a mesma melodia. 

sábado, dezembro 02, 2017

(DIM) O Sacrifício de um Peão

Em Portugal deram-lhe o título de «O Prodigio», mas prefiro bem mais o inglês que faz de Bobby Fischer um peão a sacrificar em nome da Guerra Fria, que a América de Nixon  executava contra a União Soviética, valendo tudo, incluindo uma partida de xadrez, para conseguir sobrepor-se a quem a humilhara com o lançamento do primeiro voo espacial tripulado e com a progressiva influência geoestratégica nos países do Terceiro Mundo.
Estando por essa altura a prenunciar-se outra derrota vergonhosa nos teatros de guerra da Indochina, a Casa Branca precisava que Bobby Fischer derrotasse Boris Spassky e o mundo todo o soubesse. Que interessava que Fischer fosse um doido antissemita (apesar de ser judeu!) e ferozmente anticomunista (apesar da mãe ser russa e ter simpatias suspeitas para os macartistas tardios!)? Desde miúdo se lhe detetavam sintomas paranoicos, que a idade agravaria.
Não deixa de ser notável a capacidade para memorizar milhares de partidas de xadrez e utilizar-lhes os movimentos mais eficientes para se traduzirem em jogadas nas circunstâncias específicas de cada partida.
No filme realizado por Edward Zwick o maior desafio é não tornar tão entediantes as repetitivas cenas de dois xadrezistas colocados face a face e a mexerem as pedras do tabuleiro, olhando-se de forma mais ou menos reveladora dos seus estados de alma. Mas, convenhamos que esse objetivo equivaleria a desafio impossível de vencer: mesmo um conhecedor dos movimentos das peças não pode escamotear o bocejo de se ver em algo de tão enfadonho.
A ideia de dar relevância ao advogado que lhe faz assessoria por razões ideológicas e do padre com quem reina as jogadas e lhe prevê o desenlace à luz do sucedido com outro famoso xadrezista do século XIX, resulta em parte, mas sobram possibilidades não aproveitadas nas brevíssimas sugestões, mormente no relacionamento com as mulheres da sua vida (a mãe, a irmã e a prostituta com que terá perdido a virgindade).
Zwick releva, sobretudo, o embate histórico de 1972, quando eu próprio, com então dezasseis anos, passei as semanas anteriores e logo subsequentes ao meu aniversário a seguir os que se ia passando em Reiquiavique fazendo figas para que Spassky ganhasse. A sua derrota constituiu uma das minhas frustrações desse distante verão. Mas, como temia Lombardy, o padre católico, o problema para Fischer não era o medo de perder, mas o que sucederia quando ganhasse. E os acontecimentos futuros viriam a confirmá-lo: cada vez mais enclausurado no seu alucinado universo, Fischer viveria como um pária e só não morreria em tão drástica condição porque os islandeses dele se apiedaram e o recolheram nos últimos dois anos de vida.
O filme evoca uma personalidade, que o poder norte-americano cuidou como costuma fazer: mimando-o enquanto servia os objetivos do seu modo imperialista de se afirmar e, depois, diabolizando-o quando para tal já não serviria...

(EdH) O nosso berço africano

Os mais antigos vestígios do Homo sapiens foram descobertos na África Oriental, muito embora estudos mais recentes apontem para o seu surgimento simultâneo em diversas regiões do continente. Ademais os nossos antepassados continuaram a misturar-se com outras subespécies hominídeas amplificando a nossa diversidade genética.

Há duzentos mil anos uma nova espécie surgia na superfície do planeta: o homo sapiens, ou seja  o homem moderno, que já chega a 7 mil milhões atualmente.
O berço dessa civilização aconteceu em África, no seio de outros homens arcaicos, que se julgava não terem tido qualquer influência com essoutro então surgido, mas que descobertas recentes demonstram ter sucedido precisamente o contrário: que a Humanidade nasceu muito antes do que se julgava, resultado de uma hibridação que respeitou os princípios definidos por Darwin, revelando-nos diferentes do que julgávamos ter sido.
Há cento e noventa e cinco mil anos na Africa Oriental surgiu o chamado Homem 1, um caçador com o mesmo tipo de corpo e de cérebro, que o nosso. Morreria com menos de trinta anos, mas a sua existência chegou-nos sob a forma de ossadas, que serviram para estudar quem foi e quais eram as suas características morfológicas.
Se hoje o vale do Omo é quase inóspito, naquela época era pantanoso e constituía habitat ideal para o caçador pré-histórico.
Em 1967 uma expedição internacional deslocou-se ao sul da Etiópia para procurar fósseis humanos., encontrando vestígios de três homens da mais recôndita Antiguidade. O esqueleto mais completo foi chamado o Homem 1, mas ainda não existiam técnicas suficientemente avançadas para dele se obterem os segredos, que conservava. Como a datação por carbono 14 só é viável para os mais recentes 50 mil anos era inconcebível conseguir uma resposta rigorosa para a questão de se saber quando tinha surgido o primeiro homem moderno.
Foi a datação do árgon nos sedimentos onde esse esqueleto aparecera, que permitiu chegar ao cálculo de 195 mil anos. A nossa árvore genealógica remonta, porém, a mais de 2,5 milhões de anos, mas durante grande parte desse longo período assemelhámo-nos mais a macacos do que a seres humanos. Foram assim definidas muitas espécies diferentes para designar tais hominídeos: homo habilis, homo ergaster, homo heidelbergensis, homo rhodesiensis entre muitos outros.
O Homem 1 tinha a mesma altura que um africano de hoje e pesava 70 quilos, dedicando-se à caça de porcos selvagens e de antílopes com armas talhadas em pedra na forma de pontas. Provavelmente terá morrido ali, onde o seu esqueleto foi encontrado, depois de abandonado pela tribo, quando esta se terá apercebido nada estar ao seu alcance para lhe aliviar os últimos momentos de vida. Essa população sobrevivia, porque era capaz de refletir e fazer projetos como sucede connosco.
Esse achado arqueológico tende a comprovar que foi ali o berço da civilização humana, o nosso Jardim do Éden. Dali ter-se-ia disseminado em todas as direções por todo o planeta. Nos anos 80 os geneticistas terão confirmado essa tese através das mitocôndrias no ADN das populações das mais variadas latitudes, todas elas remetendo para esse Adão africano. Fatores diferenciadores como os da cor da pele ou dos olhos só viriam a revelar-se posteriormente.
Investigações recentes tendem, porém, a complexificar a questão desmentindo que ela seja assim tão definitiva. No Instituto Max Planck, em Berlim, estudos num hominídeo datado de há trezentos mil anos, e cujas ossadas foram descobertas em Marrocos, mostra um fácies moderno, mas com um cérebro primitivo. Torna-se assim pertinente a possibilidade de não ter havido apenas um local onde tenha surgido o homem moderno, mas diversos, todos concorrendo para a evolução, que se verificaria depois.
No Vale do Rift deveria haver um contacto permanente, e sem que se traduzisse obrigatoriamente em relacionamento hostil, entre diversos tipos de hominídeos, uns mais avançados do que outros na evolução para as características humanas. As ideias deveriam circular e, com elas, os próprios genes, até resultarem no que passámos a chamar como Homens Modernos. Segundo essa tese nós somos o resultado da mistura de diversas espécies de hominídeos espalhados por toda a África. As origens podem remontar a épocas muito mais recuadas do que imagináramos. E, de facto, investigações efetuadas em Houston com amostras de ADN, consegue fazer remontar os antepassados de alguns indivíduos atuais a hominídeos de há mais de 338 mil anos na África Ocidental. O que conduz à teoria de o homo sapiens ter continuado a miscigenar-se com outras populações arcaicas, que também transmitiram os cromossomas aos sucessores. Os atuais Pigmeus dos Camarões parecem ter no seu ADN mais cromossomas de populações arcaicas do que se encontram na maioria dos que hoje vivem no planeta.
Há cem mil anos, quando essa hibridação se tinha consumado significativamente, o homo sapiens partiu de África para chegar á Ásia Menor. Mas antes dele, já populações arcaicas tinham tomado a mesma direção, chegando à Ásia e à Europa há mais de um milhão de anos, e evoluindo para formar espécies diferentes, a mais famosa das quais foi designada como o Homem de Neanderthal com muito de bestial e de simiesco, ou seja de inferior. Mas estudos recentes reabilitaram-no mostrando que, pelo menos, ele é nosso primo quanto às capacidades de que dava mostras para sobreviver.
No Instituto Max Planck os cientistas concluíram nada haver no ADN do homem de Neanderthal, que tivesse a devida correspondência com as populações africanas, mas no caso das europeias ela é mais do que evidente, o que faz todo o sentido porque essa espécie terá existido sobretudo no nosso continente  e terá sido no Próximo Oriente, que se misturou com o homo sapiens. Isso mesmo se se comprova no encontro de ossadas das duas espécies no mesmo local arqueológico na Alta Galileia, uma gruta considerada um dos espaços mais prometedores para continuar a ser explorado pelos cientistas. Porque o que nela se achou já permitiu concluir que, indo do sul para norte, tribos de homo sapiens, ter-se-ão cruzado com neandertais, então a escaparem de uma época de penúria na Europa, tendo uns e outros convivido durante pelo menos dez mil anos.