Há umas semanas atrás, quando «Bella e Perduta» passara no Festival de Locarno, já aqui o abordara como um dos projetos cinematográficos mais interessantes de 2015.
Agora, vamos ter oportunidade de o comprovar, já que é com ele, que abre o Doc Lisboa deste ano.
Estreando-se a 22 de outubro no Grande Auditório da Culturgest e repetindo dois dias depois no Ideal Paraíso, veremos como Pietro Marcello se começou por entusiasmar com o esforço do pastor Tommaso Cestrone que, com o seu esforço solitário, procurou salvar das ruínas o Palácio Real de Carditello.
Se esse tema em si já seria interessante pela demonstração do quase total alheamento dos italianos em relação ao seu passado, o filme ganhou nova dimensão com a morte inesperada do protagonista na noite de Natal.
Marcello reorientou, então, o seu projeto para um misto de documentário e de ficção em que faz surgir Polichinelo das entranhas do Vesúvio a fim de salvar o búfalo Sarchiapone da ameaça do matadouro. Teria sido o próprio Tommaso no Além, a pedir-lhe esse favor pelo muito afeto que sentira pelo animal, que adotara e fora seu companheiro. O filme constrói-se então com a fuga dos dois servos, o homem e o animal, pelas paisagens lindíssimas da Campania, onde descobrem uma realidade com que não contavam.
Há assim um esforço quixotesco para contrariar essa realidade economicista onde só contam os investimentos e os seus retornos.
Nos últimos anos tenho lido romances policiais de autores nórdicos. Na sequência dos sucessos de Stieg Larsson, e sobretudo do fascínio em mim causado pelos romances do recém-desaparecido Henning Mankel, tenho regressado a paisagens, que tive o privilégio de conhecer durante os anos de navegação pelos portos noruegueses, suecos e islandeses.
Foi um tempo de deslumbramento, porque essas viagens aconteciam sempre no verão, quando os dias quase reduziam as noites a períodos muito curtos, sobretudo ao aproximarmo-nos das latitudes mais boreais, quando era paradoxal ser fotografado no convés superior com um copo de vodka orange na mão, o sol no horizonte e os relógios a marcarem as duas da madrugada.
As imagens então retidas do rasto do paquete nas águas dos fiordes, enquanto imperava a verdura crepuscular à nossa volta, são imorredoiras na minha memória.
No entanto, o romance de Mons Kallentoft remete para outra realidade bem diferente, apesar de radicadas nas mesmas paisagens: as do inverno mais agreste.
Quando «Sangue Vermelho em Campo de Neve» se inicia está a viver-se um dos invernos mais frios de que há memória, com temperaturas da ordem dos -40ºC. É, então, que é descoberto o cadáver de um homem completamente nu, pendurado num castanheiro. Desfigurado, apunhalado e abandonado, está suspenso de uma corda no meio de nenhures.
A brigada policial encarregada da investigação integra Malin Fors e Zackarias Martinsson, conhecido por Zeke. A primeira preocupação, que lhes assiste é identificar a vítima:quando se consegue reconstituir o rosto do morto, ele é reconhecido como sendo Bengt Andersson, um marginal que adorava assistir aos jogos de futebol da equipa local, servindo-lhe de apanha-bolas.
Vivia sozinho sem que ninguém por ele se interessasse. Mas um velho dá algumas indicações elucidativas a seu respeito: a mãe morrera de cancro e o pai era um homem violento, que agredia frequentemente a mulher e os filhos.
Um dia, não o podendo suportar mais, Bengt acertara com o machado numa orelha do pai, que se pusera em fuga. A irmã mudara, então, de nome - passara a chamar-se Rebecka Stenlundh - e arranjara emprego no supermercado.
Os polícias orientam as suas investigações para uma seita liderada por Richard Skoglof, que pratica sacrifícios com animais, mas não encontram razões para duvidar dos alibis com que são confrontados.
No entretanto vamos conhecendo as particularidades da vida pessoal de Malin, que está a contas com a adolescência da filha e com as suas próprias carências de mãe solteira. E também as idiossincrasias de uma região onde a meteorologia exerce uma influência determinante nas atitudes de quem ali habita. As pessoas fecham-se em casa e não parecem importar-se com quem mora a seu lado. Sobrevivem os que formam clãs, porque os solitários estão condenados à morte. Não se trata, assim, de um retrato muito favorável de um país tão elogiado pelas suas preocupações sociais.
Mons Kallentoft revela-se extremamente talentoso logo neste primeiro de oito romances, que já dedicou à sua personagem Malin Fors. Ela é cativante e o ritmo da ação é movimentado, recorrendo a frases, parágrafos e capítulos curtos.
Continuo a preferir os romances de Menkell com o inspetor Wallander, mas não enjeito a oportunidade de ler outros com esta Malin Fors. Até porque, se este é passado no Inverno, os outros ocorrem nas outras estações do ano.
Há muitos anos, que não revisitava «À Espera de Godot», a peça escrita por Samuel Beckett em 1952 e estreada em palco no ano seguinte com a encenação de Roger Blin.
Muito embora tivesse bem presente a história e os seus personagens - sobretudo esses dois vagabundos, Vladimir e Estragon, que passam toda a peça à espera desse tal Godot, - ela permite sempre leituras diferentes segundo o tipo de conjuntura em que a vemos.
Foram muitos os que, no passado, arriscaram uma explicação para esse Godot por quem viria a salvação para os entediados protagonistas. Houve quem dissesse ser Deus, mas Luís Vicente, o encenador desta versão produzida pela Companhia de Teatro do Algarve (Acta) - e apresentada na Sala Principal do Teatro Municipal Joaquim Benite em Almada - conota-o com o dinheiro e vê-o à luz da crise financeira traduzida na falência do Lehman Brotheres e tudo quanto se lhe seguiu.
A sua visão da peça é bastante pessimista, porque descrê da hipótese de uma qualquer alternativa à queda abrupta, e sem rede, de um sistema capitalista cada vez mais violento com quem se lhe oponha, em contraponto à perceção de estar à deriva na direção de um incontornável precipício.
A representação excelente de Pedro Laginha, Luís Vicente e, sobretudo, de Pedro Lima - que nos surpreende em alguns momentos com uma mímica clownesca! - conjuga-se com a coreografia minimalista como quase sempre se torna obrigatória para esta demonstração do Teatro do Absurdo.
De acordo com o que estamos a viver, fui vendo a peça a ajustá-la a uma outra possibilidade interpretativa: a de Godot ser o direito de qualquer pessoa à felicidade, normalmente traduzível numa ânsia revolucionária.
Nesse sentido, embora completamente diferente da proposta beckettiana, recordei «Quarentena», o maravilhoso espetáculo com que O Bando celebrou o seu 40º aniversário no ano passado e que constitui, até ver, a melhor proposta teatral, que vi nas minhas quase seis décadas de vida. No seu quadro final, quando se juntavam as dezenas de atores e músicos, questionava-se se a Revolução seria para hoje ou para amanhã. E, desiludidos com a possibilidade de ela ser para já transferíamos todas as nossas expetativas para o amanhã.
Em «À Espera de Godot» passa-se algo de semelhante: bem podem Vladimir e Estragon esperá-lo, dia após dia, que fica sempre a promessa dele aparecer no dia seguinte.
Por isso, ver a peça nesta semana subsequente às eleições legislativas em que, mais uma vez, não vimos a esquerda ter a vitória indiscutível correspondente a tudo quanto passámos nos últimos quatro anos, põe-nos, de certa forma, na mesma posição dos dois protagonistas: se não foi hoje, será que esse almejado Godot aparecerá amanhã?
Aumentaremos, decerto, a possibilidade disso acontecer se, em vez de ficarmos à espera, investirmos militantemente nessa urgente mudança. Mais do que ficarmos à espera de Godot, temos de ir, nós mesmos, à sua procura.
Se olharmos para a realidade francesa de forma mais aligeirada podemos inquietar-nos com os impasses da esquerda e da direita, enquanto crescem os apoios populares a marine le pen. Mas, se tivermos em conta os livros, que vão aparecendo nas livrarias e espelham o pensamento da sua intelectualidade, vai fazendo o seu caminho uma crescente denúncia das piores práticas do capitalismo.
Valerá, pois, a pena dar uma olhadela ao que neles se vão revelando.
Michel Pinçon e Monique Pinçon-Charlot são os sociólogos que assinam «Tentative d’évasion (fiscale)» (ed. Zones/ La Découverte), onde denunciam a vigarice monumental atualmente em curso pela classe dominante, através da fraude que tudo corrompe.
Nos últimos vinte anos a evasão fiscal tornou-se cada vez mais eficaz na sua opacidade, através de mecanismos complexos em sociedades offshore, capazes de esconderem a identidade dos proprietários de rendimentos e apagar a ligação entre eles.
Na Suíça de hoje, quando um milionário quer abrir uma conta num dos seus bancos as reuniões para a concretizar são numerosas e prolongadas de forma a melhor libertar os clientes dos seus constrangimentos fiscais nos países de origem. Mas, porque se sabem sob o escrutínio de uma comunicação social cada vez mais atenta às suas práticas, esses mesmos bancos adotam maiores precauções, filtrando os novos clientes de forma a não porem em causa essa tal fraude, que querem perenizar.
Por seu lado, Jonas Lüscher , o autor de «Le Printemps des Barbares» (ed. Autrement), acredita que os bárbaros do título são os corretores britânicos da City, cujo vencimento obsceno permite comprar tudo, menos carácter.
O romance tem por protagonista um desses corretores, que preparou uma luxuosa festa para celebrar o seu casamento na Tunísia, fazendo-se acompanhar de umas largas dezenas de convidados, que incluem os familiares dos noivos e os seus colegas da City.
Durante uns dias todos esses personagens usufruem as belas paisagens do deserto enquanto bebem Dom Pérignon.
Existe, igualmente, um outro personagem importante, o suíço Prixxing, que acabou de vender a sua parcela na empresa familiar a um ambicioso ex-jugoslavo, e também decidiu viajar para a Tunísia para descansar… e começar a olhar concupiscentemente para a mãe do noivo, a quem o esposo pouco liga.
De repente as notícias vindas de Londres começam a inquietar e tornam-se ainda mais paradoxais no dia seguinte à boda, quando a maioria ainda estava a recuperar do coma etílico em que caíra: a Inglaterra entrou em bancarrota e a libra esterlina passou a nada valer.
A consequência imediata é a impossibilidade de todos os convidados recorrerem ao cartão de crédito: se na véspera tinham meios para comprar o palácio onde está instalado o hotel de cinco estrelas, agora nem sequer conseguem pagar uma garrafa de água mineral do minibar.
É uma autêntica tragédia a que se abate sobre toda aquela gente: a exemplo do antigo povo judeu, formam uma caravana pelo deserto adentro, formando uma fila de sombras vacilantes num cenário cada vez mais inóspito.
Afinal os britânicos conseguiram superar os gregos na dimensão da sua bancarrota. E Jonas Luscher, numa entrevista, até nem considera tal hipótese como improvável: “não aprendemos as lições da última crise económica de 2007 de que a tragédia grega é uma óbvia consequência.
Houve algum esforço para regular melhor os fluxos financeiros, mas o sistema não chegou a ser reestruturado. As agências de notação financeira continuam a deter um poder injustificado.
E quanto aos fundos de investimento nenhum controle foi imposto. A taxa europeia para as transações financeiras, que poderia limitar os fluxos incessantes, não saíram do papel e a maioria dos bancos estão envolvidos em escândalos por praticas fraudulentas.
Veja-se o que se acaba de passar no Reino Unido: o governo conservador acaba de despedir o patrão da Comissão Reguladora e diminuiu as taxas no setor financeiro.”.
O livro de Lüscher é bem humorado e subtil na forma como mostra a transformação dos jovens lobos da City em bárbaros sem fé nem lei, capazes de vandalizar frigoríficos para se apossarem da comida, que já não podem comprar, ou de esventrarem os próprios camelos em que se fazem transportar, quando a fome os aperta. No fim até causam um enorme incêndio no palmeiral do oásis onde se tinham acoitado.
É essa a forma como Lüscher anuncia que o pior está por vir: “O próximo desastre financeiro não estará muito distante. E nós não nos preparámos para ele!”
De entre os cineastas iranianos Asghar Farhadi é dos que mais me tem interessado pela forma como, inteligentemente, tem abordado aspetos eloquentes da sociedade governada pelos aiatolas sem lhes suscitar a reação violenta que Panahi tem sentido. É, de facto, necessária muita inteligência para manter uma atividade regular de cineasta sem se sujeitar a panegíricos de quem a superintende.
«A Festa do Fogo» é um dos seus títulos menos conhecidos, já que foi realizado em 2006, quando ainda era um desconhecido no circuito europeu dos festivais.
O filme começa precisamente com essa festa anunciada no título e consagrada à chegada do ano novo. É nesse mesmo dia que Rouhi, uma jovem noiva, vai conhecer uma família, até então desconhecida, para lhe servir de empregada doméstica.
Vai deparar com um apartamento caótico, o pavimento coberto de vidros partidos e o casal em plena crise conjugal: Modjeh, a esposa, suspeita do adultério do marido com a vizinha cabeleireira. Ora Rouhi vai a casa dessa mulher para depilar as sobrancelhas, descobrindo o quanto ela é simpática e carinhosa.
Temos, pois, o clássico triângulo amoroso, mas com a nossa condição de voyeurs filtrada pelo olhar de Rouhi, que irá constatar um tipo de relações com que não estava nada identificada...
Um dos grandes objetivos, com que me comprometi ao chegar à reforma, foi ler tudo quanto deixara de lado como não prioritário nos quase quarenta anos de vida profissional. Os desafios de maior fôlego, mormente os oito volumes do Proust ou o Ulisses do Joyce, foram programados para quando chegar à condição de sexagenário, mas avancei no imediato para autores de que muito ouvira falar, mas de quem nada lera até agora.
Manuel Puig foi um desses casos. Ele estivera em foco, quando o filme «O Beijo da Mulher Aranha» esteve em evidência, mas aqui e acolá fui colhendo referências sobre este argentino nascido em General Villegas em 1932 e desaparecido 58 anos depois na Cidade do México, quando uma operação à vesícula biliar deu para o torto.
«Boquitas Pintadas», o romance que dele agora li, é passado, precisamente em General Villegas e remete para os estereótipos da cultura ligada ao tango. Ou seja, com marialvas sempre prontos para conquistas donjuanescas e mulheres a competirem por eles, sem ponta de escrúpulo.
Quando o escreveu, em 1970, Puig quis obedecer à técnica dos folhetins radiofónicos, complementando-a com uma pitada de humor. Para trás deixara a ambição de tornar-se argumentista no cinema norte-americano, porquanto «A Traição de Rita Hayworth», que criara em 1962, nunca chegou à tela como almejara, levando-o a reciclar-se definitivamente na condição de escritor. E, no entanto, entre 1955 e 1961, estivera em Roma a estudar com o grande Cesare Zavattini, conhecendo De Sica, René Clément ou Stanley Donen.
O sucesso fílmico de «O Beijo da Mulher Aranha», já chegou demasiado tarde para que ele ousasse infletir a orientação criativa decidida na década anterior.
«Boquitas Pintadas» inicia-se com a correspondência epistolar entre Nelida Massa - que vive em Buenos Aires com o marido e os filhos ainda pequenos -, e D. Leonor, a mãe daquele que sempre amou, Juan Carlos Etchepare, morto aos 29 anos em prolongado sofrimento causado pela tuberculose.
Trata-se de uma cumplicidade clandestina, já que Celina, a irmã do falecido, odeia-a por a culpar da doença do irmão, que passava noites ao frio a esperá-la para os encontros amorosos. Algo que Nelida refuta, porquanto Juan Carlos ia namorando, em simultâneo, outras rivais, desde a viúva Di Carlo à detestada Mabel.
Pelo meio vamos acompanhando outros amores clandestinos, e que acabam em tragédia, como é o caso do de Pancho, amigo de Juan Carlos, que engravida a ingénua Antónia e por ela é assassinado anos depois, quando, uma noite, ela o vê a saltar da janela do quarto da filha dos patrões. Que não é mais do que a referida Mabel.
Mas as surpresas estarão longe de se ficarem por aí, porque descobrimos que a correspondência entre Nelida e a mãe de Juan Carlos era falsa, pois tratava-se de Celina, quem se fazia passar pela própria mãe. O objetivo era obter confissões escritas da detestada Nelida, capazes de a comprometerem junto do esposo.
Muitos anos depois, constatamos que a crise no casal Massa terá durado pouco tempo e tudo acabara num final relativamente feliz. Algo que, igualmente, terá acontecido com Antónia, realizada na sua segunda ligação amorosa.
No final do livro as mulheres não conseguiram alcançar os patamares de felicidade, que teriam desejado, mas acomodam-se à possível. Quanto aos homens, o seu egoísmo terá acabado em mortes prematuras. E isto é tango!!!
Nota final - deixo aqui como proposta complementar o filme que Leopoldo Torre Nilsson rodou em 1974 com base no romance de Manuel Puig.
Uma sobrevivente de Auschwitz disse uma vez que temia as pessoas pelo que eram capazes de demonstrar em bondade, mas sobretudo em crueldade.
Provavelmente já quase tudo foi dito sobre o Holocausto, mas mesmo julgando que já sabemos tudo quanto significou, vale sempre a pena regressar aos seus aspetos hediondos para que se continue a barrar a possibilidade de, por esquecimento ou indiferença, os ver-mos repetidos.
A forma como os nazis utilizaram seres humanos para servirem de cobaias nas suas experiências na área da medicina sempre foi secundarizada por faltarem os testemunhos das suas vítimas, quase todas mortas, e dos culpados sempre dispostos a escamotearem a sua participação em tais crimes. E, no entanto, essas experiências constituíram o culminar dos horrores praticados em Auschwitz: operações quase sempre sem anestesia, mutilações e indução voluntária de infeções vitimaram milhares de pessoas, cujos sofrimentos prolongavam-se durante várias semanas.
Hoje sabemos que Mengele e os seus cúmplices eram capazes das ignomínias mais inimagináveis, pelo que revelaram alguns médicos judeus obrigados a servirem-lhes de “assistentes”.
Nunca a Ciência se revelou tão cruel na forma como intentou chegar a conclusões, que nunca deveriam ter sido obtidas por tais métodos…
“Tudo quanto hoje conhecemos da civilização humana, dos seus produtos artísticos, da ciência e da técnica, é quase exclusivamente resultante da atividade criadora dos povos arianos. Isso permite concluir que eles foram os únicos fundadores de uma Humanidade superior e, por isso, representam verdadeiramente o que entendemos como Homens», eis o que Adolf Hitler escreveu entre 1925 e 1926 no seu sinistro «Mein Kampf». “O ariano é o Prometeu da Humanidade. Cabe ao mais forte dominar em vez de se fundir com o mais fraco, de forma a não sacrificar assim a sua grandeza.
A História estabelece com a maior das evidências que, quando os povos civilizados misturaram o seu sangue com o de povos inferiores, o resultado dessa mestiçagem foi a sua ruína.
Não devemos esquecer que o principal objetivo da existência humana não é a conservação de um estado, mas a conservação da sua raça.”
Quando, em 1933, Adolf Hitler foi empossado como chanceler da Alemanha o «Mein Kampf» tornou-se no texto programático para o horizonte político a alcançar pelo III Reich. As considerações racistas nele contidas traduziram-se em imediatas medidas concretas a implementar obcessivamente em todos os escalões do Estado.
Os intelectuais, os cientistas e, particularmente, o corpo médico foram arregimentados para a implementação acelerada das conceções raciais nazis.
Os médicos foram incumbidos de trabalhar no sentido da purificação racial. Por isso a partir de 1937 iniciou-se um programa de esterilização das crianças mestiças, seguida, nos dois anos seguintes, do assassínio em massa dos doentes mentais.
Mais tarde esses mesmos médicos não hesitaram em fazer dos presos dos diversos campos de concentração as suas cobaias. Para experiências médicas com objetivos militares…
Nessa política de desumanização foi em Auschwitz que se atingiu o paroxismo desta tenebrosa realidade.
Há muito tempo que manifesto, sem qualquer contenção, o entusiasmo pela leitura de policiais. Não propriamente os da autoria de Agatha Christie, que se limitam a engenhosos desafios intelectuais para identificar quem são os culpados antes deles se desmascararem, mas, sobretudo, os que tinham subjacente uma intenção de denúncia política. Por isso mesmo, durante anos, os meus autores de referência foram Dashiell Hammett, Raymond Chandler e mais alguns (Ross McDonald, por exemplo) dos seus contemporâneos, que acabaram por ter chatices com a malfadada comissão do senador McCarhy.
Nos anos 90 descobri os romances de Henning Mankell e, se não chegaram a constituir uma epifania, tornaram-se meus companheiros obrigatórios, sobretudo durante as viagens de mar então efetuadas por todos os oceanos.
Acompanhando o inspetor Wallander por diversos romances pude conhecer as suas idiossincrasias, muito bem interpretadas por Kenneth Branagh, quando as assumiu para a série fabulosa de produção inglesa.
Mas, depois de acompanhar-lhe os amores frustrados, as preocupações paternas e filiais e o envelhecimento com o Alzheimer à porta, já sabia que não poderia contar com mais do que os nove romances dedicados ao personagem. A compensação veio sob a forma da apresentação de uma nova série de romances, tendo por protagonista Linda Wallander, a filha de Kurt, e sua sucessora na esquadra da pequena cidade onde crescera.
O problema foi que a televisão sueca logo produziu uma série alusiva a essa nova personagem e a atriz dela incumbida suicidou-se após longo período de depressão subsequente ao trauma com o tsunami tailandês.
Mankell decidira, então, abandonar o projeto. Mas já se lhe anunciava o cancro, agora fatal.
Em poucos meses já é o segundo autor, que muito admiro, a ser levado pela terrível doença. Ainda mal estavam encerrados os elogios fúnebres a Oliver Sacks e já outros se preparam para o autor sueco, que sempre se dividiu entre a sua terra natal e Moçambique, onde dirigia uma companhia de teatro...
São dezanove horas e está a iniciar-se o primeiro espetáculo do ciclo de Músicas do Mundo desta temporada da Gulbenkian. Pena que o programador tenha feito coincidir esta oportunidade de rever Ariana Savall com o dia das eleições, quando as nossas prioridades são outras.
Ela e Petter Udland Johansen fundaram o grupo Hirundo Maris, que tem por objetivo cruzar a tradição musical mediterrânica com a nórdica dos tempos medievais. Uma proposta aliciante no sentido musical!
Há um par de semanas indaguei a pessoa amiga sobre que livros teria de ensinar aos alunos do 10º e 11º ano enquanto professora de Português. Para minha surpresa debitou-me a canónica trindade dos Lusíadas, dos Maias e de Fernando Pessoa.
- Então, e autores contemporâneos?
Nenhum, afiançou-me. Nem sequer um Saramago, plenamente justificado pelo Nobel recebido e com títulos capazes de entusiasmarem os mais renitentes leitores!
O episódio serviu para dar ainda maior substância ao tipo de ensino imposto pelo sinistro crato. Porque o quis reduzido a uma catadupa destinadas a encher as cachimónias dos petizes e dos adolescentes, depois sujeitos aos imperiosos exames, o antigo crítico do «eduquês» quis retirar aos jovens deste país as capacidades para refletirem e questionarem, não vão eles armarem-se em jovens rebeldes com causas.
Em vez de lhes criar condições para aprenderem a ver, a ouvir e a ler, crato quis transformá-los em robôs capazes de memorizarem definições e fórmulas sem compreenderem para que lhes servirão elas.
Se o ensino deveria propiciar o gosto pela leitura, nunca o conseguirá com Camões, com Eça ou com poemas do tipo «A Tabacaria» (que, em adultos, poderemos apreciar na sua devida complexidade, mas são inacessíveis a jovens imaturos).
No tempo dos governos de José Sócrates o Plano Nacional de Leitura tinha objetivos ambiciosos e bem claros, quanto aos objetivos a alcançar com os títulos propostos para os diversos escalões etários, incluindo os adultos das Novas Oportunidades. Um esforço, que a equipa de crato tratou de assassinar em simultâneo com tantas outras boas iniciativas outrora planeadas no Ministério da Educação.
Esperemos que o novo Governo, saído das eleições de hoje, seja capaz de pôr um ponto final a tanta incompetência e relance os objetivos anteriormente almejados por Maria de Lurdes Rodrigues e Isabel Alçada.
Nesse sentido, o recentemente publicado «As Noivas do Sultão» de Raquel Ochoa constitui um exemplo paradigmático de uma leitura ideal para os jovens alunos daquela amiga professora. Porque está muito bem escrito, porque tem uma história palpitante sobre o que se passará de estranho no harém do príncipe marroquino chegado ao Tejo em dois barcos e, sobretudo, por ensinar imenso sobre os usos e costumes do Portugal dos finais do século XVIII, quando reinava a beatífica Viradeira.
Não tenho qualquer dúvida em como poucos leitores se sentirão distanciados de uma intriga, que abarca o tema do traduttore/traditore e o sempiterno voyeurismo luso sobre tudo quanto possa pressupor algo de libertino a passar-lhe ao largo.
Com romances desta qualidade, ganhar-se-iam pela certa os leitores, que tanta falta fazem para viabilizar uma das atividades criativas onde a probabilidade de retorno é das mais interessantes. Porque, quantos euros podem significar anualmente os direitos pelas traduções de literatura portuguesa um pouco por todo o mundo?
Para abrir o apetite aqui fica um extrato com as duas páginas com que se conclui o excelente romance, que aqui elogio sem reservas:
No dia seguinte, sexta-feira, 9 de Agosto, pelas três da tarde, quando a maré começava a apontar, fez a nau Medusa sinal com um tiro de peça da sua artilharia para que os demais navios se fizessem à vela. Esta foi a primeira a largar o pano, brilhando ao sol do Tejo, e logo o navio onde iam as princesas, depois o outro; e por último aquele em que seguia o arrais.
Frei João via os barcos deslocarem-se com uma confiança nova, comandados por homens do mar experientes, conhecedores daquela rota, daquelas naus.
As mãos tremiam-lhe um pouco. Pensou em Manuel do Cenáculo partindo também e em como precisava de uma longa e paciente confissão. Não compreendia o reino onde vivia, mas também não encontrava razão plausível para o abandonar. Havia qualquer sentimento profundo nesta terra, uma inércia que o engodava e abafava, limitando horizontes. Portugal tinha um ritmo muito próprio, manias muito próprias, como se a velocidade de acontecimentos de qualquer outro lugar que ele conhecesse andasse a uma constância supersónica se comparada com este reino. Ali, tudo era pensado, refletido, interiorizado. Guardado à sombra, para não apodrecer rapidamente - não se transformar.
Um ninho confortável e alegre que nunca deixava os seus filhos voar. E os que tinham voado, saíam asfixiados, doidos de raiva perversa, pois a raiva à própria mãe é antinatural, dói.
Nesse aspeto, podia afirmar, convictamente, que era puro-português: quem lhe dera nunca ter de sair dali. Quem lhe dera nunca ali ter vindo parar.
Do outro lado, as princesas colavam-se às escotilhas. Olhavam para Lisboa afastando-se. Sentiam-se afastar também de um certo aconchego. A cidade sorria-lhes calada. Calava também uns poucos devaneios que por aquela terra foram possíveis. Não existe tal coisa como um conjunto homogéneo de mulheres. Havia afinal quem tivesse o prazer de morrer em Portugal.
Olhavam a boca do rio e viam o grande mar, embora o rio fosse ameaçadoramente largo, o mesmo desamparo que a água dá, existia a montante e a jusante. A largueza da foz convidava com igual intensidade a sair ou a ficar.
A corrente empurrava o barco, indicando o caminho, educadamente expulsando.
Simbólica e cerimonialmente, ao passar pela Torre de Belém, do poético edifício coberto de fortes símbolos estourou uma salva de vinte e um tiros saudando as princesas. A bateria nova e a Torre de São Julião deram-lhes salvas iguais.
A rainha dormitava. O rei espreitava a janela, satisfeito. Mal podia imaginar que dali a alguns anos também ele se encontraria numa situação semelhante, bem mais séria, em fuga para o Brasil.
Edgardo desaparecera, não dera notícias durante dias. Quando voltou, pediu uma pequena terra num monte alcantilado de Sintra, e com a conivência do seu amo, sem ninguém saber porquê, isolou-se.
Lisboa, por seu turno, demoraria poucos anos a esquecer este episódio. Seriam de esperar narrativas empoladas, grandes relatos e romances, mas os anos que se seguiram sepultaram a história nas teias da biblioteca da Academia. Pudera! Em breve, de França marchava Napoleão, e com ele as conquistas, as alianças, as derrotas, a guerra e o povo solitário lutando contra todas as forças que não entendia.
Este episódio ficaria submerso sem ter a atenção da literatura ou espaço na memória popular. Apenas um sítio, de seu nome Con- gumela da Moura, na zona de Sintra, perpetuou aquilo que tudo indiciava ser uma história.
Mas porque a vida tem desmandos incompreensíveis, foi a autora encontrar esta narração em Rabat, pela voz de um português, numa conversa rodeada de tajines e cachimbos de água, fervendo ela própria em ansiedade, pedindo para ser contada.
Por trás desta sucessão incrível de eventos, que por esta altura já o leitor tem dentro de si, foi a aventura abrindo sulcos como um rio, furando e avançando, encontrando o amor no desconhecido, encontrando suavidade nas mais ásperas leis da vida, confiando que encontraria o mar.