terça-feira, outubro 20, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: As Vozes Censuradas

O filme passou no Festival de Berlim e suscitou emoções fortes em quem o pode ver: «Censored Voices» é um documentário do jovem cineasta Mor Loushy, que utilizou um precioso tesouro sonoro constituído pelas gravações de diversos soldados israelitas durante a Guerra dos Seis Dias  em 1967.
No regresso aos seus kibutz eles tinham imenso que contar, pelo que foi quase imediato o projeto de publicar em livro tais testemunhos. Mas a censura militar logo impediria, que eles fossem conhecidos.
Arquivadas desde então, essas gravações foram ouvidas por Loushy, que decidiu contrapor o que nelas se revelava com quem então as confessara.
Em «Censored Voices» encontramos vários idosos a recordarem as palavras e as vozes de quando tinham 20 anos. Quando revelaram como tinham decorrido os combates, o medo que haviam sentido ou as mortes com que se confrontaram. Mas esses testemunhos ainda conseguem ser mais eloquentes quanto aos crimes de guerra praticados pela embriaguez da vitória e pela cegueira ideológica, que lhes tinham imposto.
O futuro escritor Amos Oz foi um desses jovens a darem conta do que tinham vivido. E já então ele pressentia a catástrofe e a confusão, que Israel estava a criar…
À luz do que está a acontecer atualmente em Israel, onde já se sente a iminência da terceira intifada, este filme constitui uma explicação substantiva das origens de um dos principais focos de instabilidade internacional..
  

segunda-feira, outubro 19, 2015

DIÁRIOS DE LEITURA: Umberto Eco fala sobre o livro Número Zero

Uma das maiores fragilidades da esquerda europeia tem a ver com o grande patronato ser o dono dos jornais, rádios e televisões. A “informação” com que a opinião pública é permanentemente matraqueada é a que mais convém a essa classe endinheirada, que tudo fará para manipular e mentir de forma a convencer os consumidores de informação do que deverão “pensar”...



Num ano que não tem sido fértil em grandes obras literárias, o mais recente romance de Umberto Eco tem o condão de vir ao encontro de muitas das nossas preocupações atuais. Porque vem abordar o papel crapuloso de um tipo de imprensa, que recorre às mais indignas estratégias para, mais do que assegurar um volume de vendas apreciável, criar no imaginário coletivo alguns atavismos particularmente difíceis de serem postos em causa.
Por exemplo: que papel teve no incrível resultado eleitoral da direita a campanha contínua do «correio da manhã» contra José Sócrates e o Partido Socialista? Quantos votos foram resgatados pela direita a propósito das supostas inabilidades de António Costa durante a campanha eleitoral?
«Número Zero» de Umberto Eco tem por tema os pasquins do tipo do da Cofina, que vivem do escândalo, das mentiras e outras formas de desinformação. E, sobretudo, graças às conspirações, que promovem.
“A intriga é  intrínseca à vida humana”, segundo cré Eco. “Procuramos sempre um culpado, alguém a quem imputar as culpas, que nunca são nossas. Achamos sempre que elas se devem a alguém!». E é essa patologia das massas, que esse tipo de jornalismo estimula. Por isso, em Itália há quem proponha o romance como manual obrigatório nas escolas de jornalismo por abordar exatamente aquilo que não se deve fazer na profissão para lhe garantir a exigível conformidade com a ética deontológica .
Nas últimas décadas Umberto Eco assinou inúmeras crónicas na imprensa, com temas tão variados, que poderiam ir de Emmanuel Kant até à série policial do momento, mas olhando igualmente para o trabalho dos jornalistas. Agora estava na altura de se consagrar ficcionalmente ao que José Sócrates designou um dia como “jornalismo de sarjeta”.
Neste novo romance ele volta a explorar a dicotomia entre o ser e o parecer, através de uma reflexão capaz de desconcertar, questionar e abanar umas quantas verdades feitas. Os que o leem são convidados a utilizar a inteligência para resistirem corajosamente às sugestões perniciosas desses meios de manipulação de massas. Porque o combate permanente às mentiras de quem é proprietário dos jornais e televisão deverá ser uma das prioridades de um poder verdadeiramente democrático...

domingo, outubro 18, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: Medicinas Alternativas e o Cancro: um comércio lucrativo

Há quase sessenta anos, quando nasci em frente à igreja do Monte da Caparica, estávamos a dois passos de Lisboa, mas ainda subsistiam resquícios das velhas crenças ancestrais. O marido da peixeira, frequentemente acometido de ataques epiléticos, seria de facto um lobisomem. E as noites escuras chegaram a ser perturbadas por um estranho fantasma, que se veio a descobrir depois tratar-se de uma das principais beatas da Igreja que, envolta num lençol, ia ter com o seu amante.
Não admira que, mergulhada nesse caldo cultural, a minha mãe arranjasse uma explicação singular para os sintomas psicossomáticos sentidos depois de se curar da tuberculose e que muito jeito lhe davam para, a seguir, ver-se objeto de muitas atenções por ser “doentinha”: tinham-lhe feito um “feitiço”, que a submetiam a constantes enxaquecas.
Cumprindo o célebre provérbio de mulher doente, mulher para sempre, ela ainda perdura, sempre a queixar-se das dores de cabeça, mas tremendamente rija nos seus quase noventa anos, enquanto o meu pai há muito já lá mora, esqueletizado, no cemitério.
E, no entanto, comprando-lhe a tese, a quantos sítios ele a levou quando eu era uma criança. Bruxos, curandeiros, naturopatas e outros charlatães da mesma igualha, fizeram-nos dar a volta ao país, para sempre regressarmos com o mesmo veredito com que partíramos: não existiria cura para aquele “mal” O que, para a minha mãe, só significava uma coisa: quem lho tinha causado - e que ela bem adivinhava quem fora! - atirara para o mar o artefacto  para tal preparado, o que significava não haver hipótese de remissão.
Essa experiência dos meus verdes anos explica a indignação, que sinto por quem explora a crendice e o medo alheios para os explorar. Por isso sinto-me muito identificado com a realizadora Claudia Ruby que, com o seu documentário «Medicinas Alternativas e o Cancro: um comércio lucrativo» foi investigar exemplos concretos de «galvanoterapias» (“ondas positivas” que destruiriam tumores) ou de milagres conseguidos à custa de psiquismo e de regimes alimentares.
Aprofundando a sua investigação, encontra uma curandeira que rezava em aramaico a uma Virgem Negra  ou pseudocientistas apostados no recurso ao dióxido de cloro ou à “vitamina B17”, para cujos “méritos” organizam conferências e seminários.
Em todos esses exemplos denunciam-se as práticas fraudulentas, que prosperam à custa de doentes cancerosos.
Oncólogos, advogados e familiares de pacientes, entretanto falecidos, procuram dar seguimento às suas queixas à justiça, encontrando, porém, inesperados obstáculos.
Essas medicinas ditas “alternativas” encontram sucesso graças ao desespero das vítimas e às falhas da medicina convencional: sob a forma de “receitas miraculosas”, capazes de  eliminarem os cancros e evitarem as temidas quimioterapias, elas são vigarices indecentes, que agravam as possibilidades de cura de quem nelas acredita.
Quando o filme chega ao fim, o balanço é elucidativo: existe um lado sectário nessas “terapias”, que apostam na culpabilização do próprio doente, quantas vezes levados a crer na relação causa-efeito entre os seus comportamentos e a “desarmonia” com o seu “ser global”. Ainda assim, Claudia Ruby apresenta um caso a levar em conta: uma clínica de Essen, onde a terapia convencional é acompanhada de algumas sessões de medicina alternativa (ioga, acupunctura, etc), não para a substituírem, mas como forma de apoio psicológico a quem se encontra tão debilitado. E isso sim, pode fazer algum sentido...

ESTÓRIAS DA HISTÓRIA: Eles consideravam-se "cientistas"

A tenebrosa história dos médicos nazis, que implementaram um programa de experiências em seres vivos nos campos de concentração, constitui um dos exemplos mais terríveis da negação do juramento de Hipócrates a que eles se deveriam sentir vinculados. Constitui a demonstração quanto a não existirem limites à crueldade, quando um poder autocrático se impõe a populações indefesas...


Desde início o nazismo cuidou de contratar médicos para os seus objetivos de purificação racial: em 1937 eles estiveram envolvidos na esterilização forçada das crianças mestiças - classificadas de “bastardas” - da Renânia. Depois, em 1938 e 1939 selecionaram e assassinaram milhares de doentes mentais. Finalmente, nos anos seguintes, esses médicos utilizaram como cobaias muitos prisioneiros dos campos de concentração de Sachsenhausen, Dachau, Buchenwald, Natzweiler-Struthof, Neuengamme e Ravensbruck. O objetivo era testarem algumas experiências em prisioneiros vivos e com objetivos militares.
Nessa política de desumanização o clímax foi atingido em Auschwitz: todo o processo de exterminação de vidas humanas foi colocado sob a supervisão de médicos. Eram eles quem escolhiam os que, à saída dos comboios, eram imediatamente direcionados para as câmaras de gás ou se manteriam vivos mais algum tempo, fosse para trabalharem como escravos, fosse para servirem de cobaias.
Para além do tipo de experiências concretizadas nos outros campos, em Auschwitz somavam-se outros dois tipos de “investigações”, destinadas a garantir a supremacia da raça ariana: por um lado a esterilização massiva de homens e mulheres europeus pertencentes às supostas raças inferiores; e, por outro, o dr. Mengele levou por diante as experiências com gémeos, a fim de descobrir os segredos da genética, com os quais pretendia criar condições para a multiplicação da raça ariana.
Em 28 de março de 1941, o médico Viktor Brack redigiu um relatório para Himmler no qual dava conta do sucesso da esterilização e da castração de indivíduos através do recurso intenso à radiação X, como se comprovava com os testes realizados com as cobaias do Bloco 10 onde as centenas de mulheres, que por ali iam passando, tinham a noção, de, tão-só cumprido o papel de cobaias que lhes estava destinado, serem de imediato enviadas para os fornos crematórios.
A maior parte das experiências de esterilização com raios X foram praticadas em raparigas gregas com idade compreendida entre os 16 e os 18 anos.
O método do dr. Schumann consistia em fazer uma aplicação direta dos raios X na parte inferior do abdómen, ou seja sobre os órgãos genitais internos, que eram depois extraídos ao fim de alguns dias.
Quando as vítimas regressavam de Birkenau, onde estavam os equipamentos necessários às operações a que as sujeitavam, vinham aterrorizadas, a vomitar e com sinais de gangrena. O seu sofrimento durava semanas, senão meses, porque os órgãos, sobretudo os intestinos, estavam queimados pelas radiações e lhes causavam dores indescritíveis.

sábado, outubro 17, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «Como uma Chuva de Perfume» de Claire Billet e Olivier Jobard

Porque são tantos os milhares de desesperados, que procuram chegar à Europa, oriundos da Síria, do Afeganistão e doutros países asiáticos? Por um lado criaram-lhes a ilusão de que partirão ao encontro de um verdadeiro el dorado. Mas, sobretudo, porque veem tão em risco a sua própria sobrevivência, que só lhes resta alcançar algum sítio onde a probabilidade de morrer não seja tão elevada...


Durante dois anos Claire Billet e Olivier Jobard acompanharam a tentativa de cinco jovens afegãos - Luqman, Fawad, Khyber, Jawid e Roahani - de chegarem á Europa, sobretudo a essa Paris idealizada de que ouviram dizer maravilhas. Nomeadamente, que estaria sempre a ser sobrevoada por helicópteros, que iam pulverizando os céus com perfume de forma a mantê-la bem cheirosa. Explica-se, logo, de início, a razão do título do documentário.
Os realizadores acompanharam os cinco jovens durante quatro meses quando, integrados num grupo bem maior, atravessaram o Paquistão, o Irão e a Turquia para chegarem às margens do Mediterrâneo. Nessa árdua odisseia, para a qual cada um pagou 7 mil dólares, utilizaram comboio, autocarro, pickups, anas traseiras de um camião, mas, sobretudo os próprios pés quando se tratava de passar fronteiras durante a noite.
A sensação de vulnerabilidade, relacionada com a sua clandestinidade associava-se, permanentemente ao cansaço. Mas Istambul significa o primeiro vislumbre dessa Europa moderna em que as mulheres andam de pernas e braços à mostra.
Quando os colocam num barco de borracha com mais trinta companheiros de infortúnio, para chegarem à ilha de Samos a quinze quilómetros de distância os cinco rapazes não sabem o que os espera: a polícia marítima grega tira-lhes o motor e o combustível, deixando-os à deriva depois de lhes furar a pequena embarcação. A possibilidade de se afogarem, com o almejado continente à vista, torna-se numa possibilidade muito provável.
Vale-lhes a marinha turca, que os salva, mas os leva presos. Três deles são expatriados para o país natal, enquanto a equipa de filmagem vê-se expulsa para França.
Mas, dois meses depois, Claire e Olivier, encontram Luqman e Fawad na Sicília. Sem dinheiro para irem mais longe, vivem precariamente, dormindo ao relento.
É a equipa que os filma a dar-lhes o dinheiro necessário para chegarem, primeiro a Roma e depois a Paris. Mas a cidade-luz não corresponde em nada ao que tinham imaginado: durante meses a fio andam às voltas com o labirinto burocrático onde procuram ser reconhecidos como refugiados. Instalando-se o tédio, senão mesmo o desespero de se verem num impasse sem solução.
Fawad tenta alternativa na Alemanha, mas também aí não será fácil encontrar alojamento e emprego.
A Europa significou para os dois afegãos, que a ela conseguiram chegar, uma profunda desilusão. E, no entanto, voltando a procurar os outros três em Cabul, Claire e Olivier encontram um deles disposto a arriscar de novo a aventura. Porque, dos outros dois, um está preso devido ao seu passado talibã, e o outro voltou para a casa dos pais.
No final, é evidente que, tendo alimentado tantos sonhos quanto á possibilidade de um futuro risonho, os cinco jovens foram confrontados com um muro demasiado alto para conseguir ser suplantado...

sexta-feira, outubro 16, 2015

DIÁRIO DE LEITURAS: Nas avenidas periféricas de Modiano

O Prémio Nobel da Literatura, ora me vai suscitando indiferença - como aconteceu este ano com a bielorrussa, que o ganhou -, ora me dá inesperadas alegrias como se verificou com a consagração de Patrick Modiano no ano transato.
Dado tratar-se de um autor, que há muito apreciava, esse Prémio demonstrou que, às vezes - como se viu com Saramago, Marquez, Le Clézio ou Grass - a Academia sueca acerta em cheio...


Com «As Avenidas Periféricas«, Patrick Modiano ganhou o Grande Prémio de Romance da Academia Francesa em 1972.
O narrador - que tomou como sua a identidade de Serge Alexandre - parte à procura do pai de quem já estava afastado há vários anos.
Reencontra-o numa pequena aldeia adjacente ao bosque de Fontainebleau, onde assumira o pseudónimo de Barão Chalva Deyckecaire.
Depressa se colcoa a questão: qual será a sua fonte de rendimentos? Serge não consegue esmiuçá-la, mas não é difícil suspeitar da sua ilicitude, tendo em conta o tipo de marginais com quem convive.
Um deles é Jean Muraille, que dirige o «C’est la Vie», um jornal político-mundano ferozmente antissemita e vocacionado para escândalos e pornografia.
Outro é o Conde Marcheret, que fora legionário em África e associa o alcoolismo ao seu comportamento obsessivo. Quando Serge contacta com o grupo, ele apresta-se a casar com Annie, a sobrinha de Muraille.
Maud Gallas e Sylviane Quymphe são as personagens femininas mais destacadas, ambas declaradamente experientes no mundo da prostituição.
Várias perguntas vão-se sucedendo na mente de Serge: será Deyckecaire um judeu acossado, disposto a tudo fazer no tráfico do mercado negro, conquanto os cúmplices o não denunciem?
Pela sua técnica narrativa, que ora debita factos, ora formula hipóteses, ora ainda se presta  a interpretações, o romance empurra o leitor para a incerteza, atiçando-lhe a vontade de saber mais, de descobrir a verdade.
Passar-se-á a intriga nos tempos da Ocupação? Tudo o indica, mas as certezas não são definitivas.
Fica uma evidência: a de um amor inconfessado do filho pelo pai, que se revela uma criatura patética na sua fraqueza. É o que faz de «Avenidas Periféricas» um romance sobre o que está morto e o donde se veio: as obsessões habituais em Modiano e que justificam sempre uma incontornável curiosidade quando abordamos as suas obras... 

http://www.ina.fr/video/I08059045


quinta-feira, outubro 15, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: O Inquieto (As Mil e Uma Noites, parte!)

O que eu gostaria de ver «As Mil e uma Noites» consagrado com o próximo Óscar para o Melhor Filme Estrangeiro. Reencontraria assim a alegria sentida aquando da atribuição do Nobel a Saramago, quando a direita quase o tinha pretendido reduzir à condição de pária no seu próprio país.
Ainda não é propriamente isso que sucedeu com Miguel Gomes, mas é triste ver gente encher plateias para ver uma idiotice como o é «O Pátio das Cantigas» e deixar às moscas um projeto, que diz tanto sobre o país e que vivemos...



O título indicia-o: para conceber «As Mil e uma Noites», Miguel Gomes deixou-se influenciar pela estrutura do grande clássico da literatura oriental. Mas não só: também bebeu nele o seu espírito libertário e comprometido, que continuam a justificar a sua intemporal modernidade.
Logo de início, o autor assume que a abstração causa-lhe vertigens. E, no entanto, logo nos remete para uma sucessão ininterrupta de metáforas., que nos leva até ao fim.
Está lá o cadáver da baleia, que veio dar ao areal e se faz explodir, como aparentava ser o país em 2013 e 2014, quando decorreu a rodagem do filme, e o poder político, aliado à troika, impunha um empobrecimento acelerado da maioria da população. Aliás, as primeiras imagens com que ele se inicia remetem para o escândalo da privatização dos Estaleiros de Viana do Castelo, que representam o exemplo mais lapidar do esbulho da propriedade pública em proveito de interesses privados.
Estão também as vespas chinesas, que invadem o território natural das aqui existentes e as tendem a eliminar.
Estão igualmente esses políticos e sindicalistas desejosos de conseguirem a ereção permanente prometida por um charlatão africano e aliviam momentaneamente a dívida, que logo voltam a aumentar quando o incómodo priapismo os obriga a desembolsar o suficiente para dele se libertarem.
Não falta ainda essa justiça, que se ridiculariza por tomar por réu um galo, que acorda os vizinhos a desoras.
Miguel Gomes questiona-se: como é possível continuar a fazer cinema nestas condições, mesmo quando se acaba de ser incensado pela crítica internacional a propósito do seu filme anterior («Tabu»)?
Existe nele uma opção claramente política, já que se coloca ao lado dos Magníficos, que é como designa os que foram excluídos do sistema liberal. E para isso vai criando o filme à medida, que trabalha o seu conceito, como se se tratasse de um autêntico work in progress.
Se começa por fugir dos próprios técnicos e assistentes, logo encontra refúgio numa forma de paródia reveladora do estado em que três anos de governação da direita deixaram o país.  É por isso que «O Inquieto», a primeira parte desta trilogia, constitui um retrato desassombrado e devastador sobre um modelo de transformação do país num amontoado de ruínas (físicas e humanas). 

quarta-feira, outubro 14, 2015

DIÁRIO DE LEITURAS: Quando se confunde a mulher com um chapéu!

O recente desaparecimento de Oliver Sacks justificou o reencontro com a obra do neurologista, que aprendi a admirar desde 1990, quando «Awakenings» assinalou a sua apresentação ao grande público. Desde então aprendemos muito com a divulgação dos seus textos relativos ao funcionamento do órgão mais complexo do nosso corpo: o cérebro...


Data de 1861 o dealbar dos estudos científicos sobre a relação entre o cérebro e a mente. Foi nesse ano, que Broca “descobriu que as dificuldades específicas no uso expressivo da fala (afasia) se seguiam de forma sistemática, a lesões numa área específica do hemisfério esquerdo do cérebro” (pág. 17)
Doravante a neurologia cerebral procurou criar um mapa do cérebro humano em que se detetassem centros cerebrais a que correspondessem faculdades específicas, como as linguísticas, as intelectuais, as percetivas, etc.
No final do século XIX Freud já punha em questão essa forma simplificada de ver tal  correlação estreita, porque detetava complexidades por ela não contempladas. Mas, de uma ou outra forma, os neurologistas e os neuropsicólogos sempre priorizaram a sua atenção para o hemisfério esquerdo do cérebro onde, mais facilmente, conseguiam estabelecer relações entre lesões óbvias e a perda de capacidades dos respetivos pacientes.
Quanto ao hemisfério direito a atenção científica acabou por ser bastante negligenciada apesar de controlar “os poderes cruciais do reconhecimento da realidade, que todas as criaturas vivas são obrigadas a possuir para sobreviver”. (pág. 19).
A primeira parte do livro mais conhecido de Oliver Sacks - «O Homem que Confundiu a Mulher com um Chapéu» - é dedicado à perda de capacidades e o primeiro caso abordado coincide precisamente com o que lhe deu o ensejo para o título.
Sacks aborda o caso do Dr. P, um músico distinto, que cantara durante vários anos e era professor na escola local.
Quando o foi consultar, o dr. P queixava-se de ter dificuldades em reconhecer o rosto dos alunos, apenas o conseguindo pela respetiva voz.
Depressa chegou à conclusão de se tratar de um caso bem mais complicado do que a descrição inicial pressuporia: ele via rostos onde não existiam, dirigindo-se por exemplo a candeeiros como se fossem pessoas ou a bocas de incêndio como se se tratassem de crianças.
Aparentemente teriam sido os diabetes a agudizarem um estado já antes existente, mas que o paciente ia disfarçando sob a capa de se tratar de alguém muito bem humorado.
Nos testes Sacks apercebeu-se que ele “nunca conseguiu ver nenhuma fotografia como um todo. Não conseguia ver o geral  embora apanhasse todos os detalhes como pontos luminosos num ecrã, num radar.” (pág. 26)
Mas  maior espanto aconteceu, quando, concluídos esses exames, o dr. P procurou o chapéu para se retirar e agarrou a cabeça da mulher como se dele se tratasse. Ora, ela parecia habituada a esse tipo de situações.
Sacks concluiu que os lóbulos temporais estavam intactos. Mas o que se estaria  a passar com os parietais, especialmente nas áreas mais vocacionadas para o processamento visual? É que o paciente olhava para os rostos como se  fossem puzzles ou testes abstratos.
Sem conseguir uma solução cirúrgica eficaz para o tumor nele detetado, Sacks apresentou-lhe uma alternativa comportamental: como a música sempre fora tão importante, teria de ser ela a substituir-se à imagem. E assim ocorreria até ao fatal desiderato da sua doença.
Analisando a posteriori o caso, Sacks concluiu que faltava ao dr. P. aquilo que significa discernimento: uma compreensão intuitiva, pessoal, total e concreta. Algo que encontraria igualmente em casos descritos por outros neurologistas: “Se o dr. P confundia a mulher com um chapéu, o paciente de Macrae, que também não reconhecia a mulher, precisava que ela se identificasse através de uma marca visual como uma peça de vestuário, por exemplo, um chapéu”. (pág. 40)
- texto sugerido pela leitura de «O Homem que Confundiu a Mulher com um Chapéu» (ed. Relógio de Água, 2008)


DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: Uma viagem por uma Itália bela e perdida

Há umas semanas atrás, quando «Bella e Perduta» passara no Festival de Locarno, já aqui o abordara como um dos projetos cinematográficos mais interessantes de 2015.
Agora, vamos ter oportunidade de o comprovar, já que é com ele, que abre o Doc Lisboa deste ano.
Estreando-se a 22 de outubro no Grande Auditório da Culturgest e repetindo dois dias depois no Ideal Paraíso, veremos como Pietro Marcello se começou por entusiasmar com o esforço do pastor Tommaso Cestrone que, com o seu esforço solitário, procurou salvar das ruínas o Palácio Real de Carditello.
Se esse tema em si já seria interessante pela demonstração do quase total alheamento dos italianos em relação ao seu passado, o filme ganhou nova dimensão com a morte inesperada do protagonista na noite de Natal.
Marcello reorientou, então, o seu projeto para um misto de documentário e de ficção em que faz surgir Polichinelo das entranhas do Vesúvio a fim de salvar o búfalo Sarchiapone da ameaça do matadouro. Teria sido o próprio Tommaso no Além, a pedir-lhe esse favor pelo muito afeto que sentira pelo animal, que adotara e fora seu companheiro. O filme constrói-se então com a fuga dos dois servos, o homem e o animal, pelas paisagens lindíssimas da Campania, onde descobrem uma realidade com que não contavam.
Há assim um esforço quixotesco para contrariar essa realidade economicista onde só contam os investimentos e os seus retornos. 

segunda-feira, outubro 12, 2015

DIÁRIO DE LEITURAS: Quando o frio aperta a sério

Nos últimos anos tenho lido romances policiais de autores nórdicos. Na sequência dos sucessos de Stieg Larsson, e sobretudo do fascínio em mim causado pelos romances do recém-desaparecido Henning Mankel, tenho regressado a paisagens, que tive o privilégio de conhecer durante os anos de navegação pelos portos noruegueses, suecos e islandeses.
Foi um tempo de deslumbramento, porque essas viagens aconteciam sempre no verão, quando os dias quase reduziam as noites a períodos muito curtos, sobretudo ao aproximarmo-nos das latitudes mais boreais, quando era paradoxal ser fotografado no convés superior com um copo de vodka orange na mão, o sol no horizonte e os relógios a marcarem as duas da madrugada.
As imagens então retidas do rasto do paquete nas águas dos fiordes, enquanto imperava a verdura crepuscular à nossa volta, são imorredoiras na minha memória.
No entanto, o romance de Mons Kallentoft remete para outra realidade bem diferente, apesar de radicadas nas mesmas paisagens: as do inverno mais agreste.
Quando «Sangue Vermelho em Campo de Neve» se inicia está a viver-se um dos invernos mais frios de que há memória, com temperaturas da ordem dos -40ºC. É, então, que é descoberto o cadáver de um homem completamente nu, pendurado num castanheiro. Desfigurado, apunhalado e abandonado, está suspenso de uma corda no meio de nenhures.
A brigada policial encarregada da investigação integra Malin Fors e Zackarias Martinsson, conhecido por Zeke. A primeira preocupação, que lhes assiste é identificar a vítima:quando se consegue reconstituir o rosto do morto, ele é reconhecido como sendo Bengt Andersson, um marginal que adorava assistir aos jogos de futebol da equipa local, servindo-lhe de apanha-bolas.
Vivia sozinho sem que ninguém por ele se interessasse. Mas um velho dá algumas indicações elucidativas a seu respeito: a mãe morrera de cancro e o pai era um homem violento, que agredia frequentemente a mulher e os filhos.
Um dia, não o podendo suportar mais, Bengt acertara com o machado numa orelha do pai, que se pusera em fuga. A irmã mudara, então, de nome - passara a chamar-se Rebecka Stenlundh - e arranjara emprego no supermercado.
Os polícias orientam as suas investigações para uma seita liderada por Richard Skoglof, que pratica sacrifícios com animais, mas não encontram razões para duvidar dos alibis com que são confrontados.
No entretanto vamos conhecendo as particularidades da vida pessoal de Malin, que está a contas com a adolescência da filha e com as suas próprias carências de mãe solteira. E também as idiossincrasias de uma região onde a meteorologia exerce uma influência determinante nas atitudes de quem ali habita. As pessoas fecham-se em casa e não parecem importar-se com quem mora a seu lado. Sobrevivem os que formam clãs, porque os solitários estão condenados à morte. Não se trata, assim, de um retrato muito favorável de um país tão elogiado pelas suas preocupações sociais.
Mons Kallentoft revela-se extremamente talentoso logo neste primeiro de oito romances, que já dedicou à sua personagem Malin Fors. Ela é cativante e o ritmo da ação é movimentado, recorrendo a frases, parágrafos e capítulos curtos.
Continuo a preferir os romances de Menkell com o inspetor Wallander, mas não enjeito a oportunidade de ler outros com esta Malin Fors. Até porque, se este é passado no Inverno, os outros ocorrem nas outras estações do ano. 

domingo, outubro 11, 2015

PALCOS: Temos de ir à procura de Godot!

Há muitos anos, que não revisitava «À Espera de Godot», a peça escrita por Samuel Beckett em 1952 e estreada em palco no ano seguinte com a encenação de Roger Blin.
Muito embora tivesse bem presente a história e os seus personagens - sobretudo esses dois vagabundos, Vladimir e Estragon, que passam toda a peça à espera desse tal Godot, - ela permite sempre leituras diferentes segundo o tipo de conjuntura em que a vemos.
Foram muitos os que, no passado, arriscaram uma explicação para esse Godot por quem viria a salvação para os entediados protagonistas. Houve quem dissesse ser Deus, mas Luís Vicente, o encenador desta versão produzida pela Companhia de Teatro do Algarve (Acta) - e apresentada na Sala Principal do Teatro Municipal Joaquim Benite em Almada - conota-o com o dinheiro e vê-o à luz da crise financeira traduzida na falência do Lehman Brotheres e tudo quanto se lhe seguiu.
A sua visão da peça é bastante pessimista, porque descrê da hipótese de uma qualquer alternativa à queda abrupta, e sem rede, de um sistema capitalista cada vez mais violento com quem se lhe oponha, em contraponto à perceção de estar à deriva na direção de um incontornável precipício.
A representação excelente de Pedro Laginha, Luís Vicente e, sobretudo, de Pedro Lima - que nos surpreende em alguns momentos com uma mímica clownesca! - conjuga-se com a coreografia minimalista como quase sempre se torna obrigatória para esta demonstração do Teatro do Absurdo.
De acordo com o que estamos a viver, fui vendo a peça a ajustá-la a uma outra possibilidade interpretativa: a de Godot ser o direito de qualquer pessoa à felicidade, normalmente traduzível numa ânsia revolucionária.
Nesse sentido, embora completamente diferente da proposta beckettiana, recordei «Quarentena», o maravilhoso espetáculo com que O Bando celebrou o seu 40º aniversário no ano passado e que constitui, até ver, a melhor proposta teatral, que vi nas minhas quase seis décadas de vida. No seu quadro final, quando se juntavam as dezenas de atores e músicos, questionava-se se a Revolução seria para hoje ou para amanhã. E, desiludidos com a possibilidade de ela ser para já transferíamos todas as nossas expetativas para o amanhã.
Em «À Espera de Godot» passa-se algo de semelhante: bem podem Vladimir e Estragon esperá-lo, dia após dia, que fica sempre a promessa dele aparecer no dia seguinte.
Por isso, ver a peça nesta semana subsequente às  eleições legislativas em que, mais uma vez, não vimos a esquerda ter a vitória indiscutível correspondente a tudo quanto passámos nos últimos quatro anos, põe-nos, de certa forma, na mesma posição dos dois protagonistas: se não foi hoje, será que esse almejado Godot aparecerá amanhã?
Aumentaremos, decerto, a possibilidade disso acontecer se, em vez de ficarmos à espera, investirmos militantemente nessa urgente mudança. Mais do que ficarmos à espera de Godot, temos de ir, nós mesmos, à sua procura. 

sexta-feira, outubro 09, 2015

DIÁRIO DE LEITURAS: O crepúsculo capitalista em novos títulos publicados em França

Se olharmos para a realidade francesa de forma mais aligeirada podemos inquietar-nos com os impasses da esquerda e da direita, enquanto crescem os apoios populares a marine le pen. Mas, se tivermos em conta os livros, que vão aparecendo nas livrarias e espelham o pensamento da sua intelectualidade, vai fazendo o seu caminho uma crescente denúncia das piores práticas do capitalismo.
Valerá, pois, a pena dar uma olhadela ao que neles se vão revelando.
Michel Pinçon e Monique Pinçon-Charlot são os sociólogos que assinam «Tentative d’évasion (fiscale)» (ed. Zones/ La Découverte), onde denunciam a vigarice monumental atualmente em curso pela classe dominante, através da fraude que tudo corrompe.
Nos últimos vinte anos a evasão fiscal tornou-se cada vez mais eficaz na sua opacidade, através de mecanismos complexos em sociedades offshore, capazes de esconderem a identidade dos proprietários de rendimentos e apagar a ligação entre eles.
Na Suíça de hoje, quando um milionário quer abrir uma conta num dos seus bancos as reuniões para a concretizar são numerosas e prolongadas de forma a melhor libertar os clientes dos seus constrangimentos fiscais nos países de origem.  Mas, porque se sabem sob o escrutínio de uma comunicação social cada vez mais atenta às suas práticas, esses mesmos bancos adotam maiores precauções, filtrando os novos clientes de forma a não porem em causa essa tal fraude, que querem perenizar.
Por seu lado, Jonas Lüscher , o autor de «Le Printemps des Barbares» (ed. Autrement),  acredita que os bárbaros do título são os corretores britânicos da City, cujo vencimento obsceno permite comprar tudo, menos carácter.
O romance tem por protagonista um desses corretores, que preparou uma luxuosa festa para celebrar o seu casamento na Tunísia, fazendo-se acompanhar de umas largas dezenas de convidados, que incluem os familiares dos noivos e os seus colegas da City.
Durante uns dias todos esses personagens usufruem as belas paisagens do deserto enquanto bebem Dom Pérignon.
Existe, igualmente, um outro personagem importante, o suíço Prixxing, que acabou de vender a sua parcela na empresa familiar a um ambicioso ex-jugoslavo, e também decidiu viajar para a Tunísia para descansar… e começar a olhar concupiscentemente para a mãe do noivo, a quem o esposo pouco liga.

De repente as notícias vindas de Londres começam a inquietar e tornam-se ainda mais paradoxais no dia seguinte à boda, quando a maioria ainda estava a recuperar do coma etílico em que caíra: a Inglaterra entrou em bancarrota e a libra esterlina passou a nada valer.
A consequência imediata é a impossibilidade de todos os convidados recorrerem ao cartão de crédito: se na véspera tinham meios para comprar o palácio onde está instalado o hotel de cinco estrelas, agora nem sequer conseguem pagar uma garrafa de água mineral do minibar.
É uma autêntica tragédia a que se abate sobre toda aquela gente: a exemplo do antigo povo judeu, formam uma caravana pelo deserto adentro, formando uma fila de sombras vacilantes num cenário cada vez mais inóspito.
Afinal os britânicos conseguiram superar os gregos na dimensão da sua bancarrota. E Jonas Luscher, numa entrevista, até nem considera tal hipótese como improvável: “não aprendemos as lições da última crise económica de 2007 de que a tragédia grega é uma óbvia consequência.  
Houve algum esforço para regular melhor os fluxos financeiros, mas o sistema não chegou a ser reestruturado. As agências de notação financeira continuam a deter um poder injustificado.
E quanto aos fundos de investimento nenhum controle foi imposto. A taxa europeia para as transações financeiras, que poderia limitar os fluxos incessantes, não saíram do papel e a maioria dos bancos estão envolvidos em escândalos por praticas fraudulentas.
Veja-se o que se acaba de passar no Reino Unido: o governo conservador acaba de despedir o patrão da Comissão Reguladora e diminuiu as taxas no setor financeiro.”.
O livro de Lüscher é bem humorado e subtil na forma como mostra a transformação dos jovens lobos da City em bárbaros sem fé nem lei, capazes de vandalizar frigoríficos para se apossarem da comida, que já não podem comprar, ou de esventrarem os próprios camelos em que se fazem transportar, quando a fome os aperta. No fim até causam um enorme incêndio no palmeiral do oásis onde se tinham acoitado.
É essa a forma como Lüscher anuncia que o pior está por vir: “O próximo desastre financeiro não estará muito distante. E nós não nos preparámos para ele!”