segunda-feira, setembro 21, 2015

DIÁRIO DE LEITURAS: Como o século XVIII português se interliga com a questão dos refugiados

Não sei se houve intenção ou se se tratou de uma feliz coincidência, mas o protagonista do romance «As Noivas do Sultão», que já aqui abordei, é um antigo cristão sírio chegado a Lisboa em pleno reinado de D. José I e aqui radicado nas décadas seguintes.
Frei João de Sousa viera do longínquo país em busca de riqueza e reconhecimento, mas acabara por entrar num mosteiro franciscano a fim de dar satisfação ao desejo de conhecimento. Por essa altura já assistira aos horrores do terramoto e estava em vias de ver substituída a argúcia iluminada do Marquês pelo conservadorismo beato da rainha D. Maria I.
Leitor voraz, ele é o único súbdito da rainha a conhecer a língua e a cultura árabe, sendo por isso escolhido como interprete dos contactos oficiais e oficiosos entre a corte e os barcos com concubinas de um príncipe marroquino, que haviam chegado ao Tejo por capricho dos ventos e das marés.
A personalidade de Frei João é assaz interessante por ser ele quem mais investiga o que se passa efetivamente a bordo através de um diário chegado clandestinamente à sua mão, entregue por uma das prisioneiras a bordo. E é em torno do mistério pressentido nesse harém, que todo o romance irá decorrer.
Mas o facto de se tratar de um antigo cristão sírio interliga-se com ter estado numa conferência sobre refugiados ontem organizada em Almada e onde um dos estudantes trazidos por Jorge Sampaio ao abrigo de um programa destinado a apoiar jovens impedidos de prosseguir a formação no seu devastado país, nos quis dar a conhecê-lo.
Ao contrário do que julga a centena e meia de biltres que compareceram em frente à Assembleia da República para contestarem uma política de decência para com quem acorre à Europa em busca de sobrevivência, os sírios nada têm a ver com os assassinos do chamado Estado islâmico, que lhes infernizam a vida.
Nour Machlah - assim se chama esse futuro arquiteto - lembrou a História da Síria desde a invenção da escrita cuneiforme, no tempo dos Sumérios, até ao início da navegação marítima com os Fenícios, desde a romanização, que deu origem aos templos de Palmira, a outras ocupações mais recentes de colonizadores europeus, de quem o país se emancipou após a Segunda Guerra Mundial.
 Até há cinco anos, Nour e os jovens da sua idade nunca poderiam imaginar que tal tormenta lhes cairia sobre as descontraídas cabeças. Eram tantas as religiões professadas pacificamente nas diversas comunidades, que elas não constituíam qualquer problema. A conjunção de uma política expansionista estúpida por parte da Casa Branca e o surgimento de franjas radicais de um islamismo, que nada tem a ver com a leitura canónica do Corão, precipitou a guerra.
A exemplo de Frei João que viera para Portugal no século XVIII para fugir às guerras no seu país, este Nour imitou-o e aqui aportou para ter a possibilidade de sobreviver. Não foi, pois, por acaso, que enquanto o ouvia, o conotei com a personagem criada por Raquel Ochoa no seu excelente romance. 

domingo, setembro 20, 2015

DIÁRIO DE LEITURAS: O isolamento ou a sociabilização?

Um dos artigos mais interessantes do «Expresso» desta semana é da autoria de Carolina Reis e intitula-se «Sorria, o mundo é uma #selfie!».
Está em causa a revolução de valores e de comportamentos verificados nos últimos anos desde que a tecnologia passou a facilitar a moda das selfies.
No passado os autorretratos eram raros em fotografia: o normal era a distância entre quem fotografava e quem era fotografado. A diferença de perspetiva é assim interpretada pelo sociólogo Gustavo Cardoso, do ISCTE: “Retratos construídos a partir da nossa subjetividade, enquanto antigamente eram feitos a partir da visão do outro. Ou seja, fotografamos aquilo que achamos que somos”.
Se a fotografia tinha nascido como registo e transformara-se depois em arte, agora arrisca-se a servir de alimento exacerbado da subjetivação dos sujeitos. E por isso mesmo está a conhecer um momento de significativa viragem. A jornalista constata que a célebre fotografia icónica de Che Guevara captada pela câmara de Alberto Korda seria, hoje, completamente diferente se fosse o próprio revolucionário argentino a captá-la.
Carlos Fortuna, sociólogo do Centro de Estudos Sociais de Coimbra, reconhece nas selfies a ampliação dos comportamentos de individualidade: “Não é o momento que é captado, sou eu à frente do momento. Quero é retratar-me a mim com o momento.
Esse arreigado sentido de individualismo, que vai a contracorrente de movimentos cada vez mais frequentes de solidariedade em muitas esferas das nossas sociedades, explica-se pela pulsão do ser humano em ser amado e aceite pelos outros. O que o faz perder a memória e isolar-se cada vez mais. Nesse sentido as empresas tecnológicas tudo fazem para incentivar os seus trabalhadores e clientes a atomizarem-se sem que se sintam tentados a juntarem-se a outros para que se salvaguarde o bem comum.
E por isso mesmo até inventaram o pau do selfie, que dispensa o pedido (e a comunicação) com outros a fim de se lhes pedir que servissem de fotógrafos. “Ganha-se em autonomia, perde-se na socialização!” afirma Carlos Fortuna. Acrescentando: “A tecnologia adapta-se e cria uma autonomia do sujeito. Ninguém se atreve a quebrar o isolamento em que a pessoa se insere para não estar no espaço público”.
Nesta sociedade em que somos empurrados para a auto-robotização, estas conclusões servem de alerta para os perigos de ver a nossa segurança servir de alibi para vermos fragilizadas as hipóteses de concretizarmos legítimas aspirações. Porque se da união cresce a nossa força, da desunião dá-se a oportunidade a quem a não merece para que tudo decida à revelia dos nossos interesses.

quarta-feira, setembro 16, 2015

DIÁRIO DE LEITURAS: A História aprendida a partir de dois romances

1. Em França existe uma sólida tradição de edição de romances históricos, pelos quais se podem conhecer mais facilmente as vicissitudes ocorridas ao longo da sua História.
A meio do século XIX um dos autores mais em voga  era Joseph Arthur de Gobineau, que publicou «L’Abbaye de Typhaines» em 1848, dentro da sua habitual tendência para abordar a decadência do poder feudal desde a Idade Média.
A intriga passa-se no século XII com a revolta dos burgueses de Typhaines, organizados numa comuna para enfrentarem os monges da abadia vizinha, seus suseranos.
Essa dependência, porém, era muito recente, porquanto o anterior proprietário daqueles domínios era Geoffroy de Cornehant, que a pretexto de expiar um crime decidira vestir o hábito e entregar os bens à Abadia.
Quem não ficou nada satisfeito foi Philippe de Cornehant , que andara pelas Cruzadas, e se vê totalmente despojado de fortuna graças à imprudência do progenitor. E, à distância, o Rei provoca intrigas entre uns e outros a fim de dividir para melhor reinar. Mas com tão bons argumentos para um final galvanizante, Gabineau desperdiça-os e avança para o respeito da «ordem natural», conseguindo de Phillippe a salvaguarda dos monges de Typhaines que, em troca, solicitam a Roma a devolução dos bens paternos ao seu defensor…

2. Bastante mais interessante do que o anterior é o romance de Raquel Ochoa, que ando a ler: «As Noivas do Sultão».
O livro foi publicado há poucas semanas e remete-nos para o reinado de D. Maria I, quando aportaram ao Tejo duas embarcações com as concubinas de um dos principais  príncipes marroquinos, por sinal aquele que deveria assumir as rédeas do trono não se desse o caso de estar praticamente cego.
Estando o reino sacudido por violenta guerra sucessória, Abdessalam decidira acautelar o harém transferindo-o de Casablanca para Rabat sem imaginar que os ventos e as correntes o levariam para a Madeira, depois para os Açores e, finalmente, para a capital portuguesa.
É nessas circunstâncias que ganha relevância Frei João de Sousa, um franciscano com uma rica cultura arabista até por ter nascido na comunidade cristã da Síria e aqui ter vindo parar ainda antes do terramoto. É ele quem servirá de interprete entre o arrais, que lidera a expedição e o Ministro do Reino. Mas é também ele quem recebe, sub-repticiamente, o diário de uma das mulheres de bordo a quem estaria até proibido de olhar, quanto mais delas receber o que quer que fosse. E começa assim um mistério sobre o que se passará, de facto, dentro daquele mundo fechado sobre a qual a cidade começou a sentir uma enorme curiosidade.
Muito bem escrito e estruturado, o romance de Raquel Ochoa merece ser lido e divulgado, porque nos permite uma visão da História do final do século XVIII com o colorido só possibilitado pela ficção. Até por toda a intriga resultar de porfiada investigação da autora.
Como exemplo da qualidade aqui enaltecida, deixo aqui um extrato sobre o terramoto de 1755, tal qual Frei João o evoca, quando vai de coche a caminho da corte em Queluz, na companhia do arrais, que o interrogara sobre tal experiência de trinta e oito anos atrás:
“João encontrava-se em Lisboa, juntamente com um criado da casa de Morgado de Oliveira. Já estavam bem atrasados para a missa, demorando-se num armazém onde compravam uma série de víveres de que o morgado os encarregara. Não fazia parte das suas competências, mas como era feriado e aquele moço teria dificuldade em tudo carregar, João de Sousa voluntariara-se e, às nove e quarenta, quando se deu o primeiro abalo, encontrava-se à entrada de um velho edifício na Baixa da cidade.
No primeiro segundo de constatação esgazeada, ele e o terramoto entreolharam-se. Foi um primeiro solavanco. De repente todo o tempo antes daquele segundo eram horas velhas, vidas passadas, um tempo antes, o dos mansos suspiros - e nunca mais voltaria. Um sossego morto para sempre, chegara a inquietação. O solo que tremia um segundo na vida de uma pessoa tremeria para sempre.
De olhos hiantes, agarrou no seu companheiro. Já lhe via muito sangue ficado no barrote que quase lhe esmagara a cabeça. Na emo­ção e com a sua força viril, levantou-o do chão com um só gesto.
Uma dança apoderava-se das entranhas da cidade e agitava-a desde a base, das edificações faziam-se ruínas, dos telhados abriam-se crateras, dos cânticos àquela hora celebrados nas missas apoderavam-se berros dos homens e mulheres condenados.
A cidade bailava terrivelmente, sem consciência da delicadeza da vida humana e de todas as suas construções, sacudia-se pres­surosa, e enviava do centro da terra um gralhar ferino de abutres abandonados e esganados. No quarto segundo, Frei João já cor­ria para nenhures, com um defunto às costas, fugia dele mesmo, à semelhança de todos os outros, pelas ruas. Deparou-se com a aflição dos que, habitando a cidade, queriam, agora no desespero, ir o mais longe possível.
- As recordações devem ser penosas - interveio Scariage.
- Já se passaram muitos anos.
- Os relatos que chegaram a Marrocos foram deveras impressionantes. Acirrado, o vosso Deus naquele dia.
Frei João continuou em silêncio não porque ignorar aquela conversa fosse a melhor estratégia para se livrar da mesma, mas porque uma vez entrado no torvelinho daquelas reminiscências não se saía delas sem um profundo mergulho na tristeza e na miséria. Nesse recolhimento, na frieza dos pensamentos alojados em 1755, cheirou de novo o enxofre que o Tejo exalou sem pudor, o cheiro que envolveu mães a manterem filhos mortos agarrados ao peito, as fendas abertas na rua que podiam engolir cinquenta homens e os seus cavalos, os amputados que se arrastavam no silêncio constrangedor de quem percebe que perder membros é uma sorte perante tantos corpos sem vida. Ouviu os berros que gritou ao rapaz como para acordar um adormecido.
Pó levantado pelos escombros, mortos e moribundos, tantos feridos, tantos perdidos. Nem um minuto tinha passado. Quarenta igrejas na cidade e só cinco conseguiram o milagre de não desabar sobre os sacerdotes e fiéis.”


LEITURAS RETARDADAS: João Magueijo, John Nash, Jonathan Franzen, Mathieu Croissandreau e Jeremy Corbyn

1. Num artigo recente da revista «Visão», João Magueijo abordava a estranheza de muitos génios científicos terem comportamentos que tenderíamos a considerar como mais ou menos desviados em relação aos padrões normais. Como se as descobertas na Matemática ou na Física não se coadunassem com uma visão padronizada da realidade e carecesse dessa diferença para se exprimir de forma inovadora.
De entre os muitos exemplos referidos por Magueijo ressalta o do seu encontro num elevador com um estranho, que se pusera a olhá-lo fixamente durante longos minutos.
Desagradado com a experiência, que chegara a sentir como ameaçadora, Magueijo quis saber quem era aquele lunático. Logo o esclareceram: tratava-se de John Nash, o Prémio Nobel do ano anterior, que vira personificado por Russell Crowe num filme de referência sobre a sua teoria dos jogos.
O texto de Magueijo é uma boa demonstração sobre os juízos apressados que tantas vezes tendemos a formular a respeito de quem nos parece tão diferente do costume…
2. Aos 56 anos de idade, Jonathan Franzen é considerado o grande romancista americano, com títulos como «Correções» (2001) e «Liberdade» (2010).
Stephen Amidon escreveu agora um texto sobre a publicação do quinto romance do autor, «Purity», que foi assim lido pelo crítico: “Há um homicídio, a busca de uma filha pelo pai, computadores pirateados, uma arma nuclear em parte incerta ou um casamento tóxico.”
O que mais atiça a nossa curiosidade nos seus livros são as indignações a respeito de o Google ter um registo completo de tudo o que pesquisámos nos últimos oito anos ou de serem guardados pela NSA todos os dados das comunicações, que fizemos.
Vivemos num mundo em que somos permanentemente vigiados e Franzen faz-se arauto das nossas inquietações para com tal realidade…

3. No “L’Obs” surge uma crónica de Mathieu Croissandreau em que ele constata o paradoxo de defendermos a liberdade de circulação de mercadorias e serviços e, depois, colocarmos muros e exércitos a impedir a livre circulação das pessoas. Tanto mais que elas foram protagonistas de esforços épicos ao percorrerem milhares de quilómetros e venceram perigos inconfessáveis desde as suas terras até ao prometido El Dorado.  Tendo como único objetivo o conseguirem sobreviver…
Hoje existem 60 milhões de deslocados nas zonas do conflito, do Próximo ao Médio Oriente, do Afeganistão à Ucrânia. E é bem provável já estarem em preparação novos fluxos migratórios…
4. O susto que vai por essa Europa a respeito da chegada de Jeremy Corbyn à liderança do Partido Trabalhista inglês.
Blair previu o fim do histórico partido operário britânico e Cameron já o considera uma ameaça à Segurança Nacional.
Eu que sou um inveterado otimista, vejo nessa eleição - a par do Syriza ou do Podemos - a consagração de novas formas de fazer política, que sacudam a cinzentude letárgica da máquina burocrática de todos os membros da União Europeia. E o pré-anúncio de uma esquerda emergente, que rejeite o sentimento de vergonha por ser socialista, tanto mais que o capitalismo austeritário dá sinais de não conseguir o relançamento do crescimento económico sem o qual já lhe podemos encomendar a extrema-unção...

terça-feira, setembro 15, 2015

SONORIDADES: A Liberdade é a senha

No domingo passado, durante o jantar, que se seguiu a mais um Conversas na Praça com o Professor Sampaio da Nóvoa, vários cantores assumiram o seu apoio à Candidatura e deram-lhe substância com vários temas musicais. Um deles foi Carlos Alberto Moniz que, entre outras excelentes canções, estreou uma, muito bela, da sua coautoria com José Jorge Letria, e pensada para ilustrar musicalmente esta árdua, mas entusiasmante caminhada até à vitória. 

sábado, setembro 12, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: Dennis Hopper e as inacreditáveis histórias em torno de «Easy Rider»

Dennis Hopper nasceu em 17 de maio de 1936 em Dodge City. O pai era merceeiro, mas, quatro anos depois, desapareceu numa missão de espionagem na Ásia, quando trabalhava para a OSS. Ao reaparecer, anos depois, suscitou no filho um efeito alucinatório, já que todos o tinham dado como morto.
A mãe de Dennis dirigia as piscinas municipais e nunca se calava. Da sua boca saía continuamente uma enxurrada inesgotável de palavras. Por isso o rapaz ia buscar sossego à quinta do avô onde podia cheirar à vontade os vapores de combustível dos tratores ali existentes.
“ Eu detestava os meus pais”, diria o ator ao longo de toda a sua vida.
Aos treze anos decide ser ator ao apaixonar-se perdidamente por Leslie Caron. No entretanto vai ganhando uns trocos a distribuir anuários. Mas não tardará a integrar o elenco de «Fúria de Viver», onde tem uma relação tórrida com Natalie Wood - que ora estava na sua cama, ora na do realizador, Nicholas Ray -, e começa a experimentar peyotl.
Após a rodagem de alguns westerns  Hopper ingressa no Actor’s Studio e aspira reciclar-se em pintor modernista: cobre o estúdio de alcatrão e ingere mescalina em quantidades industriais: casa por essa altura com Brooke Hayward, filha da atriz Margaret O’Sullivan, e inicia a criação da sua invejável pinacoteca, quase toda composta por arte contemporânea, ao comprar quadros a Frank Stella e a Roy Lichtenstein. Mas também compra kalachnikovs, espingardas e pistolas.
Orgulha-se nessa época de gastar anualmente mais dinheiro em droga do que constaria no PIB de alguns países africanos. É nesse estado de alma, que chega ao momento culminante da sua carreira artística: a rodagem de «Easy Rider».
Há muitas histórias sobre o ambiente da rodagem do filme, que parecem inacreditáveis: como a de parar tudo para ele discursar aos atores e aos técnicos sobre a iminente Revolução, concluindo tal intervalo com vários tiros para o ar. Ou quando contratou um gang de motociclistas - os Hell’s Bikeroos - para algumas das cenas do filme e eles desapareceram com as motas dos atores.
Na versão inicial o filme durava quatro horas, mas Peter Fonda encarrega-se de fazer uma montagem com apenas 94 minutos. E, na estreia, em julho de 1969, converte-se num enorme sucesso. 

sexta-feira, setembro 11, 2015

DIÁRIO DE LEITURAS: Uma sociedade sem crescimento?

Daniel Cohen é um reputado economista francês, professor na prestigiada École Normale Supérieur e autor de dois ensaios de referência: «A Prosperidade do Vício» e «Homo Economicus».
Na semana passada ele publicou um novo ensaio com um título mais do que inspirado: «Le Monde Est Clos et le Désir est Infini». O que significa vivermos num mundo fechado, mas onde os desejos são infinitos.
Numa entrevista ao «L’Obs»  ele confessa ter-se baseado num título semelhante de Alexandre Koyré em que o filósofo, desaparecido nos anos sessenta, refletia sobre a evolução do mundo fechado, concetualizado na Antiguidade e na Idade Média, para o universo infinito anunciado por Galileu e traduzido na imposição da ideia de progresso e na negação mais ou menos explicita da existência de Deus.
Descartes anunciava, então, a capacidade do Homem em dominar e fazer sua a Natureza.
Essa perceção durou até ao fim dos Trinta Anos Gloriosos, quando começou a verificar-se o declínio do degenerescente mundo industrial. Sabíamo-nos num pequeno planeta na periferia de um universo sem fim e com uma Revolução Industrial a impulsionar a ideia de crescimento perpétuo. As sociedades humanas tenderiam a potenciar a acelerada aquisição de conhecimentos na criação de riqueza em progressão quase exponencial, capaz de fazer-nos crer que cada geração viveria sempre melhor do que a anterior. E, sobretudo, em Democracia, regime que permitiria a cada cidadão evoluir na escala social.
Ora, pelo contrário, os anos mais recentes trouxeram às nossas sociedades ocidentais as consequências de sucessivas recessões ou, na melhor das hipóteses, de crescimentos medíocres da economia. Hoje deparamo-nos com um mundo, que sentimos cada vez mais exíguo.  Para Cohen essa consciência da limitação dos recursos disponíveis, está a suscitar um impacto tão radical quanto o da revolução imposta por Galileu. E traduz-se em efeitos que vão da angústia à nostalgia pelo passado, e frequentemente à xenofobia.
Para o autor é-nos exigido um esforço cultural e filosófico para aceitarmos a pequenez deste mundo saturado pela presença humana: “Em três séculos, alcançámos um nível de rendimentos por habitante, que decuplicou em relação ao auferido após a revolução agrícola. Mas bastou que o crescimento estagnasse para ver a sociedade acometida de uma dúvida quase metafísica: ‘Isto deixou de funcionar!’. Os dirigentes políticos são obrigados a prometer o regresso ao crescimento sob pena de serem atirados para o caixote do lixo. Se o crescimento não for retomado, isso equivalerá a uma segunda morte de Deus!”
Hoje vivemos a repetição do clima das guerras religiosas, com crentes para um lado e heréticos para o outro. Os pessimistas, que descreem da possibilidade de reencontrarmos o crescimento económico, inspiram-se nas ideias de Robert Gordon para quem a revolução digital só trouxe como novidade o fascínio por alguns gadgets: os smartphones, as tablets e, em breve, os frigoríficos diretamente ligados ao supermercado.
Em menos de dez anos todas essas invenções conquistaram as nossas sociedades, cujos membros quase os passaram a sentir como indispensáveis. Mas Gordon alerta para o facto de tal revolução não criar o impacto económico equivalente ao da utilização intensiva dos recursos petrolíferos e da eletricidade.
Pelo contrário, os otimistas anunciam um homem novo melhorado pela genética, pela inteligência artificial , pela robótica e pelas nanotecnologias. Com a internet, com as redes sociais e com os motores de pesquisa o mundo conheceu uma evolução abrupta. A informação tornou-se abundante e disponível, mas os índices de crescimento económico foram-se retraindo.
“Estamos comprometidos no que designo como uma revolução industrial sem crescimento. O processo de digitalização da sociedade não conhece limites e todas as tarefas estão ameaçadas. Um dos meus alunos no curso de Informática dizia-me: ‘se repete a forma de fazer o mesmo trabalho, justifica-se que pensemos no programa capaz de o executar.’ A diferença fundamental com a precedente revolução industrial está nesta constatação: o software executa as tarefas e condena ao desemprego os que o faziam.” E não há forma possível de recuperar o volume de trabalho anteriormente existente.

terça-feira, setembro 08, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: O último dia da vida de Yitzhak Rabin

No mesmo dia em que surgiu a notícia da morte da jovem professora palestiniana, de 27 anos, que se encontrava hospitalizada há várias semanas após um atentado sinistro da extrema-direita israelita, que já lhe levara o marido e um dos filhos, foi apresentado em Veneza o mais recente filme de Amos Gitai, dedicado ao último dia na vida de Yitzhak Rabin.
Façamos o tempo regressar a vinte anos atrás: então, por esta altura e sob o beneplácito de Bill Clinton, Rabin e Arafat estavam a abrir uma janela de oportunidade para a existência de dois Estados onde hoje só existe um, Israel, e os territórios ilegitimamente conquistados depois das guerras de 1967 e 1973.
Sempre considerei um paradoxo o facto de um dos povos mais martirizados no século XX ter-se convertido num dos mais opressores do século XXI.
Gitai demonstra que não tinha de ser assim: havia uma alternativa que viria a ser estilhaçada por um fanático ao assassinar Rabin em 4 de novembro de 1995.
Rejeitando qualquer teoria da conspiração Amos Gitai coloca uma tese pertinente: o extremismo religioso serve de idiota útil a uma direita aparentemente civilizada, mas apostada em conseguir os seus fins custe o que custar. E lá surgem precisamente manifestações de há vinte anos, quando Netanyahu proclamava a sua discordância contra os Acordos de Oslo e, na assistência, viam-se cartazes a pedir a morte de Rabin.
Foi uma questão de poucas semanas: Rabin acabaria assassinado e, vinte anos e muitos milhares de mortes depois, o Médio Oriente continua a ferro e fogo. 

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «Dheepan» de Jacques Audiard

No último festival de Cannes, o júri, presidido pelos irmãos Coen, deu a este sétimo filme de Jacques Audiard a Palma de Ouro, muito embora ele não tenha argumentos bastantes para merecer tal distinção. Mas o tema dos refugiados está na ordem do dia e o prémio terá sido politicamente útil a fim de o colocar em maior amplitude de discussão.
À partida temos um trio de cingaleses da etnia tâmil, que foi chacinada em 2009 pela ditadura instalada em Colombo. Embora aparentem ser uma família este homem, esta mulher e essa miúda de nove anos não se conheciam no momento de deixarem o seu país. Apenas por conveniência para melhor serem reconhecidos como refugiados é que simulam o parentesco.
Veem-se então instalados num subúrbio da capital, onde o homem logo arranja emprego como porteiro de um prédio. Por seu lado, a mulher arranja sustento como empregada doméstica e a criança frequenta uma turma especial na escola.
A aprendizagem acelerada é feita de muitos momentos de satisfação, à mistura com outros de medo. E a câmara deixa-nos vaguear através da perspetiva dos seus olhares perscrutadores. É aí que o filme revela a sua singularidade, ao mesmo tempo que vai surgindo a empatia sentimental entre a mulher e o homem, que veem um no outro a resposta para as respetivas solidões.
O problema reside no mafioso, que domina o bairro. E surge, então, a inevitável violência… com o antigo guerrilheiro a recorrer à experiência de guerra para assegurar a sobrevivência da família, subitamente ameaçada por quem a pretendia subjugar... 

segunda-feira, setembro 07, 2015

DIÁRIO DE LEITURAS: Um boicote justificado

Por estes dias o mundo livreiro está a ser sacudido pelo lançamento do quarto volume da série «Millenium» um pouco por todo o lado.
A tradução portuguesa ainda não está disponível, mas decerto não tardará, já que também por estas bandas fez sucesso a trilogia escrita por Stieg Larsson antes de ser acometido de um ataque cardíaco fulminante no sexto andar do seu prédio em Estocolmo.
Pessoalmente, embora a leitura das primeiras páginas desta sequela - facultadas na edição desta semana do «L’ Obs» - me tenha despertado algum interesse, assumo uma posição de princípio contra ela: é que vai beneficiar uma vez mais os  herdeiros oficiais de Larsson - com quem ele tinha conhecidas desavenças! - e não a sua companheira durante trinta e dois anos, essa Eva Gabrielsson, que seria espoliada dos seus legítimos direitos sucessórios por nunca ter oficializado a união de facto com o escritor. Ela ficou privada, sobretudo, do direito moral de aceitar ou não, que a história prosseguisse por outro autor.
Confesso-me, pois, de acordo com a maioria da intelectualidade sueca, que apela ao boicote deste quarto volume. Mesmo que David Lagercrantz tenha respeitado a tónica dos romances escritos por Larsson no respeitante à revolta contra as injustiças e as mentiras, defendendo o direito à transparência dos comportamentos políticos.
Se Lagercrantz pretendia abordar a temática da inquietante espionagem das nossas vidas a partir dos servidores da NSA não precisava de se valer de Lisbeth Salander. Mas quase por certo não alcançaria os milhões de exemplares, que conta vender á conta da vampirização dos personagens do predecessor.
Por engenhosa e bem escrita, que seja esta versão, ela significa uma despudorada estratégia de embolsar ilegitimamente fortunas à conta de quem contra elas muito porfiava.

domingo, setembro 06, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: A rapariga dinamarquesa

Tenho-o escrito: desconfio sempre das supostas «very true stories». E, no caso deste «The Danish Girl» - que está a constituir o grande acontecimento no Festival de Veneza  - até se complementa essa desconfiança com o facto de ser assinado por Tom Hooper, cujo oscarizado «O Discurso do Rei» me entediou. Mas, olhando para este trailer em que Eddie Redmayne parece igual a si mesmo e em que Alicia Vikander surge como novidade a descobrir, sinto curiosidade em relação a esta história sobre um homem em quem a mulher, pintora, descortina um lado feminino, que se revelará avassalador.
Numa altura em que só os mais primários considerarão existir géneros absolutamente diferenciados em função da respetiva genitália, o filme de Hooper vem-se constituir como um título de referência sempre que se abordar a questão transgender. 

sábado, setembro 05, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: a legenda que nos faz sempre temer o pior!

Se tivesse ido ver «O Pátio das Cantigas» na versão pimba de Leonel Vieira, não teria dificuldade nenhuma em escolher o pior filme visto em 2015.  Ao entrarmos no último terço do ano já não tenho muitas oportunidades para fazer uma escolha incontestada! Mas este «The Railway Man» é, igualmente, um bom candidato.
Começa por parecer um filme daqueles muito «romântxicos» como as brasileiras mais piegas costumam adorar. A referência ao «Breve Encontro» de David Lean faz todo o sentido, porque , mesmo não sendo numa estação ferroviária, Eric e Patti enamoram-se um do outro num comboio.
Mas depressa a história descamba para o melodrama com o protagonista a mostrar-se impotente perante os traumas contraídos em ambiente de guerra. É a altura em que voltamos a ter pena da pobre da Kidman, que anda sempre fadada para estas histórias rocambolescas sobre amores com tudo para dar certo, mas a penderem para o incontornável fracasso.
Surge então outra mudança: para que fiquemos inteirados dos problemas de Eric temos um longo flash back para uma recriação de «A Ponte Sobre o Rio Kwai». Com japoneses piores que as cobras e ocidentais a sofrerem agressões brutais.
Quando tudo parecia tender para um inevitável impasse, o inglês vai à procura do seu principal torturador e acaba aos abraços comovidos, porque o japonês confessa-se arrependido.
Temos, assim, um final vomitativo de tão xaroposo!
Balanço final: eu já devia ter aprendido a lição sobre ao que ia, porque tudo se iniciava com a legenda do costume: baseado “in a very true story”.
Quando ela aparece é sempre de temer o pior... 

DIÁRIO DE LEITURAS: «Os Extremos» de Christopher Priest (4)

Estamos a chegar ao fim do romance de Christopher Priest, que tem por tema as vicissitudes de uma agente do FBI, quando tenta buscar explicação sobre a morte do conjugue a muitos milhares de quilómetros da pequena cidade texana onde ele fora alvejado.
Em Bulverton, na Inglaterra, ela encontrou estranhas coincidências entre o sucedido com Andy e um caso de homicídio ali verificado no mesmo dia do ano anterior. Por isso, recorrendo à ExEx, empresa, que proporciona experiências virtuais de crimes, como se eles pusessem voltar a ser revividos, ela conseguiu entrar na cabeça do criminoso. Mas se tinha alguma ilusão em fazer recuar o tempo até ao momento anterior em que ele começara a disparar aleatoriamente contra as suas vítimas, depressa concluiria ser impossível: “Grove era um obsessivo, um maníaco capaz de se concentrar numa coisa a qualquer momento. (…) Concentrado num só objetivo como estava, já não era possível influenciá-lo ou distrai-lo. Teresa, uma passageira na mente dele, estava entregue a um mundo de apreensão, nojo e preocupação à medida que Grove  tomava conta do cenário”. (…) “Grove tinha sido impelido não pelo ódio, não pela cólera, nem mesmo pela loucura, era pura e simples determinação concentrada.
Só no final, quando a sua obsessão começou a diminuir, é que ficou menos fixado, foi nessa altura que foi cercado pela polícia e que a sua fúria assassina chegou ao fim.” (pág. 268)
As surpresas irão ser ainda maiores quando Teresa sai do edifício da ExEx: “ esta não era a realidade que tinha deixado. Agora estava no verão; nas ruas da cidade as pessoas deviam conduzir com as janelas abertas, com os tetos de abrir puxados e com a ventoinhas de arrefecimento ineficazmente ligadas. (…) Um sol assim não havia no Inverno britânico, onde ela tinha acordado, guiado o carro, corrido, sacudido o blusão, ainda mesmo nessa manhã”. (pág. 275)
Sem conseguir compreender como, Teresa vê-se no cenário em que Grove não tardaria a cometer os seus crimes. Por isso, volta a entrar na ExEx e tenta retomar a experiência virtual.  É aí que voltará a encontrar Andy ainda vivo, ameaçado por um psicopata chamado Aronwitz, que não é senão uma réplica idêntica do Grove que, estava simultaneamente a matara milhares de quilómetros daquele cenário texano.
Ela consegue intrometer-se no fio condutor da história, salvando o marido, mas o preço de tal bravata será o de ficar definitivamente enclausurada com ele naquele cenário virtual.
Ao fecharmos o livro, lida a última página, ficam questões pertinentes sobre as fronteiras do mundo virtual, que os computadores nos facultaram. E até que ponto não estaremos em vias de, a exemplo das drogas duras, arriscarmos a negação da realidade por outra inteiramente fabricada?