domingo, agosto 16, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «Womb» de Benedek Fliegauf

Uma das séries televisivas, que segui com maior interesse nos últimos tempos foi «Penny Dreadful», pela forma inteligente de conciliar no mesmo ambiente gótico, as personagens de Frankenstein, Dorian Gray e outras relacionadas com o vampirismo ou a bruxaria.
Até então passara-me ao lado a carreira de Eva Green como atriz, apesar de andar a figurar em genéricos de filmes desde 2003.
«Womb» foi um dos filmes por ela protagonizados e resulta de uma coprodução franco-húngaro-alemã, que procura responder a esta questão: deve-se clonar um ente querido que se tenha perdido? A resposta está nesta variante inquietante sobre o tema sempre atual do amor eterno.
Temos, assim, Rebecca e Thomas, que adoram-se e se sentem inseparáveis. Até ao dia em que a rapariga tem de acompanhar a mãe para a nova casa de ambas no Japão.
Doze anos depois, Rebecca regressa à Europa e reencontra Thomas, por quem volta a sentir, de imediato, o renascer da paixão.
Ele anda, então, envolvido na militância contra o uso antiético das biotecnologias, razão para a levar à inauguração de um parque zoológico, onde os animais são todos clones. É aí que, num acidente, ele perde a vida.
Devastada por esse acontecimento, Rebecca pede para ser impregnada com o ADN dele. Um processo de clonagem, que a engravida de quem amou... 

sábado, agosto 15, 2015

ESTÓRIAS DA HISTÓRIA: Gertrude Caton-Thompson e o Grande Zimbabwe (1)

Que poderia ela fazer, quando até os elementos pareciam  opor-se aos seus planos?
Ao olhar pela janela do hotel, Gertrude teve uma melhor noção da devastação, que transformara num caos a cidade da Beira.
O ciclone destruíra casas, derrubara árvores e afundara muitos dos barcos fundeados, ou atracados na baía.
E, no entanto, ela sentia cada segundo a ecoar dentro de si, lembrando-lhe o prazo muito curto com que se comprometera para cumprir o trabalho encomendado pela Fundação. Pretendiam que esclarecesse de vez quem estivera na origem das construções de que sobravam impressionantes ruínas no Grande Zimbabwe.
Não era, porém, a primeira vez, que Gertrude se sentia em dificuldades, em aparência, insuperáveis. A maior tinha sido, quando chegara de França a notícia da morte do noivo numa emboscada. Ela, que se imaginara numa vida agradável a cuidar da família numa mansão do Sussex, vira nessa carta  o ruir de todas as suas aspirações românticas.
Depois, mais recentemente no Egito, quando se desentendera com Flinders Petrie, quanto aos métodos de escavação e à interpretação dada aos vestígios de Abydos.
“Nunca mais vais conseguir trabalhar como arqueóloga!”, vaticinara-lhe aquele que fora o patrono na atividade, que se convertera na sua paixão. E ela provara-lhe, entretanto, que poderia singrar por sua própria conta, sem voltar a necessitar de quem lhe servisse de caução científica.
Agora estava decidida a seguir em frente. Diziam-lhe que as estradas para Salisbúria estavam convertidas em lama e os rios em violentas enxurradas?
Viesse lá o primeiro a querer provar-lhe que a poderiam impedir de alcançar o que pretendia!

sexta-feira, agosto 14, 2015

PLANOS CRUZADOS: Já me estragaram o doce!

A notícia da apresentação da ópera de Rufus Wainwright, «Prima Donna», tinha todos os argumentos para me entusiasmar e motivar a presença no Auditório Um da Gulbenkian no dia 26 de novembro.
Trata-se de uma obra composta por um artista multifacetado, cujo percurso venho seguido com interesse, com Maria Callas como personagem a homenagear e a curiosidade palpitante de ter a fotógrafa Cindy Sherman - um dos nomes fundamentais da arte contemporânea! - a interpretá-la.
O problema é que, para dirigir a orquestra estará lá Joana Carneiro, cujas “qualidades” de maestrina me irritam. O seu hábito de passar o tempo aos pulinhos perante os vários naipes de músicos tem o condão de me distrair do que mais importa: a sonoridade deles obtida. Daí que, há já algum tempo, evite espetáculos em que ela seja uma das figuras de cartaz.
Por isso prefiro esperar que «Prima Donna» surja no canal Mezzo, ou no Arte, e dirigida por maestro, que garanta a necessária sobriedade exigível a uma direção de orquestra competente!
No link aqui proposto para o You Tube fica um petit apéro com a soprano Sarah Fox a interpretar uma das árias, que virá a ser entoada por Cindy Sherman. 

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «O Capitão Köpenick» de Helmut Käutner (1956)

Agora que anda por aí o primeiro dos três filmes, que Leonel Vieira quer fazer numa lógica de remakes de títulos de referência do cinema do Estado Novo, não é despicienda a oportunidade de conhecer um fenómeno popular da cinematografia germânica, que já deu origem a pelo menos dez outros filmes: a sátira à administração pública prussiana protagonizada pelo falso capitão Köpenick.
O verdadeiro nome do personagem é Wilhelm Voigt e possui um vasto cadastro suscitado por crimes relativamente menores.
Enquanto esteve preso, e graças aos livros atentamente lidos, aprendeu o ofício de sapateiro. O problema, que se lhe coloca à saída da prisão é, porém, daqueles a que nos habituámos a colar a etiqueta hipergasta de “kafkiano”: sem documentos, ninguém lhe dá trabalho, mas sem trabalho, não há quem lhe aprove os papéis.
Disfarçado de oficial, e com a ajuda de uns quantos soldados, ele ocupa a câmara municipal de Berlin-Köpenick, prende o autarca e apossa-se do cofre.
Inspirado em acontecimentos reais o filme representou um enorme êxito, celebrando o espírito irreverente de um delinquente simpático.
Heinz Rühmann, o ator principal, era um verdadeiro ídolo para os espectadores de cinema dos anos 50.

DIÁRIO DE LEITURAS: Os Bundren em luta com a água e com o fogo

Em texto anterior vimos como «Na Minha Morte» veio a tornar-se num dos mais importantes romances de William Faulkner, abordando a viagem de uma família camponesa com o cadáver da mãe, Addie, que pretendia ver-se sepultada na terra onde nascera.
Os Bundren vão enfrentar dois desafios no percurso para Jefferson: a água e o fogo, de que Addie tivera o pressentimento em como Jewel a salvaria. Ou melhor, ao seu caixão! Porque essa não é  a menor particularidade provocadora do romance, narrado em cinquenta e nove monólogos separados, cada um intitulado com o nome de um personagem.
O de Addie acontece bem depois da sua morte, no centro do livro, como se se tratasse do centro da roda da carroça que a transporta, e os filhos servissem de raios.
Esta disposição encontra justificação no facto de um dos temas do livro ser a solidão de cada um face àquilo que vivencia. De facto, cada membro da família  tem uma razão secreta, e fútil, para chegar a Jefferson: o pai para adquirir uma cremalheira, a filha para abortar, o mais novo para comer bananas.
Dessa forma todas as conversas, episódios e descrições são assinaladas - pré-selecionadas e deformadas - por um personagem e aquela que terá maior predominância será Darl, o vidente semilouco, que causará o incêndio da granja onde a família para, após a fatigante travessia do rio, e por isso se vê enviado para o manicómio. Faulkner dá-lhe uma visão e um linguajar poético, onde abundam os «como se…» tão do agrado dos simbolistas anglo-saxónicos (em contraponto com a fala das almas simples, Dewey Dell e Vardaman, caracterizada pela substituição do «porque» pelo «que»).

Extrato:
Pouco antes da madrugada a chuva pára. Mas ainda não é dia quando o Cash crava o último prego, se põe muito direito a olhar para o caixão já pronto e os outros a olhar para ele. À luz da lanterna o seu rosto está calmo, pensativo; limpa as mãos devagar às coxas cobertas com o impermeável num gesto deliberado, terminal e contido.
Depois, os quatro - o Cash, o pai, o Vernon e o Peabody - põem o caixão aos ombros e viram em direcção à casa. Está leve, mas avançam devagar; vazio, mas carregam-no com cuidado; sem vida, mas vão troeando entre eles palavras sussurradas, precavidas, falando dele como se, uma vez pronto, dormitasse agora em suspensa animação, aguardando o momento de acordar. Os pés batem no chão escuro, pesados, desen­contrados, como se há muito não pisassem o soalho.

quarta-feira, agosto 12, 2015

COSMOS: Uma salada espacial

Uma das notícias mais interessantes desta silly season foi a da primeira refeição confecionada com vegetais plantados e desenvolvidos a bordo da Estação Espacial Internacional.
Vimos assim, em primeira mão, a concretização de uma cena comum nos filmes de ficção científica em que as longas viagens interestelares pressupunham a existência de pomares e hortas a bordo. Astronautas convertidos em jardineiros, eis uma excelente solução para obviar aos efeitos psicológicos de confinamentos prolongados em espaços restritos.
Embora se trate ainda de um pequeno passo  - convenhamos que a alface degustada pelos três astronautas não era, pelo menos visualmente, muito convincente -, abrem-se agora expetativas para a concretização de projetos tripulados mais ambiciosos do que os verificados com as missões Apollo.
Marte é o primeiro alvo de uma conquista espacial, que tem-se revelado menos acelerada do que prevíamos no início dos anos 70, mas cujo imperativo se colocará à Humanidade no longo prazo.
Para já foi possível comprovar a possibilidade de substituir a fotossíntese natural por uma articulação de incidências luminosas nas frequências mais favoráveis ao crescimento dos vegetais. E essa é uma descoberta científica com um espectro de aplicação que não se restringirá ao espaço... 

terça-feira, agosto 11, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «Bella e Perduta» de Pietro Marcello

Está a decorrer atualmente o festival de cinema de Locarno, donde o enviado do «Público», Jorge Mourinha, tem assinado crónicas dececionadas pela qualidade mitigada dos filmes a concurso. 
Até que surgiu  «Bella e Perduta» do italiano Pietro Marcello, e tudo mudou: a exemplo dos demais críticos presentes na cidade suíça, Mourinha confessa um enorme fascínio por esse filme, misto de ficção e de documentário, que retrata o esforço quixotesco de um camponês em salvar da ruína o palácio rural de Cardinello. Mesmo contra as ordens da Camorra, que o quereria longe dali.
Trata-se de um esforço notável, mas tragicamente cerceado: no dia de Natal de 2013, Tommaso Cestrone sucumbia a um enfarte, aos 48 anos de idade.
Os críticos consideraram «Bella e perduta» comovedor e um forte candidato a filme do ano.
Por cá nós não deveremos ter grande possibilidade de o ver: quando por cá passou o filme anterior de Marcello foi no Festival Indie de 2009 e não teve direito a mais do que duas sessões. Mas vale a pena ficar alerta para aquele que se anuncia como um dos títulos mais entusiasmantes de quantos têm sido recentemente produzidos. 

segunda-feira, agosto 10, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «Que estranho chamar-se Federico» de Ettore Scola

Eu sou um impenitente admirador da obra de Federico Fellini.
«Amarcord» foi o que mais me deslumbrou e melhor ficou registado na memória, mas tantos outros - «La Doce Vita», «8 1/2», «La nave va», «La Strada» ou «Roma» - merecem ser vistos e revistos para nos rendermos ao fascínio de uma realidade imaginária, muito diferente da que lhe serve de modelo.
Ao passarem-se vinte anos sobre a morte do «maestro», Ettore Scole interrompeu a bem merecida reforma e realizou esta homenagem ao amigo com que partilhara tantas vivências e projetos.
Em vez de optar pela lógica dos documentários hagiográficos, Scola decidiu ficcionar o percurso do biografado, recorrendo a atores. Um deles, o narrador do filme, remete para um personagem semelhante, que nos servira de cicerone pelas memórias de Rimini no tal filme meu preferido. Aquele em que a Gradisca vai partindo corações adolescentes e o tio do protagonista foge para cima de uma árvore a exigir que lhe arranjem “una donna”.
Há também a música. Normalmente composta por Nino Rota, ganhava quase estatuto de personagem na maioria dos filmes de Fellini. Por isso Scola, ora a cita literalmente, ora encomendou novas composições, que não teríamos dificuldade em associá-las àquele compositor, se não soubéssemos da sua condição de original.
Talvez não se justificasse a importância atribuída à revista juvenil de banda desenhada onde Fellini e Scola colaboraram antes de se porem a fazer cinema. Mas se esse argumento de cumplicidade com o seu homenageado é tão valorizado por Scola, quem somos nós para contestá-lo?
O argumento evolui cronologicamente, mas com alguns saltos para diante e outros para trás, que não dificultam a perceção da mensagem, por muito que ela seja preferencialmente apreendida pelos conhecedores da obra felliniana. Porque Ettore Scola vai-se multiplicando em piscadelas de olho ao espectador, incentivando-o a associar cada cena à que lhe correspondia num dos muitos filmes do realizador.
Cinema muito imaginativo, podemos reconhecer em Fellini a ausência de uma crítica social e de uma denúncia das desigualdades expostas implicitamente nos seus vários títulos. Mas, mais preocupado na utilização dos muitos estereótipos descobertos durante os seus passeios pelas madrugadas insones, enquanto percorria a cidade deserta e a dar boleia a gente estranha, Fellini nunca parece ter-se preocupado com as desigualdades de rendimentos, com as mensagens papais ou com a vacuidade dos discursos do poder.
Há, porém, algo que o torna único: o estranho dom de suscitar a rendição encantatória dos seus espectadores... 

domingo, agosto 09, 2015

SONORIDADES: «Clari», uma ópera de Jacques Fromental Halévy

No castelo do duque prepara-se o aniversário da jovem e bela Clari. Contra a vontade dos pais da jovem, o duque atraiu a si a jovem camponesa a quem prometeu casamento. Mas, por comodidade, ele apresenta-a como prima aos amigos e conhecidos.
Com Bettina e Luca, Germano monta uma peça em honra de Clari, a pretexto do seu aniversário, que deverá também receber valiosos presentes do amante. Não admira que a encontremos fascinada pelo mundo de sonho em que mergulhou. Ainda que o duque tarde em concretizar a legalização da relação entre ambos.
Com o início da representação Clari vê ali ilustrada a sua própria história: uma filha de camponeses chamada Adina, e interpretada por Bettina, é conduzida a um castelo por um conde a quem Germano dá a voz. O pai amaldiçoa-a e ela descobre no aristocrata um mentiroso.
Clari desmaia ao ver-se assim retratada e, ao despertar, tem o Conde a azucriná-la por tê-lo coberto de ridículo perante os amigos. O casamento passa a estar fora de questão.
Clari foge do castelo pela calada da noite, deixando ao amante uma carta anunciando a decisão de se suicidar.
O pânico instala-se: imaginando-se sem Clari, o Conde manda procura-la e ele próprio vai à casa do pai dela, ciente de ser ali uma das fortes possibilidades de a encontrar.
E, de facto, Clari está ali a enfrentar a ira do progenitor, que rejeita perdoá-la. Porém, com a chegada do Conde e o compromisso para o imediato casamento, a ópera de Rossini acaba num happy end. 

sábado, agosto 08, 2015

DIÁRIO DE LEITURAS: Mulheres desfasadas

Prosseguimos hoje a abordagem dos contos de Alice Munro  inseridos na coletânea «O Progresso do Amor». Hoje revisitamos três deles !
No primeiro, «Círculo da Oração» temos Trudy a chegar a casa, depois de mais um turno no Asilo de Adultos Doentes Mentais, e constata que a filha, Robin, roubara o colar da avó guardado no jarro, que Dan fizera quando frequentara o curso de olaria.
Este último abandonara a mulher e a filha, trocando-as por uma jovem já com três filhos pequenos, mas ainda apostada em estudar Direito.
É claro que Trudy pressente a motivação da filha: a exemplo das colegas, pretenderia colocar a joia no caixão de Tracy Lee, a colega de escola, a quem a inconstância dos 14 ou 15 anos a levara a meter-se no camião do namorado da irmã para, com ele, chocar contra uma árvore.
“A única coisa que quero é saber porque fizeste isso. Foi apenas para te exibires? Como o teu pai - por exibicionismo? Não é tanto pelo colar. Embora fosse lindíssimo - eu adoro contas de azeviche. Era o único objeto que tínhamos da tua avó!” (pág. 266)
Temos, pois, um contexto familiar periclitante, adolescentes a crescerem demasiado depressa e um paliativo fútil como única solução disponível: o tal Círculo da Oração, que dá nome ao conto.
Mas a insatisfação pode optar por outras soluções, como é exemplo o adultério no conto «Refugo Branco». Nele encontramos  Denise que, uma ou duas vezes por ano, vem de Toronto para visitar o pai e a madrasta e, sobretudo, afastar-se por uns dias da insatisfação dos seus dias passados a trabalhar num centro para mulheres vítimas de maus tratos.
“O seu namorado, um marxista bem disposto, oriundo das Caraíbas diz que os velhos que triunfaram numa sociedade industrial capitalista representam o puro mal. (pág. 275)
É, pois, por desfastio, que acaba por se entregar a outro homem.
A insatisfação das personagens femininas pelos conjugues ou pelos amantes, também encontra eco noutro conto, «Esquimó». Nele encontramos Mary Jo, uma secretária que voa a caminho do Tahiti para usufruir a prenda do amante e patrão, o dr. Stratter. Que nem sequer a consultara a respeito da prenda de Natal com que a brindara. Porque é outra a vontade dela: “apetecia-lhe tudo menos partir.(…) Ela adora o consultório, adora a sala de espera, as luzes acesas nas tardes geladas e sombrias; adora os reptos e a monotonia do seu emprego. Às vezes, no final do dia, o dr. Streeter vem ter consigo ao andar de cima; ela faz o jantar e ele fica parte da noite…”(pág. 196)
Atenta ao que se passa em redor, Mary Jo estranha ver no outro lado da coxia uma jovem esquimó, que parece contrariada. E logo a imagina vítima de abusos sexuais  por parte do homem mais velho, que a acompanha.
Embora Alice Munro o não diga, pressente-se que Mary Jo repudia no que vê a sua própria relação com o dr. Stretter. Razão para a querer ajudar. Mas, quando a tal se decide, vê a rapariga afastar-se aos beijos intensos com o seu acompanhante.
Convenhamos que as protagonistas das histórias de Alice Munro vivem desfasadas da realidade que as cerca.

quinta-feira, agosto 06, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «Trop belle pour toi» de Bertrand Blier

O que nos faz amar alguém?
No ano em que o muro de Berlim foi derrubado e se colocaram todas as questões, essa era apenas mais uma que motivava a atenção de muita gente. Tanta que «Trop Belle Pour Toi» de Bertrand Blier ganharia uma mão cheia de Césares, quando esta imitação do Óscar de Hollywood começava a consolidar a sua relevância. E não lhe faltou, igualmente, o Grande Prémio do Júri do Festival de Cannes.
Na época Gérard Depardieu ainda não se tinha encanastrado tanto, quanto viria depois a tornar-se. E Carole Bouquet era uma das mais belas atrizes francesas, pelo menos o bastante para depois vir a ser uma Bond girl.
O argumento impunha a questão inicial através do personagem Bernard, que surgia como o patrão de um importante stand da BMW numa cidade do sul de França.
O espaço geográfico feito de sol, praias acolhedoras e reduto de lazer para endinheirados, colocava logo à partida um potencial inaproveitado quanto à implícita luta de classes em que se converteria o duelo amoroso subsequente.
Muitos dos amigos e conhecidos de Bernard invejavam-lhe a sorte de ter casado com a soberba Florence, mas não podiam imaginar que ele iria apaixonar-se, quase ao nível da paixão doentia, por Colette, uma escriturária temporariamente recrutada para a empresa, e cujo aspeto físico contrastava totalmente com a mulher do patrão. Será grande a surpresa de quem assistirá de fora a quanto os afetos podem alcançar o patamar da irracionalidade mais extrema!
E poderia Florence ficar indiferente ao ver-se preterida nos favores afetivos do esposo? Claro que não! Como conseguiria ela entender a opção de Bernard por uma mulher de dotes tão aparentemente vulgares?
Ao personificar essa estranheza, a princípio sobranceira, e progressivamente a descambar para a sensação de humilhação, Carole Bouquet ver-se-ia contemplada com o Prémio de Melhor Atriz Principal de 1990.
A crítica entusiasmou-se com o que considerou ser uma obra-prima por mostrar, tão frontalmente, a conjugação da violência com a sensualidade da paixão.
A distância temporal relativiza os elogios de então e tende a encaminhar o filme para o reduto das obras banais sobre triângulos amorosos, que escalpelizam o amor, a cólera, a dor e o despeito.
Na realidade Bertrand Blier, que parecia então vir a ser um cineasta de referência na filmografia contemporânea, nunca mais assinou obra de mérito incontestável, acomodando-se ao papel de realizador de filmes mais ou menos comerciais e com algumas pretensões de atingir a tal «qualidade francesa», que, em tempos, se constituiu como uma marca exportável. 

DIÁRIO DE LEITURAS: «Na Minha Morte», um divertimento de William Faulkner

É talvez a obra mais célebre de Faulkner, aquela que o escritor considerou como fruto de um impulso capaz de a criar em seis semanas sem ter revisto a mínima palavra, o que é literalmente falso (de acordo com o que vemos no manuscrito), mas verdadeiro em teoria: é indubitável que se trata de uma obra preexistente antes de ter chegado à forma escrita, estando já inteiramente concebida na cabeça do escritor antes de a ter começado a verter para o papel.
Pouco antes, em 1929, fora publicada «O Som e a Fúria». É em função dessa precedente obra-prima, que se torna necessário abordar «Na Minha Morte» como se entrássemos numa capela depois de termos passado pela nave da catedral.
Temática, e sobretudo tecnicamente, a obra é uma espécie de epifenómeno, uma excrescência que nunca deveria ter chegado a escrever se não tivesse havido a perturbadora experiência da criação de «O Som e a Fúria». Isto quer dizer que, para Faulkner, não houve qualquer semelhança entre o trabalho para uma e outra obra, correspondendo «Na Minha Morte» a uma espécie de divertimento levado a eito por um virtuoso.
«Na Minha Morte» é uma pequena joia, que integra o lote das obras mais representativas do  que Faulkner conceptualizou como característico do condado de Yoknapatawpha, reencontrando-se aqui algumas personagens já conhecidas noutros seus livros, anteriores e posteriores a este.
Valéry Larbaud considerou-o um romance sobre costumes rurais impondo-se a sua leitura logo ao nível mais acessível.
De início temos a quinta de uma família de brancos pobres, situada no topo de uma colina com vista para o Mississipi e a quarenta milhas da capital do condado, Jefferson, onde Anse Bundren prometeu ir enterrar a mulher.
Addie não tarda a morrer e logo o filho mais novo, traumatizado,  a associa ao peixe que acabara de apanhar e que já cortara em bocados ensanguentados.
À cerimónia funerária comparecem os vizinhos sem se se aperceberem dos buracos escavados no caixão pelo pequeno Vardaman que aproveitara a noite para executar essa tarefa, a seu ver imprescindível para que a mãe pudesse respirar.
Como detetou Jean-Louis Barrault, Addie é a rainha, a mãe totémica. Anse, o marido, é o rei sensível e preguiçoso, que lembra um Ulisses manhoso, que aposta na compaixão alheia. Já acontecia em «O Som e a Fúria» e repete-se aqui o mesmo esquema familiar vivido por Faulkner .
Maravilhosamente bem escrito, este romance merece ser lido sem pressas, apreciando linha a linha a excelência da escrita do autor.

quarta-feira, agosto 05, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «Fatherland» de Tarryn Lee Crossman

Em março de 2015 foi estreado um documentário de Tarryn Lee Crossman, que causou séria controvérsia na África do Sul, porque mostra o quotidiano de uma dúzia de adolescentes num campo de treino da extrema-direita comandados pelo inequívoco coronel Jooste.
Vinte e um ano passados sobre o fim do apartheid, a comunidade africâner continua a não aceitar as transformações ocorridasno seu país. E criou o sonho de ter preparados, e em estado de prontidão, um conjunto de jovens já manipulados para servirem de carne para canhão às pretensões dos que jamais se quererão integrar numa comunidade multirracial.
Os jovens aliciados para aquela experiência, ou os que foram para ali mandados pelos pais - também eles segregacionistas! -, vão passar por enormes dificuldades. Porque Jooste, e os seus colaboradores, fomentam uma subcultura assente na disciplina rigorosa, na obediência aos chefes e no ódio aos negros.
A maioria deixa-se embalar nesses discursos, vendo na maioria da população sul-africana uma menoridade mental e de inteligência, em que quer acreditar. Além de muito deverem à inteligência, os negros seriam todos uns ladrões e uns violadores. Mas também sobra quem não ache nenhuma graça à queima e substituição da bandeira por outra e anseie visivelmente por ver chegados ao fim os nove dias de sacrifício. Porque o mundo mudou bem a sério e os instrutores deixaram-se ficar agarrados a um tempo em que se sentiram felizes.
Na maioria, os jovens, que testemunham para o filme as impressões das suas vivências, trazem um passado complicado atrás de si: por exemplo Deon, um dos que mais vezes surge no ecrã, anda a esconder dos pais a evidente homossexualidade reprimida. Outro esteve a consumir drogas duras até dias antes e quer agora expiar as faltas, mediante a aplicação inquestionável aos exercícios. Dois irmãos não aguentaram o sacrifício e pediram ao pai para os vir abreviar desse ensino sobre como «serem homens».
Ao fim de setenta minutos podemos interrogar-nos quanto ao número de quantos perfilham uma doutrina tão controversa. Porque, embora os sonhos de independência num pequeno território totalmente ocupado por população branca, mais pareça um sonho do que a realidade tangível, não podemos deixar de sentir alguma afinidade com quem persegue sonhos quixotescos, mesmo sabendo-os cada vez mais impossíveis de concretizar...

SONORIDADES: Amandine Beyer & Gli Incogniti

Parece ter sido um excelente concerto o que a violinista Amendine Beyer e os Gli Incogniti deram no último dia de julho no Festival da Póvoa do Varzim e que tinha por reportório obras de Corelli e de Haendel.
Segundo a crítica a  deceção esteve na soprano Raquel Andueza, que não se mostrou á altura do prestigio conseguido anteriormente como intérprete de música antiga. Aqui fica um cheirinho do que os espectadores desse concerto puderam ver e ouvir. 

terça-feira, agosto 04, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: ressuscitar a propaganda do regime

É claro que não precisei da crítica arrasadora de Luís Miguel Oliveira no «Público» para nem sequer ter encarado a possibilidade de ver «O Pátio das Cantigas». Mesmo sabendo andar por ali Miguel Guilherme a fazer de António Silva e acreditando-o capaz de ombrear em talento com o ator da versão original.
Vamos lá ao que interessa: quase todo o cinema do Estado Novo, entre 1933 e o início das guerras coloniais, foi produzido e distribuído com a intenção de distrair os portugueses da realidade das lutas de classes, quer internas (com a realidade brutal das prisões do regime, entre as quais a do tenebroso Tarrafal), quer externas (com as guerras antifascistas em Espanha e nos cenários da 2º Guerra Mundial).
Sob o comando de António Ferro e de António Lopes Ribeiro, o cinema português celebrou as virtudes do campo contra os pecados citadinos, subalternizava a mulher no seio da família, impunha a colaboração entre as classes - com os doutores a casarem com as costureirinhas -, e punha as criancinhas a recato sob um cartaz com o nome do ditador.
Conseguiam ter piada? Alguma, nos casos mais bem conseguidos! Mas, para além das graçolas inócuas para gáudio dos palecos, o que mostravam do que era a crua realidade da vida da maioria dos portugueses nessa época?
Agora, não é por acaso, que gente oportunista tenha vislumbrado encher plateias à conta desses êxitos do passado. No fundo, se as versões originais convinham a salazar, as suas remakes entram coração adentro no projeto de passos coelho em adormecer os eleitores com a mesma transfiguração da realidade dos nossos dias, pintando um país de cores, que ele notoriamente não tem.
Hoje, mais do que distrair os portugueses do que sentem na pele, importa despertá-los para a responsabilidade em servirem de agentes de mudança!!!