sábado, junho 20, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «Os biliões de Moscovo» de Christian Hans Schulz e Ulli Wendelmann (2015)

Tenho-o dito e redito: a Europa andou a semear ventos contra a Rússia e agora colhe a merecida tempestade.
Recordemos a História: o compromisso estabelecido entre os líderes europeus e o Kremlin depois da implosão da União Soviética pressupunha o respeito por uma área de influência, que nunca passaria por levar a NATO até às fronteiras russas. 
Porém, julgando o antigo inimigo demasiado enfraquecido para reagir, os Estados Unidos e a União Europeia trataram de fomentar os movimentos pró-ocidentais, que assumiam simultaneamente um discurso acintosamente anti-Moscovo.
Vinte cinco anos depois da queda do muro de Berlim, Vladimir Putin mostra-se disposto a ressuscitar a influência do seu país, não só verificada nos tempos do regime comunista, mas até anterior, porque já assim acontecia no tempo dos czares.
Resultado: os que promoveram o distanciamento com a Rússia tremem agora perante a possibilidade de verem nos investimentos dos oligarcas, amigos de Putin, na União Europeia, a comprovação de uma estratégia de sabotagem das democracias ocidentais.
É essa a questão deixada por este documentário: será que o dinheiro investido em gasodutos, nos estaleiros navais, no futebol ou no setor imobiliário, têm objetivos mais ambiciosos do que a mera vontade de lucrar com apostas económico-financeiras?
Há quem pense tudo isso relacionado com o sonho de Putin em ver os seus peões disseminados por todo o tabuleiro europeu para levarem por diante uma estratégia maquiavélica: dividir para reinar, como sucederia por exemplo se conseguisse colocar a França e a Alemanha desavindas.
O antigo chanceler Gerhard Schröder, membro da administração da Gazprom, é um infatigável defensor do estreitamento de relações económicas com Moscovo e poderia constituir um exemplo de protagonista desse tipo de lobista. E os franceses andaram felizes e contentes com um contrato para o fornecimento de navios de guerra à marinha russa até se verem obrigados a suspender a sua entregue em nome das sanções entretanto decretadas.
Ao mostrar o regime de Putin como despótico e mafioso, apostando na convergência entre governo, serviços secretos, crime organizado e oligarcas, o documentário não ilude quanto ao que tenta demonstrar. Até por tomar como testemunha privilegiada o político Boris Nemtsov, assassinado a 27 de fevereiro, num atentado talvez um dia esclarecido à luz da guerra contínua e nunca declarada entre a CIA e o antigo KGB. Porque, verdade, verdadinha, esse “mártir da democracia” também não tinha propriamente uns telhados lá muito bem protegidos... 

sexta-feira, junho 19, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «Comme un avion» de Bruno Podalydès (2015)

Bruno Podalydès tem sido referenciado como um realizador cujo universo tem ambições poéticas. Neste filme o protagonista é Michel, que sempre desejou ser piloto aviador, mas a quem a preguiça jamais permitiu esforçar-se para tal. Aos cinquenta anos até se descobre muito menos aventureiro do que se gostaria de reconhecer. A catarse de tal frustração acaba por encontrar solução numa viagem marítima em kayak.
Toda a lógica divertida do filme tem a ver com o que separa as ambições do personagem e do que ele acaba por cumprir. O desejo inicial de singrar na aviação depressa cai e o projeto de ser bem sucedido enquanto praticante do kayak, como se fosse um praticante de desportos radicais, tem de ser reponderado para uma dimensão bem menos ambiciosa apesar de se ter equipado como se se dirigisse até ao Pólo Norte. É que, poucos quilómetros decorridos depois da partida acampa num aprazível jardim pertencente a uma casa de hóspedes.
Estamos, pois, perante um daqueles personagens tão fáceis de encontrar à nossa volta em que se deteta uma considerável distância entre a visão megalómana das suas capacidades e o que acabam por conseguir realizar.
A partir daí acontecerá sempre a mesma coisa: quando procura retomar a sua expedição acabará invariavelmente por regressar à sua zona de conforto. Ora fica atordoado com o absinto e é encontrado no meio das árvores, ora acaba por desembocar num parque de estacionamento de  hipermercado onde tem de negociar a estadia com a respetiva segurança. Reencontrando sempre Laetitia e Mila.
A viagem iniciática abortará sucessivamente em função da incontornável ligação dele ao casulo.
Há em «Comme un avion» uma atenção constante ao detalhe. Vemos Michel a ter um prazer quase infantil na utilização dos seus gadgets, que mais não parecem do que brinquedos para adultos.
Imaginativo, Podalydès demonstra um fascínio pelos objetos, que evoca Buster Keaton, quando Michel acampa e tem por exemplo um alarme antimosquitos, que se revela bem mais insuportável dos que os mosquitos em si. Ou quando toma o pequeno-almoço no parque de estacionamento do supermercado ou nos jogos organizados por Laetitia para o atraírem a si.
Se estamos numa moral tipo carpe diem com algo de Amélie Poulain, o filme vai agradando graças às situações divertidas, que os argumentistas foram congeminando.
Como já se conhece da sua filmografia anterior, Podalydès é hábil a filmar o onírico, recorrendo a ele para infletir o ritmo e enriquecer a fotografia com uma imagem algo fantasmática.
Pode-se ser tentado a uma interpretação psicológica da história, mas estamos, sobretudo, numa proposta de momentânea descontração até ao desenlace otimista no qual Michel acaba por encontrar finalmente a satisfação afetiva.
É simples, funciona e acaba por ser agradável de se ver… sem ambicionar o estatuto de obra-prima! 

quinta-feira, junho 18, 2015

IDEIAS: Darwin tem culpa por ter razão?

Não costumamos ver as coisas como são, mas em função das etiquetas, que lhes são coladas.
Por exemplo um epicuriano tende a ser visto como uma pessoa anafada e prazenteira, sempre disponível para colher da vida o que mais se coaduna com o que lhe agrada. E, no entanto, Epicuro era um asceta!
Maquiavélico costuma ser associado a atitudes malévolas. Mas o verdadeiro Maquiavel era um homem, que preferia ver a realidade do que aceitar uma perspetiva idílica sobre os comportamentos humanos.
O cartesiano é visto como aquele que substitui Deus pela Razão. E, no entanto, Descartes faz precisamente o contrário nas suas «Meditações Metafísicas».
Com Darwin aconteceu algo de semelhante a propósito da versão simplista da sua teoria sobre a suposta lei do mais forte. Ideologias repugnantes como a da escravatura, do racismo ou do nazismo encontrariam nela fundamento para se justificarem. E nós seríamos tentados a aceitar a ideia conformada em como gostaríamos que o mundo não fosse assim, mas constituindo essa a realidade. Uma espécie de remake daquela fórmula hipócrita da sociedade vitoriana em como se aceitariam verdades, desde que delas não se falasse.
No entanto Darwin não diz propriamente que seja sempre o mais forte a prevalecer. Senão ainda viveríamos na época dos grandes dinossauros. O que defende é que, em certas condições, só sobrevivem os que possuem as características mais adaptáveis às transformações em curso.
Ao contrário do que pressupõem os criacionistas uma girafa não tem um pescoço comprido, porque o Criador também tratou de arranjar árvores com ramos muito elevados, mas por terem progressivamente alongado essa parte do corpo e alcançarem assim as folhas mais tenras.
Continuista por natureza, Darwin acreditava numa lenta alteração dos seres de forma a melhor aproveitarem as oportunidades de sobrevivência suscitadas por tudo quanto os rodeia. São as diferenças entre os indivíduos da mesma espécie que, ao longo de um prazo prolongado, os habilita a melhor existirem.
Darwin até demonstrou a falsidade dessa superioridade inevitável dos mais fortes ao referenciar o amor maternal e paternal: os seres frágeis à nascença sobrevivem graças ao instinto protetor dos progenitores. Por isso mesmo, o próprio Darwin foi sempre um tenaz opositor do colonialismo, da escravatura e do racismo. O eugenismo ou a errónea fórmula de um suposto «darwinismo social» merecer-lhe-iam decerto a mesma condenação. Mas  não se conseguiu livrar de uns «herdeiros», que deram uma versão perversa do que defendeu. Aconteceu o mesmo com as religiões: podem defender o amor entre as pessoas, que, logo à sua pala, surgem uns criminosos capazes de nelas justificarem os instintos homicidas.
Na realidade, ninguém é responsável pelo comportamento de quem lhes reivindica a sucessão...

SONORIDADES: sons tradicionais do Ribatejo

Confesso que não sou um grande apreciador da música tradicional praticada no Ribatejo. Dizem-me pouco o espírito marialva dos que cantam as vicissitudes de touros e toureiros na lezíria. Mas este episódio da série de Tiago Pereira tem a piada de entrevistar quem se habituou a construir instrumentos musicais sem ter outros conhecimentos, que não os da sua observação e argúcia. Ou as histórias de miúdos incumbidos, logo aos dez anos, de andarem a pastorear animais... 

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «Dança de Sombras» de James Marsh (2012)

Confesso ter entrado neste filme com algumas desconfianças: detesto filmes maniqueístas, sobretudo se apresentam opressores como modelos de virtudes e oprimidos como malfeitores do piorio. Mas, à medida que a história foi evoluindo, concluí estar perante algo de ambíguo, suficientemente capaz de agradar e desagradar ao mesmo tempo a quem se posiciona no conflito anglo-irlandês num dos lados. No fundo estamos perante uma intriga com algo de John Le Carré, ademais realizada por um cineasta, que já surpreendera com o documentário “Man on the Wire” em torno do funâmbulo Philippe Petit e da aventura de atravessar num cabo a distância entre as duas Torres Gémeas do World Trade Center em 1974,
De início temos uma cena passada em Belfast em 1973: o pai de Colette incumbe-a de ir-lhe buscar cigarros, mas ela consegue transferir para Sean, o irmão mais novo, a incumbência. Ora ele não tarda a ver-se no meio de um fogo cruzado entre o IRA e os ocupantes ingleses, morrendo de imediato. A memória do olhar acusador do pai a olhá-la nunca mais irá abandonar Colette.
Vinte anos depois ela é presa em Londres devido a uma tentativa falhada de atentado no metro de Londres.
Procurando valer-se dela ter um filho, que ameaçam retirar-lho para o colocarem no serviço de adoção e de a aprisionarem durante 25 anos, o MI5 obriga-a a tornar-se informadora numa altura em que se discutem as condições para a paz entre os beligerantes.
Voltando para Belfast, Colette exime-se de aparecer ao primeiro encontro com o agente de ligação, e por isso voltam-na a prender. É para não ser incriminada, que dá a primeira informação: os irmãos, Gerry e Connor, preparam-se para matar o polícia responsável por terem sido incriminados pela morte do dono da gráfica onde ela trabalhara e reconhecido traidor.
Mac, esse elo entre o MI5 e Colette, desaprova a decisão dos chefes em utilizarem as forças especiais para evitarem o atentado revelado por ela … e em que é obrigada a participar.
Um dos cúmplices de Gerry e de Connor morre, quando se preparava para iniciar a ação. Para o líder da célula independentista justificam-se sérias dúvidas quanto ao comportamento de Colette: torna-se-lhe crível ser ela a delatora, que fizera abortar o plano previsto, e pondera executá-la.
Pelo seu lado Mac também desconfia dos seus chefes: porque lhe terão vedado o acesso a dados fundamentais para compreender todos os aspetos em que recorria ao que Colette lhe contava? Parece-lhe óbvia a possibilidade de existir a intenção de proteger a identidade de outro informador, mais importante na rede irlandesa, e cuja salvaguarda incluiria «queimarem» Colette. Aprofundando a investigação descobre ser a própria mãe da rapariga a trabalhar clandestinamente com os serviços secretos ingleses desde 1973.
Para a poupar é o próprio Mac quem passa para o IRA a identificação da outra informadora com a esperada consequência: não tardará que o cadáver da anciã apareça num baldio!
As coisas não ficam, porém, nesses termos: Colette e os irmãos fazem explodir o carro de Mac, quando ele liga a ignição e logo desaparecem de Belfast sem deixarem rasto…
Num pormenor adicional cabe o espanto com o aspeto atual de Gillian Anderson: não figurasse ela no genérico enquanto chefe de Mac e não a veria nada como a Scully dos «Ficheiros Secretos»... 

quarta-feira, junho 17, 2015

DIÁRIO DE LEITURAS: O comprometimento fascista de Le Corbusier

Um dos grandes acontecimentos agora em curso na capital francesa é a exposição dedicada ao arquiteto Le Corbusier no Centro Pompidou.
Considerado um visionário e um grande teórico da modernidade, ele dedicou-se igualmente à pintura e à escultura, tornando-se numa das principais referências artísticas do século XX.
O objetivo da exposição é o de dar a conhecer a obra em função da proporção humana, que ele assumiu como inspiradora da composição espacial e das dimensões de todos os seus projetos arquitetónicos.
A conceção do «Modulor» (1944) - silhueta de um corpo humano com 1,83 m -, formaliza um sistema de proporções baseado no número de ouro e que permitiria organizar todas as construções de acordo com a morfologia humana. No entanto, o «Modulor» - que se converteu num verdadeiro sistema normativo para numerosos arquitetos - parece ter sido interpretado como uma ferramenta métrica, uma medida meramente abstrata capaz de organizar a arquitetura de acordo com uma racionalidade geométrica.
A exposição aprofunda essa pesquisa de Le Corbusier em torno do corpo em movimento, que define a sua definição de euritmia (um dos cinco fundamentos da arquitetura, o «bom ritmo», a proporção). Ele trabaha esse princípio por volta de 1910 influenciado pela escola de Hellerau, cidade-jardim junto a Dresden onde o irmão, Albert Jeanneret estudava com o compositor e pedagogo Emile-Jacques Dalcroze. Nesse local privilegiado para a criação artística, desenvolvia-se o método rítmico, que regia o estudo da música e da coreografia no quadro de uma pedagogia do movimento baseada na perceção física e na cognição captada a partir da interação do espaço, do tempo e da energia. São noções que muito influenciarão Le Corbusier.
Estava, pois, tudo preparado para celebrar o génio artístico do arquiteto, quando aparece Xavier de Jarcy a estragar a festa com a publicação de um livro, que o define como fascista. É que ele esteve, de facto, fascinado por essa ideologia ao longo das décadas de 20 e de 30, quando nela viu refletida a sua vontade em construir um mundo regenerado, viril, mecânico, hierarquizado e autoritário. Tratava-se de um projeto que coincidia com as cidades ultramodernas, que imaginava, estandardizadas como se saídas de uma linha de produção. Uma espécie de termiteiras dotadas de uma estética austera e altiva ao serviço de uma nova civilização.
Le Corbusier publicou evidências desse entusiasmo em revistas violentamente contrárias à democracia, convivendo com ideólogos mais do que duvidosos e subscrevendo textos abjetos, alguns da sua própria autoria.
Apoiante convicto do regime colaboracionista de Vichy, conseguiu, porém, nunca vir a ser confrontado com tal comprometimento.
O que o livro questiona é a razão que terá levado uma personalidade tão vinculada a sonhos totalitários feitos em betão a ser tido como o maior arquiteto do século XX e como a França fez dele um verdadeiro herói nacional. Porque a sua biografia coincide com a terrível história de um fascismo na sua versão francesa.

terça-feira, junho 16, 2015

DIÁRIO DE LEITURAS: Douglas Kennedy, um americano em Paris

Há 15 anos o escritor Douglas Kennedy decidiu mudar de vida e aprender a língua francesa. Após oito anos de esforços conseguiu ficar quase bilingue e passa muito tempo em Paris, embora também resida uma parte do ano em Berlim, em Londres, em Montréal e numa pequena vila norte-americana. A vocação de viajante leva-o a aventurar-se pelo mundo, onde encontra matéria para, agora, convidar os leitores a acompanharem-no a Marrocos onde se passa o seu mais recente romance. «Mirage».
A infância foi triste e complicada num bairro do west side de Manhattan, com um pai católico irlandês, que se dedicava aos negócios, e uma mãe hoje por ele assimilada a uma Ema Bovary judia tal qual poderia aparecer nos romances de Philip Roth. Em adulto, sentiu exacerbarem-se-lhe problemas existenciais que passou a exorcizar na atividade de escritor. Antes do sucesso literário fez múltiplas coisas, desde encenador em Berlim a jornalista e crítico literário na Irlanda.
O segredo da empatia que suscitou em numerosos admiradores reside no relato de vidas em reconstrução onde as pequenas mentiras desvendam as grandes verdades, sobretudo ao tomar como pano de fundo os personagens que se desejam ver noutro sítio, que não o seu, nessas conjugalidades fracassadas e cheias de imprevisíveis desenlaces.
Com a história de um casal em crise a viajar no Sahara, Douglas Kennedy reconhece, em «Mirages», a sombra inspiradora de Paul Bowles e da grande rainha do suspense, Patricia Highsmith.
Robyn, a protagonista, está quase a chegar aos quarenta anos e sabe ser essa a altura decisiva para apostar, ou não, na maternidade. Quanto ao marido a ideia não se coloca, desejoso de prosseguir a existência hedonista, que tem sido a sua até aí.
A questão que se coloca é a de saber se o amor é mais do que uma miragem, já que as mentiras e as traições surgem quando menos se espera.
Robyn sabe que Paul está longe da perfeição. Artista errático e irresponsável na forma como gasta o que ganha, lida mal com os limites do quotidiano. Embora se amem, sentem que a crise é iminente.
A viagem a Marrocos é vista por ambos como  a oportunidade para um reencontro afetivo, mudando de ares, aproveitando a maior disponibilidade para estarem a dois e talvez gerarem esse bebé por ela tão desejado.
A aposta parece ganha logo que chegam, porque ele põe-se a pintar e Robyn a sentir-se feliz. Mas, de súbito, revela-se um segredo tão pesado e explosivo, que tudo destrói, tanto mais que Paul desaparece.
Vivendo um intenso sofrimento, mas aterrorizada pela ideia de perder aquele que não pode deixar de amar, Robyn decide procura-lo. E essa busca condu-la ao fundo dela mesma...
Para além da intriga em si, o romance é muito revelador quanto à atração de Douglas Kennedy pela paisagem marroquina, fruto das suas doze viagens até tais paragens e, sobretudo, pelo fascínio em si exercido pela cultura berbere. Mesmo que enjeite a oportunidade para denunciar o Estado policial, que adota metodologias mais do que equívocas.

segunda-feira, junho 15, 2015

DIÁRIO DE LEITURAS: As aparências enganadoras de Havana

Na semana passada soube-se que o cubano Leonardo Padura foi galardoado com o mais importante galardão espanhol: o Prémio de Literatura Princesa das Astúrias. Trata-se de justo reconhecimento para um escritor, que nunca abdicou de viver no seu país e do qual tem traçado um retrato sem concessões.
Contrariando uns quantos exilados, que se queixaram de não possuir condições para prosseguir a carreira literária sob as limitações impostas pelo regime castrista, Padura tem demonstrado que, não só isso é possível, como até contribui para o ver forçado a refletir sobre as contradições das suas políticas.
Em «Morte em Havana» («Mascaras» no título original), que acabei ainda agora de ler, o género policial serve de pretexto para uma crítica contundente a muitos dos problemas do regime.
Logo de início encontramos o detetive Mário Conde a viver numa semi-suspensão por ter sido considerado indisciplinado: incapaz de se acomodar  à bajulação da hierarquia e ao uso de vestimenta conformada com o estado das coisas, ele adivinha um futuro problemático numa profissão ainda assim capaz de o entusiasmar.
Quando lhe voltam a atribuir a investigação de um caso sórdido - o assassinato de um travesti num bosque de Havana - Conde agarra a oportunidade com a determinação de quem se sabe ameaçado de não voltar a ter mais nenhuma. E faz de um velho dramaturgo homossexual, Alberto Marqués, o seu guia para conhecer melhor um universo que os seus preconceitos tenderiam a execrar.
Há uma razão para essa opção: até aparecer de vestido vermelho no local onde fora encontrado, Alexis tinha vivido com aquele intelectual autoexilado na residência onde Conde encontra uma biblioteca exuberante.
Conde acaba por esquecer o seu machismo visceral e sentir um fascínio crescente pela cultura do novo amigo, muito embora adivinhe os dissabores a que se sujeite devido ao ideário antirrevolucionário que lhe podem assacar.
E conhece, assim, os subterrâneos de uma Havana decadente onde são diárias as festas em que a boémia e os costumes mais dissolutos dão as mãos. Ele, que há muito vivia as agruras do celibato, acaba na cama de uma rapariga muito jovem, mas com uma experiência sexual donde se excluem todos os limites da moral dominante.
O detetive mergulha assim num mundo sensual e transgressor onde se realçam as misérias e grandezas de Cuba nesse ano de 1989, que se tornaria bastante relevante por ser aquele em que, implodido o império soviético, Fidel teve de encontrar arte de sobreviver à condição de se ver convertido no único ainda a manter elevada a flâmula de uma versão fracassada do ideário comunista.
Após pistas que conduzem a nenhum sítio e outras que pareciam sem nexo e se tornam particularmente relevantes, Conde descobre o assassino: o próprio pai de Alexis, um prestigiado dirigente do regime cujos ardores revolucionários nos finais dos anos 50 tinham sido por ele fraudulentamente inventados. E, demonstra-o Padura: os mais fanáticos representantes da ideologia são precisamente aqueles que a ela mais tardiamente chegaram, eivados de um indisfarçável oportunismo.

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «A Questão Humana» de Nicolas Klotz (2007)

Que eu saiba este filme de Nicolas Klotz não passou em Portugal apesar de contar com Mathieu Amalric e Michel Lonsdale  - dois dos melhores atores franceses - nos principais papéis. Trata-se da investigação de um psicólogo na sua própria consciência. Ele é Simon, que trabalha na área de recursos humanos na filial de um grande grupo petroquímico alemão, onde é apreciada a sua eficácia na gestão de despedimentos.
Encontramo-lo quando é incumbido por Karl Rose, um dos principais administradores, da investigar sobre o seu superior hierárquico, Mathias Jüst, que se parece estar em vias de enlouquecer.
Para melhor o conhecer, Simon contacta-o para saber mais coisas sobre o quarteto de cordas a que ele em tempos pertencera, pretextando a ambição de fundar uma pequena orquestra na empresa. Mas, à medida que vai contactando com as perturbações efetivas de Mathias, Simon vai sentindo vacilar o seu próprio equilíbrio interior.
Jüst acaba por revelar a Simon o quanto sabe da sua missão, já que o verdadeiro objetivo de Rose é neutralizá-lo por lhe ter descoberto o passado comprometedor nas Juventudes Hitlerianas. Mas tenta suicidar-se na mesma altura em que, de forma anónima, chega a Simon um documento perturbador sobre a forma de exterminar pessoas em camiões de gás. O autor de tal plano técnico teria sido o pai de Jüst e Simon acaba por descobrir quem lho enviara: Arie Neuman, um antigo membro do quarteto de cordas, que fora uma das vítimas dos despedimentos por si supervisionados.
Encontrando-se com ele, este conta-lhe como vira o pai participar numa captura de judeus durante a guerra, apesar de não passar de um mero polícia, um funcionário como Simon…
Após ter-se interessado pelos sem abrigo («Paria») e pelos sem-papéis («La Blessure»), Nicolas Kltz interessou-se pelo horror económico, investigando os que o fazem funcionar.
O ponto de partida pode lembrar «Apocalypse Now» (um homem incumbido de investigar sobre um superior hierárquico acusado de ter enlouquecido) ao converter-se numa descida aos infernos, mais elegante, mas não menos vertiginosa.
Ambíguo e perturbante, o filme lembra continuamente o atrito entre as imagens e as palavras, entre as sensações e as ideias, resultando numa representação analítica e impressionista sobre os nossos dias.
Pode parecer forçada a comparação entre a Solução Final e os comportamentos das empresas para com quem nelas trabalha, mas continua a tratar-se de jogar com as palavras, envolvendo-as numa aparência técnica de forma a tornar aceitável o inaceitável. Ou seja, a demonstração de como a eliminação do humano na linguagem permite a eliminação desse mesmo fator humano no próprio homem.
Ao passar o genérico final conclui-se que se esteve perante um filme que pensa e faz pensar, com o mérito acrescido de ter apelado a todas as faculdades da perceção e a todas as possibilidades cinematográficas... 

domingo, junho 14, 2015

DIÁRIO DE LEITURAS: Afinidades familiares a longa distância

Nos muitos anos a percorrer as sete partidas do mundo foram muitos os portugueses, que encontrei nos sítios mais inesperados. A tese de ser fácil encontrar um português em qualquer latitude e longitude não foi difícil de aceitar tendo em conta que a diáspora lusa estendeu-se, de facto, por todo o lado. No entanto, curiosamente, nesses compatriotas encontrei muitos apelidos, mas nenhum que coincidisse com o meu.
Não teriam sido os Rochas dados à aventura, permanecendo acomodados neste cantinho à beira-mar plantado até que, chegada à minha vez, investisse finalmente por esses oceanos adentro?
Ao fim de tantos anos convenci-me desse facto, tanto mais que não deparei na própria História pátria, tão marcada para o melhor e para o pior pela gesta marítima, com qualquer Rocha que se destacasse. O único, que me aparecera, algures nas páginas dedicadas ao século XVII, pertencera à Inquisição, «notabilizando-se» pelo afã em queimar bruxas e judeus. Não se tratava, portanto, de cartão de visita, que se apresentasse num acontecimento social.
Agora, finalmente, a reportagem em forma de livro, que Ferreira Fernandes dedicou à migração madeirense, trouxe-me notícias de eventuais parentes distantes:  uma tal Audrey Rocha, que o autor conheceu em Honolulu, impediu o cônsul honorário de promover uma risível comemoração quanto à chegada dos portugueses às ilhas Sandwich, como então era conhecido o Havai. E aí sim, se no longo desenrolar da «linhagem» dos Rochas, eu e essa Audrey possamos ter alguma afinidade familiar, já outro será o estado de alma perante a sageza do seu militantismo político.
É que o acontecimento, que o cônsul queria assinalar era o da chegada do navio “Eleanora” ao arquipélago, quando decorria o ano de 1786 e no seu rol de tripulação constavam nove portugueses!
O que se passou então? Logo na primeira noite fundeado na baía da ilha de Mauí, uma barcaça e o marinheiro de vigia desapareceram.
Exigindo à população local a devolução do que desaparecera, o comandante Simon Metcalfe, recebeu um bocado da quilha e os fémures do infeliz marinheiro.
Com frieza, mandou dizer para terra, que pretendia comprar mantimentos e água para prosseguir viagem.
Imaginando a possibilidade de fazerem um bom negócio, dezenas de nativos carregaram as pirogas e vieram vendê-los a bordo. Convidados a subir para o convés e encaminhados na direção da proa, foram chacinados sem qualquer misericórdia.
Teria sido essa equívoca interação entre os portugueses da tripulação e a população havaiana, que o cônsul queria comemorar e Audrey cuidou de impedir. É que se o acontecimento histórico representava uma tragédia a sua evocação festiva só poderia converter-se numa patética anedota...

sexta-feira, junho 12, 2015

SONORIDADES: o ressurgimento da viola campaniça

O quinto programa da excelente série de Tiago Pereira é dedicado à viola campaniça, instrumento quase imprescindível na casa de qualquer alentejano durante muitos anos, mas caído em declínio depois da Revolução de Abril.
O ressurgimento recente deve muito a gente jovem, que Pedro Mestre se encarrega de entusiasmar para o seu domínio.
Num programa, que também é de testemunhos de vida, relembra-se a fome e a miséria do passado, quando a música servia de magro paliativo para os apertos do estômago. E também se recorda que o Alentejo era terra de muitos cantares, por muito que tenha sido o canté a prevalecer como imagem de marca da região. Enquanto este tipo de canto era aquele que os homens entoavam, quando iam para o trabalho, existiam outros associados aos bailes, que também comportavam as cantigas de improviso ou de despique.

quinta-feira, junho 11, 2015

DIÁRIO DE LEITURAS: À descoberta de Ingo Schulze (1)

Ingo Schulze nasceu em Dresden  em 1962 e é considerado na Alemanha como o escritor da reunificação. O seu terceiro romance - “Histoires sans gravité. Un roman de la province est-allemande” - teve um enorme sucesso, não só da crítica, mas também dos seus próprios pares, que o tomam como uma das mais prometedoras vozes da literatura alemã dos nossos dias.
Depois de estudos em Filologia Clássica, Ingo Schulze optou pela carreira de dramaturgo em Altenbourg e de crítico numa revista semanal por si fundada e com papel determinante nos acontecimentos de Leipzig em 1989.
Uma estadia em São Petersburgo no início dos anos 90 forneceu-lhe matéria para os seus “33 moments de bonheur”, que correspondem a outras tantas histórias enfiadas umas nas outras como se fossem matrioskas, que no todo constituem um romance de aventuras recheado de histórias onde o fantástico e o maravilhoso competem com o sórdido e o grotesco.
O autor faz-se passar pelo editor de um manuscrito, que lhe teria chegado pelas mãos de uma mulher depois de o ter encontrado abandonado por um estranho passageiro chamado Hofmann no comboio entre Berlim e São Petersburgo.
Nesse texto percebe-se que ele prefere inventar as situações, que relata do que investigar minuciosamente o seu conteúdo. Dificilmente se pode encontrar maior distância entre um autor e a sua obra feita de histórias de estilo e tonalidades muito diferentes entre si, que refletem o caos da transição da União Soviética para a Rússia desse início da década de 90.
Ora optando pelo registo policial ora pelo monólogo intimista - como o do empregado de escritório apostado em fugir à desordem, que o cerca, agarrando-se à imperturbável rotina do seu quotidiano - elas revelam o retorno à Rússia de algo que se julgava esquecido ou recalcado: um museu quase abandonado transforma-se num local de peregrinação só porque há quem creia nos milagres causados por um ícone ali exposto. Ou uma mulher que, numa praça pública, se une a um moribundo acompanhando-o na passagem para o além, e é depois venerada como uma santa. Ou um homem de negócios tão bom anfitrião, que recebe um visitante ocidental e põe-lhe à disposição a casa e a própria esposa. Ou ainda o tráfico de armas empreendido por um grupo de miúdos.
Em vez de se revelarem vítimas lacrimejantes ou estereótipos, as personagens de Schulze transformam-se em figuras míticas num país que se deixa empurrar para a mudança como se se tratasse do destino incontornável das antigas tragédias gregas.
À medida que se avança na leitura começa-se a suspeitar que a sombra do grande E.T.A. Hoffmann sobrevoa esse misterioso Hofmann, suposto autor do manuscrito perdido. Pouco dele se saberá para além de o identificarmos como um leitor apaixonado da literatura universal. Cabe ao leitor deliciado seguir as pistas que levam a Pouchkine, Nabokov, Boulgakov ou Daniel Charms.

quarta-feira, junho 10, 2015

ARTES: Criaturas estranhas na areia

Há vinte anos que o holandês Theo Janssen cria esculturas móveis, miriápodes de tubos e de garrafas de plástico, que começa por desenvolver no papel. As suas criaturas da praia, como as chama, constituem o projeto da sua vida.
Construir, experimentar e imaginar são a sua razão de ser. Os objetos artísticos deste engenheiro diplomado em física e antigo pintor captam o vento nas asas muito leves e deslocam-se sozinhos como se tivessem membros fossem feitos de carne e osso. Lembram então gigantescos insetos ou esqueletos em movimento, seres fantásticos de um outro mundo ou outro tempo, que passaram a fazer parte da paisagem da praia de Scheveningen.
As criaturas imaginárias de Jansen são tão sofisticadas quanto simples e sempre construídas de acordo com o mesmo princípio de base. Divertidas e surrealistas, respeitam a natureza e atraem um número sempre crescente de visitantes.
Para construir estes espécimes são necessários poucos materiais: sobras de tubos de PVC, fita adesiva, elásticos, bem como o tecido leve que compõem as suas asas.
As ferramentas também não são muitas: tesouras, cerra-cabos,  pinças. E uma tocha que lhe permite aquecer e curvar os tubos. Cria assim elementos e peças quase anatómicas: nervos, estômagos, articulações, patas.
A produção segue o ciclo das estações: começa no inverno no atelier do artista em Haia. As criaturas nascem no papel antes de modelizadas no computador para serem fabricadas. Uma criatura por ano. Cada uma é única e diferencia-se das precedentes.
Na primavera é transportada para a praia onde Theo Jansen faz os derradeiros testes de aerodinâmica da criatura. No final da estação, martirizada pelas intempéries e pelo pó, é eliminada porque as articulações endurecem e enferrujam com o tempo, como se fosse qualquer outro organismo vivo.
A acreditar no artista estas criaturas já estariam na sétima geração de uma evolução para uma nova espécie viva e autónoma. Porque são capazes de se adaptarem ao seu meio ambiente, agarrarem-se à areia quando chegam as tempestades e de reconhecerem os obstáculos de forma a mudarem de direção, quando contactam com a água. 

PLANOS CRUZADOS: Pilsen 2015, uma das Capitais Europeias da Cultura de 2015

Plzeň ou Pilsen, que fica a 120 quilómetros de Praga e conta com 200 mil habitantes, orgulha-se da arquitetura do tipo «casas de bonecas», existente no seu centro histórico, da herança barroca e dos ecos faustosos do império austro-húngaro.
Fundada em 1295 por Venceslau II da Boémia, a cidade checa foi, durante muitos anos, uma das mais belas joias da monarquia danubiana, uma espécie de Bela Adormecida conservadora.
A antiga sede da produção dos automóveis Skoda e capital mundial da cerveja Pils agarrou a oportunidade de mudar de imagem.
Pilsen revisita a sua identidade e redescobre-se como Capital Europeia da Cultura. Se, no período soviético, primou o seu lado industrial, agora procura valer-se da vertente cultural.
Sob a divisa Open up a velha Europa apresenta jovens artistas, que associam  a tradição e a criatividade, apostam no potencial da cidade onde vivem e propõem uma outra abertura de espírito, uma outra perspetiva do que é a cultura. Para os artistas, os organizadores e os cidadãos mais esforçados, Pilsen 2015 traduz-se num projeto esperançoso, que seja motor de inovação e de investimento no futuro.
Com mais de seiscentos eventos, que passam pelo circo, pelo teatro, pela arte em espaços públicos e muito humor, a quarta cidade checa está pronta para desvendar os seus tesouros. As fábricas em ruínas, as caves, os quintais nas traseiras das avenidas e ruas, transformaram-se em locais de exposições. As tradições de Pilsen como o teatro de marionetas e a música folclórica redescobrem-se e ressuscitam das cinzas.
Durante este ano em que é capital cultural o público pode aceder, pela primeira vez, à decoração do austríaco Adolf Loos, pioneiro da arquitetura moderna e despojada, lembrando os tempos em que ele correspondia às encomendas dos industriais e comerciantes mais abonados, na maioria judeus.
Antes da Segunda Guerra Mundial, Pilsen tinha a segunda maior sinagoga da Europa e a terceira a nível mundial para servir a dinâmica comunidade judaica, lembra o fotógrafo Radovan Kodera, que se tem dedicado a captar a história da cidade, sobretudo desde os acontecimentos de 1989. Ele tem atelier na própria praça onde fica a catedral de São Bartolomeu com a torre mais elevada do país.
O centro gótico, as casas do estilo art nouveau e a praça em si, estão classificados como monumentos históricos. Todas as ruas irradiam diretamente desse centro.
Na era comunista esse centro histórico estava cercado por uma cintura industrial com vários quilómetros de largura, dominadas pelas fábricas da Skoda.
Segundo o arquiteto Jakub Mares o urbanismo de Pilsen é inigualável. Com a sua associação «No Mundo» apostou na reabertura do mais antigo cinema da região, onde organiza serões culturais.
Por seu lado, Blanka Josephová-Lunáková conta a tradição secular das famílias de marionetistas, que percorriam a região desde o século XVII, e que agora revive na mítica sala Alpha. Após ter estudado o teatro de marionetas em Praga, ela regressou a Pilsen, onde crescera num bairro operário hoje muito degradado.
Em 2015 o teatro de marionetas está em pleno ressurgimento, muito embora a intenção de Blanka seja a de fabricar artesanalmente bonecas e marionetas passíveis de se transformarem num produto sustentável de exportação para outros mercados.
Concluamos a abordagem a esta capital cultural europeia de 2015 com Vojtech Kouba e o seu agrupamento folclórico Lidová Muzika. Para ele já estão distantes, mas não esquecidos, os anos em que a música popular lhe servia de arma de combate contra o regime comunista.
A queda do muro extinguiu essa tradição e Kouba pretende-a recuperar com um conjunto de concertos programados para todo o ano e com um disco  capaz de representar o seu contributo para a referida busca identitária de uma cidade em mudança.